Fake news sobre câncer: um mal que precisa ser extirpado

Congresso internacional de Oncologia traz à tona o grave problema das notícias falsas sobre a cura da doença. “As consequências são dramáticas e até fatais”, diz médico

Rosayne Macedo
Congresso Oncologia D´Or
Congresso Oncologia D´Or reúne cerca de 5 mil pessoas em hotel no Rio (Foto: Divulgação)

Elas foram as grandes vencedoras das eleições presidenciais de 2018 – para tristeza de quem torcia pela democracia e transparência do processo eleitoral ou para alegria de quem apostou em informações duvidosas para confundir (e conquistar) eleitores ávidos por mudanças na política. As fake news estão na ordem do dia também quando o assunto é saúde pública, preocupando autoridades, médicos, cientistas e demais profissionais do setor.

Quando se trata de câncer, então, espalhar uma notícia falsa, propagando a cura da doença, chega a ser covarde, cruel e até criminoso, já que muitos pacientes e familiares estão tão desesperados em busca de respostas, que muitas vezes acreditam em qualquer fórmula milagrosa que possa trazer esperança de cura. Diante da gravidade dos riscos que a propagação irresponsável de fake news pode trazer, medidas enérgicas precisam e devem ser tomadas para barrar este processo.

As fake news costumam impactar negativamente todos os aspectos de nossas vidas, frequentemente nos direcionando para percepções equivocadas e decisões ruins. No caso do câncer, as consequências frequentemente são especialmente dramáticas, e até fatais”, alerta o diretor de Estratégia e Inovação da Oncologia D’Or, Claudio Ferrari.

Congresso Oncologia D´Or (Fptp: Divulgação)

Ainda segundo ele, o medo torna o indivíduo mais suscetível à informação distorcida, especialmente quando a promessa é de cura. “Além disso, a insegurança nos faz enxergar ‘teorias da conspiração’ onde existe apenas o limite da ciência. O risco é enorme e precisa ser evitado a todo custo”, destaca.

Diante da preocupação com o problema, a rede decidiu levar o tema para o sexto Congresso Internacional Oncologia D’Or, que está sendo realizado nesta sexta-feira e sábado (dias 9 e 10), no Rio de Janeiro.

O coordenador científico do Congresso, Daniel Herchenhorn, afirma que diariamente os médicos precisam lidar com o desafio de mostrar ao paciente que muito do que eles leem na internet não é verdadeiro. “A internet facilitou o acesso à informação, mas muito do que está na rede é falso ou incompleto”.

E como resultado da desinformação que circula na web, há casos de pacientes de câncer que abandonaram o tratamento convencional e até mesmo o acompanhamento médico por conta de notícias falsas.

Além de Claudio Ferrari, participam da mesa “Combatendo Fake News no Mundo do Câncer” a psico-oncologista Luciana Holtz, do Instituto Oncoguia; o diretor executivo da Oncologia D´Or, Rodrigo de Abreu e Lima, e o editor da revista ‘Saúde é Vital’, Theo Ruprecht.

Luciana, que é especialista em Bioética, vai abordar as fake news mais comuns sobre câncer, enquanto os dois oncologistas da Rede D’Or vão interagir, construindo o debate sobre o tema.

Além de orientar os pacientes a buscar informações em fontes oficiais, será apresentada a Rede Causadores, do Instituto Oncoguia, que conscientiza justamente sobre as fake news na área de câncer.

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Top 10 – Fake news do câncer

Congresso Oncologia D´Or

1- ‘Pílula do câncer’ ou outros medicamentos milagrosos podem curar todo e qualquer tipo de câncer (FALSO): É importante ter em mente que estamos diante de inúmeras doenças extremamente complexas e com mecanismos distintos. Seria razoável um único medicamento resolver todas essas questões? Não!

2 – Radiação da ultrassom pode gerar câncer de tireoide (FALSO): A recomendação da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e da Escola de Radiologia é não usar protetor de pescoço durante a mamografia, pois pode prejudicar a imagem. Além disso, a radiação é mínima, menor que muitas outras radiações às quais nos expomos no dia-a-dia.

3 – Alimentos capazes de operar verdadeiros milagres (FALSO): Alguns são inofensivos, porém outros alimentos podem conter substâncias incompatíveis com o estado físico do paciente e trazer prejuízos à sua saúde.

4 – Avelós combatem o câncer (FALSO): Não há nenhum estudo científico que comprove a eficácia da planta no combate à doença. O arbusto produz uma seiva tóxica e cáustica, capaz de cegar.

5 – Graviola ajuda a curar câncer (FALSO): A fruta tem valor nutritivo, mas não cura câncer.

6 – Chá da folha da graviola cura o câncer (FALSO): Pelo contrário, há substâncias hepatotóxicas na bebida que podem causar danos ao fígado do paciente.

7 – Tomar 2,5 litros de suco de cenoura por dia ajuda na cura do câncer (FALSO): Não há nenhum estudo científico que comprove a eficácia da bebida no combate à doença.

8 – Mix de ervas ajuda no combate ao câncer (FALSO): Não há nenhum estudo científico que comprove a eficácia da mistura no combate à doença.

9 – Desodorante causa câncer de mama (FALSO): Não há nenhum estudo científico que comprove esse malefício.

10 – Mensagens que geram confusão alardeando ações de realização de exames gratuitos que na verdade não existem. O melhor é sempre verificar a fonte da informação ou, na dúvida, não repassá-la adiante.

Como evitar as fake news na Oncologia

Congresso Oncologia D´Or

Mas então, como lidar com as fake news na Oncologia? Para Ferrari, o jeito ideal é da mesma forma que lidamos com as fake news das demais áreas. Primeiro, confirmar a procedência da informação. Depois, entender se a fonte é confiável, ler / ouvir a matéria original e comparar com o conhecimento atual disponível. “O que sabemos sobre o assunto já nos dá uma boa pista sobre a veracidade da notícia”, explica ele.

Por fim, deve-se checar a informação com a equipe médica e/de enfermagem envolvida com o cuidado ou com algum amigo que atua na área. “Muitos de meus amigos e parentes já adquiriram o hábito de me consultar quando recebem uma notícia “muito excitante”.  Nunca é demais recomendar para que não se repasse algo “suspeito”. Na dúvida, enquanto não for possível confirmar a notícia, o melhor a fazer é “interromper a corrente””, esclarece o médico.

Serviço desvenda o que é verdade e o que é boato

Azeitona causa câncer? Beber água morna toda manhã cura câncer? Comer frutas de estômago vazio causa tumores? Pasta de avelã causa câncer? Mamografia pode causar câncer de tireoide? Esses boatos, na grande maioria das vezes, são histórias sem pé nem cabeça, sem base de informação nem comprovação científica. No entanto, são facilmente espalhadas nas mídias sociais – basta um clique, um toque no celular.

Segundo um estudo recente publicado pela revista Meio&Mensagem, pelo menos 42% já compartilharam notícias falsas nas redes sociais. De acordo com esse levantamento, apenas 39% têm o hábito de sempre checar a fonte da informação.

Para enfrentar o problema, o Instituto Oncoguia criou um serviço que visa ajudar os internautas a discernirem a verdade da mentira. É simples: ao se deparar com uma notícia sobre câncer nas mídias sociais, seja no Facebook, Twitter, Instagram ou Whatsapp, o usuário, antes de compartilhá-la, pode enviar a informação para o Instituto.

Em até 48 horas, o Oncoguia dará retorno sobre a veracidade da informação. Se ela estiver correta, o usuário poderá compartilhar usando hashtag #oncoguiaconfirma. Se a informação estiver errada, o usuário pode repassar informando que se trata de uma mentira.

O câncer ainda é uma doença assustadora. Precisamos evitar esses boatos a qualquer preço, diz Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia. “Seja uma pessoa ativa e responsável e não compartilhe notícias e informações erradas sobre o câncer. Precisamos da sua ajuda”, completa.

Os canais para compartilhamento da informação são: institutooncoguia@oncoguia.org.br / (11) 98790-0241 Whatsapp) e  Ligue Câncer: 0800 773 1666.

Médicos vão poder controlar um robô

Congresso Oncologia D´Or
Congresso Oncologia D´Or: participantes testam novas tecnologias (Foto: Divulgação)

Mais de 5 mil pessoas são aguardadas na sexta edição do Congresso Internacional Oncologia D’Or, que acontece no Centro de Convenções do Windsor Oceânico, na Barra da Tijuca. Ao todo, são mais de 300 palestrantes, incluindo 10 convidados internacionais, distribuídos em 21 módulos temáticos que abordam avanços recentes em diagnóstico e tratamento do câncer.

Um dos destaques é a cirurgia robótica, que segundo especialistas, permite uma maior precisão no procedimento, proporcionando mais segurança ao paciente. Por isso, uma novidade do evento este ano é o Espaço Robótica, onde o congressista tem a oportunidade de ter contato direto com um simulador, vivendo a experiência de controlar um robô.

Além das últimas novidades no tratamento do câncer; a experiência do paciente (cuidado integral multidisciplinar) e a oncogenética (medicina personalizada baseada no estudo genético da pessoa) são outros temas de destaque da programação, que podem ser acessados em nove salas simultâneas.

De acordo com os organizadores, o congresso é focado em pacientes que sofrem de qualquer tipo de câncer, médicos, profissionais de saúde em geral, pesquisadores e estudantes da área médica.

Entre os destaques internacionais estão nomes como o de Murray Brennan, reconhecido como um dos maiores cirurgiões oncológicos da história e pelas pesquisas que aprimoraram a compreensão biológica dos tumores. De 1985 a 2006, ele foi chefe do departamento de cirurgia do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York, Estados Unidos.

Outro convidado é Luis Costa, diretor do Departamento de Oncologia do Hospital Santa Maria, em Lisboa, Portugal. Envolvido, principalmente, com estudos clínicos de cânceres de mama e metástases ósseas, Costa também vem desenvolvendo importantes pesquisas sobre o entendimento molecular das metástases.

A programação não prevê atividades para a população em geral. As inscrições já foram encerradas e o valor para congressistas não foi divulgado.

Saiba mais em http://congressooncologiador.com.br.

Fonte: Rede Oncologia D´Or, com Redação

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