‘Hoje sou 100%, não carrego mais parte de um corpo que não é meu’

Homem trans que sonha em ser bombeiro civil ganha cirurgia de remoção das mamas. Médico lança campanha para reduzir fila de espera no SUS

Richard, 24 anos: 'Me sinto pleno, feliz e agradecido por me tornar um homem completo' (Foto: Divulgação)
Richard, emocionado, após passar pela mastectomia (Foto: Divulgação)

Aos 24 anos, Richard Alcântara Pereira sonha em ser bombeiro civil. Morador de São Caetano do Sul (SP), ele nasceu com sexo feminino, mas foi na adolescência que descobriu que estava em corpo errado. Aos 20 anos se reconheceu como homem transexual. Um ano depois buscou orientação médica para começar uma terapia com hormônios masculinos. Logo vieram a barba, o timbre de voz mais grave, o nome masculino e a esperança de um trabalho.

O médico Thiago Marra recebe Richard, 60 dias após a cirurgia (Foto: Divulgação)

Mas foi depois de uma entrevista em junho desse ano, quando emocionou o Brasil por estar há cinco anos na fila do SUS para a retirada das mamas que veio uma boa notícia inesperada. O médico Thiago Marra o procurou pelas mídias sociais e ofereceu uma mastectomia masculinizadora gratuita.

A cirurgia durou duas horas. A técnica usada para a retirada da mama foi pela auréola. “Retiramos a glândula, mas deixamos uns 10% do tecido mamário que compõe a região”, comenta o médico. Na recuperação Richard ficou vários dias de repouso, fez sessões de fisioterapia e drenagem linfática. “Me sinto pleno, feliz e agradecido por me tornar um homem completo”, agradece Richard.

Na segunda-feira, Dia do Médico (18/10), o paciente fez o retorno na consulta de 60 dias pós-operatório, com sorriso no rosto. “Hoje sou 100%, não carrego mais parte de um corpo que não é meu”, comenta, ao explicar que precisava da retirada das mamas para fazer a transição de carreira. Após a cirurgia, ele sonha em combater outro incêndio: Richard acaba de finalizar o curso bombeiro profissional civil e pretende dar aulas práticas ou trabalhar em evento.

Número de cirurgias transexualizadoras caiu em 70% na pandemia

Cirurgia plástica para remoção de mamas é muito procurada por pessoas em transição de gênero (Foto: Divulgação)

Finais felizes, como o da história de Richard, são raridade entre milhares na fila do Sistema Único de Saúde (SUS). Na pandemia, o número de cirurgias transexualizadoras caiu em 70% e a terapia hormonal em 6,5%, segundo dados do DataSus. Por conta da demora e alta demanda de cirurgias para mudança de sexo pode ter fila de espera de até 12 anos.

Thiago Marra estima que o número de demandas represadas é provavelmente mais alto, já que o levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM) reúne apenas dados de 16 secretarias estaduais e 10 municipais. “Há ainda a fila por procedimentos nos serviços federais, sem falar ainda naquelas pessoas que precisam da cirurgia, mas nem sequer têm acesso ao especialista que dá o encaminhamento”, diz o médico.

Os números podem ser bastante elevados se for considerado que, no Brasil, segundo dados da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), cerca de 2% da população brasileira são trans, ou seja, mais de 400 mil pessoas e apenas 17% delas conseguem entrar no mercado de trabalho.

“O Brasil difere de várias partes do mundo. O cenário português é muito mais inteligente. De acordo com dados da Administração Central do Sistema de Saúde de Portugal, o tempo médio de espera por cirurgias não urgentes não ultrapassa três meses”, aponta o especialista.

Médico lança campanha para ‘colocar a fila do SUS para andar’

Cirurgia plástica após redesignação sexual (Foto: Divulgação)

Como forma de colaborar para inserir o Brasil nos padrões globais, após o caso de Richard, o cirurgião plástico Thiago Marra decidiu lançar uma campanha para estimular médicos particulares a adotarem um paciente da fila do SUS, com o objetivo de reduzir o tempo de espera e evitar o agravamento da situação. O primeiro paciente dessa campanha é Richard.

“Independentemente do tipo de cirurgia e da opção sexual do paciente, se cada colega se disponibilizar a adotar um da fila de espera colocaremos a demora do SUS para andar”, comenta Dr. Thiago Marra, ao citar dados sobre espera de cirurgias em sistemas de saúde de outros países.

 

Segundo Marra, no Reino Unido, cujo sistema inspirou a criação do sistema brasileiro, ninguém pode esperar mais de 18 semanas para iniciar um tratamento ou fazer uma cirurgia e o paciente também pode acompanhar pela internet o andamento da fila. De acordo com informações do Serviço Nacional de Saúde inglês – o NHS, nove em cada 10 pessoas conseguem suas operações dentro deste prazo.

Experiência com procedimentos pós-redesignação sexual

Formado em Medicina, Thiago Marra se especializou em Rinoplastia (Foto: Divulgação)

Formado há cinco anos pela Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte, Thiago Marra se especializou em Rinoplastia (cirurgia plástica de nariz) e Rinomodelação Estruturada e realiza vários procedimentos como prótese de mama, mastopexia, lipoaspiração e harmonização facial, para depois da cirurgia de redesignação sexual.

Hoje, a população LGBTQIA+ é um dos principais públicos do médico. Recentemente, ele retirou parte do silicone industrial da youtuber Luisa Marilac e passou a alertar em lives sobre o perigo da demora dos procedimentos, que podem agravar o quadro dos pacientes, além de responder perguntas de pacientes.

Atualmente, Thiago Marra é membro da Associação Brasileira de Médicos com Expertise de Pós-Graduação (Abramepo) e titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Plástica.

Nota da Redação: A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) recomenda que, na hora de se decidir por um procedimento do tipo, o paciente deve procurar o nome do profissional em seu site.

 

 

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