Fome no Rio aumentou em quase 400% nos últimos 4 anos

15% dos cariocas e fluminenses não têm o que comer e mais da metade da população convive com algum grau de insegurança alimentar, aponta pesquisa

Esta semana, muita gente se emocionou com relato sobre a fome feito por Janete, moradora do Morro dos Macacos, no Rio (Foto: Reprodução/TV Globo)

Esta semana, muitos cariocas e fluminenses se emocionaram com o relato de Janete Evaristo, de 57 anos, na TV Globo, moradora do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, Zona Norte carioca, que enfrenta o desafio diário de colocar comida na mesa para os cinco netos, quatro deles herdados da filha que morreu ainda jovem, vítima de lúpus. Mas a fome, que voltou com força em todo o país, está mais perto da gente do que se pensa. E o Rio de Janeiro – vitrine do país para muitos turistas, quem diria – é o retrato da fome no Brasil.

É o que revelam os dados divulgados pela Ação da Cidadania nesta quinta-feira (23/06) sobre a insegurança alimentar no estado fluminense, como parte da pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). O relatório aponta que mais de 15% da população não têm o que comer hoje (2,7 milhões de pessoas), um aumento de quase 400% em relação aos dados de 2018, quando 4,2% dos fluminenses passavam por insegurança alimentar grave.

Quando falamos em números gerais de insegurança alimentar em algum grau – leve, moderado ou grave (fome), 57% dos moradores já sofrem com algum tipo de deficiência na alimentação, o que equivale a quase 10 milhões de pessoas. As mulheres continuam sendo as mais prejudicadas, principalmente as chefes de família. De acordo com a pesquisa, 38,6% estão em total situação de fome. Mesmo na segurança alimentar, onde não há nenhum grau de restrição, os homens continuam à frente: mais de 50% das casas chefiadas por eles não passam por dificuldades.

Relato sobre fome em TV gera onda de solidariedade em apoio a Janete e seus netos, moradores do Morro dos Macacos (Foto: Reprodução/TV Globo)

Pretos e pardos são os que mais sofrem com a fome

A fome no Rio de Janeiro também tem cor. Pretos e pardos são os que mais sofrem com a insegurança alimentar grave e moderada. Segundo os dados, 37,6% vivem com restrições ou passam fome. A estatística também faz um recorte dos fluminenses que estão desempregados ou com empregos informais. No primeiro caso, 68,6% das pessoas sem trabalho e 42,2% daqueles que não têm renda fixa também são acometidos pela insegurança alimentar moderada ou grave.

O levantamento do Rio de Janeiro integra o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, divulgado pela Rede PENSSAN neste mês de junho, que atualizou os dados da fome no Brasil, revelando que 33,1 milhões de pessoas não têm o que comer.

A fome bem perto da gente: Parque das Missões, Duque de Caxias. Casa de Débora Figueiredo Procópio, 32 anos (Foto: Sara Gehren)

São 14 milhões de novos brasileiros em situação de fome em pouco mais de um ano. A edição recente também mostrou que mais da metade (58,7%) da população brasileira convive com a insegurança alimentar em algum grau – leve, moderado ou grave (fome). O país regrediu para um patamar equivalente ao da década de 1990. Cabe ressaltar que os dados do Rio de Janeiro foram antecipados a pedido da Ação da Cidadania, que é apoiadora e parceira da Rede.

A pesquisa foi constituída por pesquisadores, professores, estudantes e profissionais, e teve execução em campo do Instituto Vox Populi. A Ação da Cidadania, a ActionAid, a Fundação Friedrich Ebert Brasil, o Ibirapitanga, a Oxfam Brasil e o Sesc São Paulo são organizações apoiadoras e parceiras dessa iniciativa. O estudo completo pode ser acessado na página Olhe para a Fome.

As estatísticas foram coletadas entre novembro de 2021 e abril de 2022, a partir da realização de entrevistas em domicílios, em áreas urbanas e rurais. A Segurança Alimentar e a Insegurança Alimentar foram medidas, mais uma vez, pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia), que também é utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Pacto pelos 15% com Fome

Miséria e fome voltam a tomar conta do Brasil: desde 1990 não se via índices como agora (Foto: Thais Alvarenga)

O Encontro Nacional Contra a Fome, realizado pela Ação da Cidadania em parceria com outras instituições, chegou ao último dia, nesta quinta-feira (23/06) com debates e propostas para a solução da fome no Brasil. A data também marca o lançamento do “Pacto pelos 15% com Fome”, uma convocação da organização à sociedade na luta contra a insegurança alimentar.

O objetivo é mobilizar empresas, grupos de mídia, agências de comunicação e publicidade, pessoas físicas, instituições e ONGs, para que façam parte do movimento, apoiando campanhas e projetos de entidades que estarão atuando junto ao Pacto, seja fazendo doações ou até mesmo dedicando tempo ao voluntariado.

“Vamos fazer um pacto para ajudar os 15% dos brasileiros que não têm o que comer. O direito básico à alimentação é garantido pela Constituição, mas hoje parece uma miragem distante. Há quase 30 anos, Betinho mobilizou milhares de voluntários para ajudar 32 milhões de pessoas que passavam fome”, ressalta Rodrigo “Kiko” Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania.

“A indignação dele, na época, é a mesma que nos move a criar este movimento em 2022. Independente de ideologia, religião ou partido, a fome é inaceitável. É hora de Ação e de Cidadania. Como disse Betinho: Agora é com a gente!”, complementa.

A plataforma www.15por15.org está disponível já nesta quinta-feira, com informações sobre o lançamento do Pacto e como é possível participar do movimento. A ideia é que empresas e pessoas, físicas ou jurídicas, possam criar suas ações para doar 15 centavos, 15 reais, 15 milhões, 15 segundos, minutos ou porcentagem de vendas. Afinal, todo mundo tem 15 de alguma coisa para doar. E para 15% dos brasileiros, esta é a única esperança. A campanha é assinada pela Artplan.

Lançamento da Agenda Betinho

Betinho, sociólogo, idealizador da campanha nacional contra a fome e a miséria no Brasil (Reprodução de internet)

A nova edição da Agenda Betinho também foi um dos destaques do Encontro Nacional Contra a Fome. Este ano, o documento apresentou 92 propostas para o país e suas cinco regiões, com o objetivo de contribuir com a garantia, desenvolvimento e fortalecimento das políticas públicas estaduais e nacionais de Segurança Alimentar e Nutricional.

Trata-se de um material elaborado com diálogo e representações de pesquisadores, agricultores urbanos e rurais, pescadores, ribeirinhos, povos de comunidades tradicionais e de matriz africana, quilombolas, negros, mulheres, indígenas, sindicatos, coletivos, frentes e ativistas. A Agenda Betinho também é uma forma de ampliar as práticas que a Ação da Cidadania vem trabalhando, com foco no compartilhamento da gestão pública, divulgação de suas atividades e os caminhos de melhoria de seu desempenho.

Além da divulgação dos números da fome no Rio de Janeiro, o encerramento foi marcado pela elaboração de um documento, integralmente discutido e ratificado durante os debates, que representa o posicionamento e as propostas das instituições presentes, apoiadoras e parceiras da Ação da Cidadania, no combate à fome e seu impacto no país.

Da Ação da Cidadania, com Redação

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