Incontinência urinária em mulheres e a vergonha de buscar especialista

Urologistas chamam atenção para a incontinência urinária em mulheres e lançam campanha de conscientização. Cirurgias caem 60% na pandemia

Incontinência urinária em mulheres é três vezes maior do que em homens (Foto: Banco de Imagens)

A., 69 anos, sofre com um prolapso genital, o que se chama popularmente como ‘bola na vagina’, ou seja, um problema que ocorre com a perda da sustentação dos órgãos do assoalho pélvico. Com vergonha, ela não contou nada a ninguém e só buscou ajuda médica três anos depois. Ao longo deste período, a situação se agravou de tal forma que ela teve a queda total do útero, assim como da bexiga e do reto. Agora, ela precisa de uma cirurgia de maior porte para corrigir o problema.

Se você, mulher, perde um pouco de urina ao rir, ter acesso de tosse, levantar muito peso ou mesmo, involuntariamente, fique atenta. fizesse xixi na calça involuntariamente? Isso pode ser um sinal de que você pode sofrer de incontinência urinária. Estudo conduzido pela Universidade de São Paulo (USP) aponta que o problema atinge 45% das mulheres e 15% dos homens com mais de 40 anos. A incontinência urinária em mulheres é uma preocupação dos especialistas.

A Sociedade Brasileira de Urologia aponta que a incontinência impacta fortemente na qualidade de vida do paciente. Estudos demonstram que pessoas com incontinência costumam ter maiores níveis de ansiedade e depressão. Ocorre também a redução na produtividade no trabalho. Os pacientes podem se afastar do convívio social e da intimidade com o (a) parceiro (a) por causa das perdas de urina.

A situação é ainda pior e cercada por muitos tabus e preconceitos entre as mulheres, principais vítimas desse problema. Um dos complicadores é que muitas delas nem chegam a buscar ajuda médica por terem vergonha de contar a um especialista o que está acontecendo. A médica urologista Rubina Lúcia Fassio, coordenadora do serviço de Uroginecologia do Hospital São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro, é especialista no assunto.

Existe muito constrangimento das pacientes ao abordar esse assunto, principalmente quando compromete a parte sexual ou o convívio social e muitas acabam não relatando situações de perda de urina. Seja ao levantar e deixar uma mancha no sofá ou ainda, na roupa. Isso leva muitas mulheres a comprar calcinha na rua para se trocar, diante de uma perda de grande volume de urina. Há muita desinformação e uma certa confusão sobre qual especialista deve ser consultado”, explica.

Rubina Lúcia Fassio explica a importância de se buscar ajuda (Foto: Reprodução de internet)

A especialista ressalta que a dificuldade de muitas mulheres em abordar o assunto quando se trata de doenças uroginecológicas e procurar ajuda médica é extremamente prejudicial à qualidade de vida delas. “Muitas entram em depressão e sofrem com baixa autoestima. A incontinência urinária mexe muito com o emocional das pacientes. Mas é importante que elas saibam que essa condição tem cura”.

Uma crença bastante difundida, porém, falsa, também contribui para a demora em buscar atendimento. É a crença de que é normal perder um pouco de urina com o avanço da idade ou em situações, como rir muito ou pegar peso.

Não é normal perder urina involuntariamente, de forma alguma. O ideal é que a mulher procure um uroginecologista nos primeiros episódios de incontinência. Esse problema não começa de forma severa, mas sim eventual. Se a paciente demora a procurar o médico, ela já chega ao consultório com uma incontinência de moderada a severa. Com isso, perde a oportunidade de fazer um tratamento conservador”, alerta.

Rubina Lúcia Fassio é membro da Associação Internacional de Uroginecologia e da Sociedade Brasileira de Uroginecologia e Assoalho Pélvico. Ela explica que a Uroginecologia é uma área de atendimento específico, que une Urologia e Ginecologia. O objetivo é diagnosticar e tratar as doenças do trato urinário inferior feminino, como cistites, prolapsos genitais e dores pélvicas.

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O que você faria se fizesse xixi na calça involuntariamente? E se apresentasse falta de libido ou um caroço nas mamas ou na vagina? Normalmente, fortes e destemidas, algumas mulheres têm vergonha em falar do problema e demoram a procurar ajuda médica, o que pode ser ainda mais prejudicial à saúde.

Diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni destaca que atitudes preventivas são fundamentais para evitar um mal maior para a saúde. “O câncer não é uma sentença de morte. Hoje os tratamentos e a sobrevida evoluíram muito. Além disso, é óbvio que ninguém quer receber um diagnóstico ruim. Mas quanto mais precoce ele for, maiores são as chances de sucesso e menos danosos e agressivos os tratamentos”, pondera o médico. “Há pessoas que sofrem do que chamamos de ‘síndrome do jaleco branco’. Que é medo de ir ao médico e receio sobre o que ele pode informar. Mas esse mito precisa cair. Cuidar da saúde só traz o bem.

Maria Leny da Silva, 71 anos, é a prova disso. Ela procurou ajuda médica depois de uma pancada no seio que gerou incômodo. O que ela não esperava era que o motivo que a levou ao médico, revelasse um problema de saúde que não havia sido provocado pela tal batida: o câncer de mama. O diagnóstico precoce da doença foi fundamental para salvar sua vida.

Leny hoje dá palestras, canta e participa do projeto Ciranda da Vida, na Bahia, onde mora. “Senti um medo quando soube que precisaria operar. Não queria mais ouvir falar no assunto. Pensei: como vou perder minha mama?”, conta. Superando o medo e reconstruídas a vida e a saúde, Leny aproveita para alertar e apoiar outras pessoas: “Não temam! O diagnóstico é sua chance de se tratar, viver e superar, como eu superei “.

Incontinência urinária gera impactos na qualidade de vida

Para a SBU, muitos consideram a perda involuntária de urina como “algo natural” da idade. Essa condição pode ser tratada, sob risco de impactar profundamente a qualidade de vida do paciente. A situação gera ansiedade, depressão, redução na produtividade no trabalho e afastamento do convívio social e da intimidade com o parceiro. É o que afirma Alexandre Fornari (RS), membro do departamento de Disfunções Miccionais.

Segundo ele, o paciente tem medo de molhar a roupa em público, perder urina na intimidade de um contato com o parceiro. O receio de ser reconhecido pelo odor da urina causa também preocupação e limitações. O impacto já começa na escolha das roupas, no gasto com absorventes, na preocupação constante. Muitos pacientes que sofrem disso fazem mapeamento dos banheiros para se precaver. É o caso dos que têm incontinência de urgência, quando a bexiga dá o primeiro sinal e já tem que ser “prá já”.

Algumas pessoas deixam de participar de atividades sociais que gostavam, como ir a passeios e excursões com amigos, compartilhar quarto ou encontrar um novo parceiro. Outras se tornam ansiosas, depressivas e com baixa autoestima e passam a se sentir envelhecidas, doentes, sem interesse ou perspectivas”, destaca.

Cirurgias para corrigir problema caem 60%

No mês em que se completa um ano da pandemia, dados mostram como a Covid-19 agravou o tratamento de doenças como a incontinência urinária. O Ministério da Saúde mostrou que em 2020 houve uma redução de 60% dos tratamentos cirúrgicos para incontinência urinária em relação a 2019.

Houve receio do contágio, dificuldade de acesso, dificuldades de planejamento das agendas de marcação de consultas e de cirurgias. Os leitos e centros cirúrgicos muitas vezes priorizaram o atendimento dos casos de Covid-19, casos de urgência e cânceres diversos. Muitas pessoas, voluntária ou involuntariamente, tiveram seus tratamentos postergados ou cancelados”, aponta a urologista Karin Anzolch (RS), diretora da SBU.

A SBU realizou um levantamento on-line em fevereiro sobre a incontinência urinária. “De acordo com 44% dos participantes, a pandemia de Covid-19 atrapalhou/retardou o tratamento da incontinência. Dos respondentes com incontinência, 77% disseram que ainda não retomaram seu tratamento”, afirmou o organizador do levantamento, Ricardo Vita (SP). 

Fatores de risco para incontinência urinária incluem até tratamentos de câncer

A SBU aponta alguns fatores de risco: idade; ter muitos filhos (na mulher); diabetes, obesidade, presença de doenças neurológicas e cirurgias na próstata (especialmente para tratamento do câncer). Cristiano Gomes (SP), diretor do departamento de Disfunções Miccionais da SBU, explica os tipos mais frequentes.

A incontinência urinária por esforço, quando se perde urina ao tossir, carregar peso, espirrar ou até mesmo sentar e levantar, é a mais comum. Mulheres que tiveram muitos filhos ou pessoas que fizeram cirurgias de próstata também são vítimas. A incontinência urinária de urgência ou bexiga hiperativa é  quando existe uma vontade repentina e incontrolável de urinar. Isso pode ocorrer durante o dia e no período da noite, podendo comprometer o sono. 

Alguns tratamentos para determinados tipos de câncer podem aumentar a chance de desenvolver incontinência urinária. Tratamentos cirúrgicos e radioterapia para tratamento de tumores pélvicos como os da próstata, bexiga, útero, colo do útero e intestino”, revela.

Ainda segundo ele, a incontinência também pode aumentar o risco de quedas entre os idosos. “Em alguns casos a incontinência pode ser causada por um problema de saúde mais grave. Podem ocorrer infecções, pedra na bexiga, doenças neurológicas e até tumores da bexiga ou próstata”, complementa. 

É possível tratar? 

Os pacientes que enfrentam este problema contam com apoio multidisciplinar para o tratamento da doença. A mudança de alguns hábitos de vida pode fazer a diferença. Entre as dicas estão evitar excesso de líquidos, urinar periodicamente, tratar constipação e outros problemas clínicos como diabetes e obesidade. 

Nos casos de bexiga hiperativa, são usados medicamentos. Já a incontinência de esforço pode ser tratada com procedimentos cirúrgicos de baixo risco. Eles têm rápida recuperação, como a cirurgia de sling, quando se coloca uma faixa sob a uretra. Outros tratamentos para incontinência urinária incluem a aplicação de toxina botulínica, o implante de marcapasso da bexiga e o implante de esfíncter artificial. 

O secretário-geral da SBU Alfredo Canalini (RJ) afirma que todos os pacientes podem ser tratados. É importante que, além da indicação correta, haja motivação para seguir os passos do tratamento e também uma cognição favorável. Um estado mental que possibilite a pessoa ter percepção sobre o que acontece consigo e ao redor. Os índices de cura e de controle do problema hoje em dia são muito elevados”, explica. 

Ações educativas  

Para alertar a população sobre o diagnóstico e a importância de tratamento da incontinência urinária, a Sociedade Brasileira de Urologia realiza uma campanha virtual de conscientização para esclarecer a população sobre a incontinência urinária. As ações marcam o Dia Mundial de Conscientização da Incontinência Urinária neste domingo, dia 14 de março.

A campanha é realizada pelas redes sociais (@portaldaurologia) e na Rádio SBU. O canal de podcasts está nos principais streamings de áudio: Spotify, Deezer, Pocket Cast, Apple Podcasts e Google Podcasts.  Todas as segundas-feiras, às 19h, médicos esclarecem dúvidas sobre o tema em lives no Instagram. Também indicam ações preventivas e como buscar ajuda para amenizar ou solucionar o problema. 

Com Assessorias

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