Engana-se quem pensa que pneumonia é doença só de idosos

Oito em cada dez mortes por pneumonia no Brasil entre 2015 e 2017 foram de idosos, o que corresponde a mais de 80% das mortes pela doença. Nesse período, foram registrados cerca de 200 mil óbitos por causa da doença, uma média de 66,5 mil casos por ano. Mas engana-se quem pensa que pneumonia é só uma doença de idosos: esta é a principal causa de morte em crianças de até 5 anos de idade.

A cada minuto, duas crianças morrem da doença, representando 16% das mortes infantis em todo o mundo e 80% dos óbitos abaixo dos dois anos de idade. A doença também é uma das principais causas de hospitalização e óbito em crianças menores de cinco anos. 

Dados do DataUnicef, ligado ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), também alertam para os riscos da doença que é a maior causa de morte por doença infecciosa de adultos e crianças, sendo responsável pela morte mais de 802 mil crianças com até cinco anos, em 2018, em todo o mundo. A entidade chama atenção para o fato de que, no mundo, a cada 39 segundos morre uma criança vítima de pneumonia.

Segundo a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), embora a taxa de mortalidade da pneumonia tenha tido uma redução de 25,5% entre 1990 e 2015, a quantidade de internações e o alto custo do tratamento ainda são desafios para a saúde pública e a sociedade como um todo.

“Entre janeiro e agosto deste ano, 417.924 pacientes foram hospitalizados por causa de pneumonia no Brasil, totalizando gastos totais de mais de R$ 378 milhões com serviços hospitalares. No mesmo período do ano passado, foram 430.077 internações, de acordo com informações do Datasus”, informa a entidade.

Covid-19 pode aumentar mortes por pneumonia em 75%

A pandemia do novo coronavírus também é um fator a mais de preocupação. De acordo com o Ministério da Saúde, em todo o mundo a Covid-19 pode provocar um aumento das mortes por pneumonia por “todas as causas” em mais de 75%.

Estima-se que as interrupções do atendimento nos serviços de saúde, por conta da pandemia, possam causar até 2,3 milhões mortes infantis adicionais – 35% delas por pneumonia e sepse neonatal.

O MS ainda ressalta a necessidade de se trabalhar para aumentar o acesso ao oxigênio medicinal. “O oxigênio sempre foi um remédio essencial e a covid-19 está mostrando ao mundo o quanto ele é importante”, disse o ministério.

Para alertar sobre os riscos da infecção e formas de prevenção, a Organização Mundial da Saúde (OMS) instituiu a data de 12 de novembro como Dia Mundial de Combate à Pneumonia.

A doença

A pneumonia é um importante problema de saúde pública. A doença inflamatória aguda que acomete os pulmões pode ser provocada por bactérias, vírus, fungos ou pela inalação de produtos tóxicos. O Streptococcus pneumoniae é o agente causador em 60% dos casos.

As principais manifestações clínicas da doença são tosse com produção de expectoração; dor torácica, que piora com os movimentos respiratórios; mal-estar geral; falta de ar e febre.

Sua transmissão ocorre através de gotículas contaminadas com estes microrganismos, liberadas ao tossir ou espirrar. Os agentes infecciosos da pneumonia estão comumente presentes no canal nasofaríngeo de crianças, que são as principais transmissoras, mesmo quando não apresentam sintomas. 

O agente infeccioso mais comum na pneumonia é o Streptococcus pneumoniae, também conhecido como pneumococo, bactéria responsável por 60% dos casos, que também pode causar otite média, bacteremia e meningite. 

Estima-se que praticamente todas as crianças, em algum momento da fase pré-escolar, tenham sido transmissoras do pneumococo em pelo menos uma ocasião, assim como adultos que têm contato direto com elas.

A doença também é importante na população idosa, onde 25% dos infectados pelo pneumococo evolui para o óbito. As manifestações clínicas da pneumonia mais comuns são tosse com expectoração, dor torácica, mal-estar geral e febre.

Além disso, quadros de resfriado comum e gripe podem se agravar e contribuir para o desenvolvimento da pneumonia causada por bactérias. A pneumologista Rosemeire Maurici da Silva, integrante da Comissão Científica de Infecções Respiratórias da SBPT, lembra que a qualquer sinal desses sintomas a pessoa deve procurar um médico.

Devemos ficar atentos para os sinais e sintomas e procurar auxílio médico precocemente, principalmente no caso de pacientes que apresentam maior risco de complicações e de morte, como crianças e idosos, além de portadores de outras doenças crônicas ou situações em que ocorre deficiência do sistema imunológico”, disse Rosemeire.

Recomendações

As principais recomendações da SBPT para prevenir a pneumonia são lavar as mãos com frequência; não fumar; não usar bebidas alcoólicas; evitar aglomerações e se vacinar. No Brasil, a vacinação contra a doença é oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de forma gratuita.

Algumas das populações prioritárias para a vacinação são os adultos com idade igual ou superior a 60 anos, portadores de doenças crônicas, indivíduos em situação de imunossupressão, gestantes, residentes em lares de idosos, profissionais da saúde, cuidadores de crianças, indígenas, população carcerária, tabagistas e portadores de asma.

Além da pneumonia, o SUS garante o acesso gratuito a 19 vacinas, que protegem contra mais de 40 doenças, entre elas doenças infecciosas como a poliomielite, meningite, difteria, tétano, coqueluche, sarampo, caxumba, rubéola, hepatites virais, gripe, tuberculose, febre amarela, entre outras.

Vacinação pneumocócica no SUS desde 2010

A vacina pneumocócica conjugada 10-valente (VCP10) foi introduzida no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2010. Desde então, o número de internações pela doença diminuiu cerca de 21% em unidades públicas de saúde. Essa redução contempla diversas faixas etárias e pode estar relacionada à imunização realizada na rede pública e privada.

“O advento das vacinas pneumocócicas conjugadas representou um importante avanço na redução da morbimortalidade relacionada à doença pneumocócica. Em 2020 atingimos a marca de 10 anos de introdução da vacina pneumocócica 10-valente (VPC10) no Brasil. Primeiramente é preciso destacar que é mais uma conquista do nosso Programa Nacional de Imunizações (PNI). Em segundo lugar, é importante registrarmos que, desde sua introdução em 2010, a VPC10 produz resultados muito positivos para saúde pública não somente no combate a pneumonia, mas em todo o espectro da doença pneumocócica, que inclui otite média aguda (OMA) e meningite pneumocócica.

Além disso, os dados disponíveis mostram importante efeito de rebanho com a VPC10, ou seja, a proteção de indivíduos não vacinados através da proteção gerada nos indivíduos vacinados. Embora estejamos no rumo correto, é preciso notar que as metas de cobertura vacinal estão abaixo do recomendado, o que reforça o papel que todos nós temos na sociedade, garantindo que a caderneta de vacinação dos nossos filhos esteja atualizada”, aponta o Dr. Emersom Mesquita, infectologista e gerente médico de vacinas da GSK.

O Programa Nacional de Imunizações (PNI) recomenda duas doses da vacina pneumocócica 10-valente (VPC10) aos 2 e 4 meses de idade, além de um reforço aos 12 meses. Crianças que iniciaram o esquema primário após 4 meses de idade devem completá-lo até os 12 meses, com intervalo mínimo de 30 dias entre as doses do esquema primário e 60 dias da 2ª dose para o reforço.

Crianças sem comprovação vacinal, entre 12 meses de idade e 4 anos, 11 meses e 29 dias, devem receber dose única. Para as crianças de 2 meses a menores de 5 anos de idade, com indicação clínica especial a recomendação é o esquema de três doses e reforço, conforme as indicações dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) – unidades públicas com infraestrutura e logística para atender indivíduos com quadros clínicos especiais, tais como imunodeficiências, doenças crônicas, transplantados, entre outras condições.


A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) orienta que o uso das vacinas pneumocócicas conjugadas na infância siga um esquema de três doses primárias, aos 2, 4 e 6 meses de idade, com uma dose reforço entre 12 e 15 meses de idade.

Baixa adesão à vacinação


Por proteger contra o pneumococo, bactéria responsável por 60% dos casos de pneumonia, a vacinação pneumocócica é uma das principais formas de prevenção da doença. Apesar de sua importância, as taxas de cobertura do imunobiológico têm apresentado queda.

 Desde 2010, quando passou a integrar o PNI, a vacina pneumocócica nunca atingiu a meta de adesão de 95% do público-alvo. No ano passado, a cobertura vacinal da pneumocócica, englobando o esquema primário (primeira e segunda doses) e o reforço, ficou em 85%. Já em 2020, até o nono mês do ano, apenas 67% das crianças foram imunizadas com as doses do esquema primário e do reforço.

“Nos últimos anos temos acompanhado uma queda importante nas coberturas vacinais, não apenas para vacinação pneumocócica mas para a vacinação como um todo. Com a pandemia de Covid-19 este cenário piorou, como observamos nos dados preliminares de cobertura vacinal para 2020. Mais uma vez, é preciso o engajamento dos profissionais de saúde mas é preciso também que nós enquanto sociedade reconheçamos a importância da vacinação, garantindo a atualização da caderneta vacinal nossa e dos nossos filhos. Isto é especialmente importante neste momento, em que nos preparamos para voltar ao que é chamado de ‘novo normal’, com a volta às aulas e a ressocialização”, alerta o Dr. Emersom.

No Brasil, a efetividade da vacinação pneumocócica sobre a doença pneumocócica invasiva causada por sorotipos vacinais foi de 84%; a redução nos casos de otite média aguda, independente da causa, nas consultas ambulatoriais em crianças menores de dois anos foi de 43%;  e o efeito de redução nas taxas de hospitalização por pneumonia foi observado não apenas na faixa etária alvo da vacinação mas se estendeu até indivíduos de 49 anos, proporcionando importante economia ao sistema de saúde.

Além do Brasil, a introdução da vacina pneumocócica também gerou impactos positivos como diminuição da quantidade de hospitalizações, diminuição de óbitos, redução de consultas médicas e consumo de antibióticos ao redor do mundo.

Pneumonia e outras doenças

A doença pneumocócica abrange formas invasivas, como a meningite e a sepse, e formas não invasivas como pneumonia, otite média aguda (OMA), sinusite e conjuntivite.

“Além da importância na prevenção das formas invasivas da doença pneumocócica, cujos exemplos incluem meningite e sepse, a vacinação pneumocócica protege também contra outras formas menos graves de doença pneumocócica mas muito importantes pela frequência de acometimento na população, como a otite média aguda por exemplo.

Estima-se que mais de 80% das crianças com até 3 anos de idade tenham a doença pelo menos uma vez na vida. Os principais sintomas da otite média aguda são dor no ouvido, febre, irritabilidade e dificuldade de dormir”, explica o Dr. Emersom.

Além da vacinação, outras formas de prevenção da doença pneumocócica incluem lavar as mãos, não fumar, ter acesso a água potável e evitar aglomerações.

Com Assessorias

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