Fake news leva a baixa procura da vacina contra HPV

50% das meninas brasileiras não estão vacinadas contra o vírus que causa tumores de canal ano e do colo uterino. Maior evento internacional de medicina oncológica destaca a importância da imunização

Redação
Meta é imunizar 1.5 milhãi de meninos e meninas de 9 a 14 anos no Rio. Foto: iStock

O Encontro Anual da Asco,  maior encontro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica para discutir as inovações e avanços da Medicina Oncológica, realizado entre os dias 31 de maio e 4 de junho em Chicago (EUA), trouxe à tona as baixas taxas ao redor do mundo de vacinação anti- HPV (Vírus do Papiloma Humano), associado às verrugas genitais e diversos tipos de câncer como o de colo de útero, ânus, pênis, vulva e orofaringe.

Apesar da comprovada eficácia e segurança, sustentabilidade e custo-benefício da vacina, pesquisas apontam para o perigo das chamadas fake news, sobretudo em mídias sociais,  com o objetivo de desencorajar os pais a promover a vacinação em seus filhos. No Brasil estima-se que apenas 48,7% de meninas de 9 a 14 anos, população-alvo recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), foram imunizadas, mesmo tendo a disposição duas das principais ferramentas para redução dos riscos que são o uso de preservativo (camisinha) e a vacinação contra o HPV, o que evita o contágio com vírus e bactérias transmitidos por contato sexual e que estão diretamente relacionados com o desenvolvimento desse tipo de câncer.

Um grupo de 70 médicos brasileiros da Oncologia D’Or (Rede D’Or São Luiz) está acompanhando de perto as novidades apresentadas no evento.  Uma pesquisa publicada pela médica brasileira Angélica Rodrigues e pelo médico oncologista brasileiro da Rede D’Or, Markus Gifoni, entre outros autores, indicou uma preocupante queda da cobertura vacinal entre os anos de 2014 e 2015 em toda a América Latina e o desconhecimento da maioria das pessoas acerca do tema.

Apenas 40% dos brasileiros ouvidos em 7 grandes cidades conheciam a relação do vírus com o Câncer e apenas 8% conheciam a existência de uma vacina disponível pelo SUS. Para Markus Gifoni é necessário um maior compromisso dos médicos, meios de comunicação, incluindo as mídias sociais, para difusão de informações de qualidade.

Precisamos evitar a difusão de falsas informações (fake news) e aumentar a adoção de estratégias mais eficientes que possam aumentar a cobertura vacinal, como a promoção de campanhas que fortaleçam o conhecimento da associação do HPV com o câncer, além de disponibilizarmos a vacinação nas escolas.”, afirma Dr. Markus.

Para Paulo Hoff, presidente da Oncologia D’Or, os resultados apresentados nestes encontros melhoram o tratamento em diversos tipos de câncer. A presença de médicos brasileiros no evento permite que estes tratamentos sejam incorporados e disseminados mais rapidamente em nosso país, e que mais pacientes se beneficiem dos mesmos.

Tipos de câncer causados pelo HPV

O câncer anal ocorre no canal e nas bordas externas do ânus. Esse tipo de tumor representa de 1% a 2% de todos os tumores colorretais e de 2 a 4% de todos os tipos de câncer que acometem o intestino grosso, mas sua incidência tem aumentado principalmente em decorrência da infecção pelo HPV (Papilomavirus humano) e outras doenças sexualmente transmissíveis.

“Sabemos que a vacinação do HPV está incluída no calendário da saúde do País, mas temos percebido uma diminuição na procura da vacina. Isso não pode acontecer de jeito nenhum. Se a gente conseguir vacinar todas as meninas e os meninos abaixo de 13 anos, a diminuição dessas doenças será muito efetiva”, diz o oncologista Roberto Gil, do Grupo Oncoclínicas no Rio de Janeiro.

De acordo com ele, tanto o câncer de canal anal quanto de colo uterino são preveníveis pela vacinação do HPV. “Na Austrália, por exemplo, 90% das pessoas são vacinadas e lá a curva de incidência da doença tem diminuído muito”, reforça o Dr. Roberto. Para o oncologista, a vacinação deve ser em larga escala.

O câncer de colo de útero é o terceiro que mais atinge mulheres no Brasil, totalizando 16 mil por ano e cerca de 35% dos casos levam a morte, segundo dados do Istituto Nacional do Câncer (Inca). A doença é silenciosa, e a preocupação aumenta principalmente pelo maior causador, o contágio pelo chamado papilomavírus humano – conhecido como HPV.

O vírus é a infecção sexualmente transmissível mais comum do mundo, onde a maior vitima são as mulheres . Cerca de 75% da população feminina do Brasil que é sexualmente ativa estarão em contato com o HPV ao longo da vida, sendo que o ápice da transmissão do vírus se dá na faixa dos 25 anos. Após o contágio, ao menos 5% dessas brasileiras irão desenvolver câncer de colo do útero em um prazo de dois a 10 anos, uma taxa que preocupa os especialistas.

Cuidado com a saúde feminina em destaque

O evento é considerado o maior e mais importante do mundo nesta especialidade e o tema principal desta edição é a Medicina Humanizada. Segundo organizadores do evento, são esperados cerca de 32 mil profissionais que discutirão e apresentarão estudos e pesquisa inéditas sobre o assunto.

E uma das pautas que deve ocupar parte das discussões é sobre como o cuidado com a saúde e o bem estar do corpo podem influenciar tanto no diagnóstico como no tratamento e prevenção de diversos tipos de câncer – principalmente o mamário.

“Um dos principais debates hoje, dentro da Medicina como um todo é exatamente a questão de como o próprio paciente pode, através de mudanças de hábito de vida, interferir na prevenção e no sucesso do tratamento do câncer”, analisa o oncologista Daniel Gimenes, do Grupo Oncoclínicas em São Paulo.

Segundo ele, o câncer de mama está entre os que mais são impactados por um estilo de vida saudável. “Claro que há fatores biológicos e genéticos relacionados ao desenvolvimento de um tumor, mas no caso de mama temos uma forte influência pela obesidade e a vida sedentária ligada à falta de exercícios físicos”, afirma.

Painéis dedicados ao tema

Esta será a primeira vez que o congresso vai dedicar uma sessão de aulas educativas para reunir os especialistas com a finalidade de debater questões ligadas ao estilo de vida e seus impactos para o paciente com câncer. Nas mesas de debate, médicos e outros profissionais envolvidos em cuidados oncológicos vão apresentar e discutir as pesquisas consolidadas.

“Não será um painel em que se pretende mostrar algo inédito, mas, melhor que isso, iremos conversar sobre as principais e mais importantes pesquisas científicas que estão sendo feitas pelo mundo, e que demonstram que a queda no índice de massa corpórea que é uma das principais estratégias de mudanças de hábito de vida para auxiliar no combate ao câncer de mama . Assim sendo, alterações na dieta em atividade física esportiva encaixam bem nesse contexto “, comenta Gimenes.

A ciência tem provado o que o médico já encontrava em seus casos diariamente. Ele afirma que a incorporação de atividades físicas na vida dos pacientes não só contribui para evitar o aparecimento de tumores, como também pode auxiliar na tolerância ao tratamento e,principalmente influenciando positivamente no aumento das chances de cura.

“Há um estudo clínico recentemente apresentado que comparou dois grupos de pacientes com câncer de mama que encerraram a quimioterapia. Um grupo foi submetido a um programa de atividade física periódico e orientação dietética por dois anos e o outro grupo não foi submetido a esse mesmo programa..A diferença de prognóstico entre as pessoas foi impressionante, onde o impacto das mudanças de hábito de vida proporcionou um aumento significativo nas chances de cura, ressalta o oncologista do Grupo Oncoclínicas.

Aliado à prática, Gimenes também reforça que é necessário diminuir o índice de gordura corporal (índice de massa corpórea), já que obesidade é um grande fator de risco para o câncer de mama. “O exercício promove saúde, mas também um bem estar como um todo. Mas a alimentação precisa entrar na conta, pois a perda de peso é essencial para que os benefícios sejam alcançados”, finaliza o especialista.

Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam que o câncer de mama é o mais diagnosticado entre mulheres no Brasil, com mais de 50 mil casos anuais.

Estudos e conquistas para médicos e pacientes

Para apresentação na Reunião Anual, mais de 2.400 estudos classificados como Late Breaking Abstracts (LBA) foram aceitos e outros de 3.200 para publicação online em abstracts.asco.org. Entre as pesquisas em destaque estão:

  • Dados de quase 20 anos do ensaio da Iniciativa da Saúde da Mulher sobre modificação dietética avaliando o impacto de uma dieta balanceada e com baixo teor de gordura no risco de morte por câncer de mama entre mulheres na pós-menopausa. (LBA 520).
  • Um ensaio clínico randomizado de fase III avaliando um regime de quimioterapia paliativa para pessoas idosas e frágeis com câncer gastroesofágico, que são incapazes de tolerar a quimioterapia padrão. (LBA 4006).
  • Um estudo de fase I / IB avaliando a terapia direcionada a pacientes pediátricos com tumores sólidos, incluindo cânceres do sistema nervoso central que abrigam mutações genéticas específicas. (LBA 10009).
  • Um estudo que analisa a frequência de alterações moleculares alvo em tumores pediátricos entre os doentes incluídos na fase II do ensaio clínico II NCI-Children’s Oncology Group Pediatric Molecular Analysis for Therapy Choice (NCI-COG Pediatric MATCH). (LBA 10011).
  • Um ensaio clínico randomizado de fase II / III comparando a lenalidomida à observação em pessoas assintomáticas, mas com alto risco de progressão para mieloma múltiplo. (LBA 8001)

Da Redação, com Assessorias

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.