Esperança no tratamento do câncer de mama

Imunoterapia aprovada no Brasil trata subtipo triplo-negativo, o mais agressivo, que atinge mulheres até 50 anos e tem taxa de mortalidade três vezes maior

Redação
imunoterapia - foto ilustração inca

Uma nova esperança no tratamento do câncer de mama. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou no último dia 15 a aprovação da primeira imunoterapia para tratar pacientes com câncer de mama triplo-negativo em sua fase metastática (quando se espalha para outros órgãos).

Este subtipo é o mais agressivo da doença e mais frequente em mulheres mais jovens, geralmente com menos de 50 anos, e para o qual a eficácia dos tratamentos é desafiadora. O triplo-negativo representa em torno de 15% a 20% de todos os casos da doença mundialmente.

Se considerarmos que o Brasil, segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca), contará com cerca de 60 mil novos casos de câncer de mama em 2019, esse percentual representa um universo de ao menos 12 mil pessoas.

Enquanto a taxa de mortalidade por outros tipos gira em torno de 10%, a de triplo-negativo varia entre 30% e 40% em cinco anos.  Parte dos casos evolui para metástase em curto período de tempo, em torno de 1 a 3 anos.

A nova terapia utiliza recursos da medicina de precisão, em que o perfil do tumor é capaz de guiar as decisões clínicas para benefícios mais expressivos. Além disso, como imunoterapia, estimula o sistema de defesa do próprio organismo a atacar as células tumorais, estratégia conhecida por ter menor toxicidade e respostas mais duradouras.

“A imunoterapia vem sendo utilizada no tratamento de câncer com resultados expressivos há cerca de nove anos, mas este é o primeiro avanço em tumores de mama”, conta Carlos Barrios, pesquisador brasileiro que participou do IMPASSION130.

Risco de progressão de morte reduz em 38%, diz estudo

A aprovação do uso conjunto da imunoterapia atezolizumabe com a quimioterapia nab-paclitaxel foi baseada nos resultados do estudo IMPASSION130, que  envolveu 902 pacientes com expressão do biomarcador PDL-1.tratadas em 246 centros médicos de 41 países, incluindo o Brasil.

Os dados do primeiro estudo clínico de fase 3 a documentar benefício significativo de imunoterapia em câncer de mama metastático, chamaram a atenção da comunidade científica internacional.

Publicado na revista científica The New England Journal of Medicine, o estudo mostra uma redução de 38% no risco de progressão ou morte e ganho de 10 meses de sobrevida entre pacientes com a presença do biomarcador PDL-1, que corresponde a 41% dos casos.

As pacientes com triplo-negativo avançado ou metastático, quando a doença já passou para outros órgãos, têm um prognóstico difícil. Este tratamento aprovado pela Anvisa se torna o preferencial na prática clínica”, explica o especialista, que é diretor do Centro de Pesquisa em Oncologia do Hospital São Lucas (RS) e do Grupo Latino-Americano de Pesquisa em Oncologia Clínica (Lacog).

A eficácia da medicação contra a doença metastática foi apresentada em Munique, Alemanha, no Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia (Esmo Congress), principal evento voltado à oncologia clínica do mundo, em outubro  de 2018. E veio quebrar este paradigma ao demonstrar benefício clínico para as pacientes.

O que é o câncer de mama triplo-negativo

A denominação triplo-negativo vem da ausência da expressão de três biomarcadores comumente empregados na classificação da doença: receptor de estrógeno, receptor de progesterona e proteína HER-2.

O oncologista Daniel Gimenes, do Centro Paulista de Oncologia ( CPO) – unidade de São Paulo do Grupo Oncoclínicas, explica que este tipo de câncer de mama tem maiores chance de recorrência e em muitos casos acaba promovendo uma sobrevida menor em comparação a outros subtipos de tumores mamários. Por isso, a possibilidade de sucesso com a imunoterapia é animadora e abre novas frentes para o enfrentamento desta doença.

Para esses casos de câncer especificamente houve poucos progressos terapêuticos nos últimos anos. Por isso, os estudos internacionais preliminarmente divulgados na Asco são animadores por indicarem um novo caminho para tratar esse tipo de câncer de mama“, afirma o oncologista.

EUA adotaram medicação em março

Nos Estados Unidos, a combinação foi aprovada foi em 8 de março, após trâmite acelerado na agência americana de regulação de medicamentos, o Food and Drug Administration – FDA. No Brasil, o tratamento também recebeu a prioridade de análise, um mecanismo adotado desde 2008 para garantir mais celeridade conforme sua relevância para a população.

Daniel Gimenes ainda menciona o estudo GeparNuevo que analisou 174 pacientes com câncer de mama triplo-negativo metastático ou localmente avançado. Um grupo recebeu um tipo de imunoterápico associado à quimioterapia enquanto as demais pessoas utilizaram placebo. O resultado demonstra um aumento significativo na redução do tumor nos casos que receberam a combinação da imunoterapia com a quimioterapia.

Apesar de ainda ser uma primeira etapa de análises, esse avanço já pode ser entendido como um progresso terapêutico importante para médicos e pacientes. Essa combinação de imunoterapia com quimioterapia desconta como uma opção estratégica importante para mulheres com a doença, em especial pelos benefícios e a qualidade de vida dessas pacientes”, explica Gimenes.

Entenda a Imunoterapia

Na última década, a imunoterapia passou de um tratamento teórico promissor para um padrão de cuidados que está contribuindo para respostas positivas de pacientes oncológicos. Desde 2011, o FDA aprovou 15 novas drogas imunoterápicas para o tratamento do câncer, sendo cinco só no ano passado. No Brasil, a imunoterapia tem aprovação da Anvisa para uso em casos de melanoma, câncer de rim , câncer de pulmão e câncer de bexiga.

De forma simplificada, o nosso sistema imunológico é programado para combater quaisquer sinais que representem ameaças à saúde. Porém, para manter um equilíbrio que assegure plenamente o nosso bem estar, o mecanismo de defesa do corpo também tem freios que impedem uma ação exagerada nesta resposta – caso contrário, ele pode desencadear as chamadas doenças auto-imunes, como lúpus, esclerose múltipla e artrite reumatoide.

Quando, contudo, ocorre uma falha nesse processo de combate ao inimigo e, em consequência, o surgimento de um tumor, a medicação imunoterápica pode ser adotada para inibir a ação desses freios e provocar a resposta necessária para combater as células malignas. “A imunoterapia cria uma memória imunológica no paciente contra o tumor. A concepção é gerar uma resposta imunológica exacerbada no paciente. Ao fazer isso, o sistema imunológico volta a reconhecer o tumor como um agente externo”, explica.

Quando a imunoterapia é a melhor opção?

Apesar dos avanços promissores, o especialista explica que ainda é cedo para afirmar que a imunoterapia seria a chave para a cura do câncer de mama. Todavia, os passos já trilhados são observados com otimismo e lançam boas perspectivas para tratamentos do câncer de mama triplo-negativo metastático e que não responde às medicações convencionalmente indicadas, tais como quimioterápicos e drogas alvo-moleculares.

O que tem se observado de forma global no tratamento do câncer é que nos casos onde o médico pode optar pela imunoterapia, a resposta dos pacientes têm sido satisfatórias.

“Ela [a imunoterapia] tem alguns efeitos colaterais, porém o paciente tem melhor qualidade de vida. É um tratamento mais sustentável para a saúde do paciente, pois ataca diretamente o tumor. Uma das principais vantagens da adoção destes imunoterápicos de nova geração é que, mesmo após o fim do tratamento, a imunidade desse indivíduo pode continuar respondendo a células tumorais, diminuindo a recidiva de tumores e aumentando o tempo livre de progressão da doença”, conclui o médico.

Da Redação, com Assessorias

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