‘Já fui discriminado em entrevista de emprego e até alvo de piadas’

Pessoas com nanismo sofrem com preconceito. Conheça a história e a carreira de Enrico, de 41 anos, que é consultor financeiro

O que pode parecer pouco para muita gente, para eles faz uma diferença gigantesca: ser vistos com respeito, dignidade e oportunidade. A vida das pessoas com nanismo no Brasil não é fácil e, infelizmente, elas ainda são alvo de muitas piadas de mau gosto. Os portadores de nanismo precisam superar barreiras que são impostas pela sociedade e enfrentar a discriminação diariamente. Até mesmo no mercado de trabalho. Para derrubar essas barreiras, desde 2017, uma data marca essa luta: 25 de outubro, Dia Nacional do Combate ao Preconceito às Pessoas com Nanismo.

Enrico Fróes Rodrigues, de 41 anos, enfrentou tudo isso e se destacou no mundo corporativo, passando por grandes empresas nacionais e multinacionais onde ocupou diversos cargos de liderança. Atualmente, é consultor financeiro e há poucos meses, deu início a sua própria consultoria, após trabalhar no mundo corporativo desde 2001.

Ele começou como estagiário na IBM, onde trabalhou por oito anos na área financeira; foi tesoureiro corporativo de grandes empresas e a última posição foi de “Controller Americas” em uma empresa holandesa do setor de engenharia para prestadores de serviços marítimos. Era responsável pelo acompanhamento financeiro das operações do Uruguai, Colombia, Brasil e EUA.

Mas nem tudo foram flores na trajetória profissional de Enrico. Ele foi discriminado em uma entrevista de emprego e até alvo de piadas de mau gosto. “Logo no início da carreira, fui fazer uma entrevista para um estágio. Ao chegar na recepção da empresa, tinham duas secretárias que, ao me verem, tiveram uma crise de risos. Uma delas se levantou e saiu rapidamente. A segunda pediu meu nome, etc, mas eu a agradeci e saí.  Não fiz a entrevista. Era muito novo e, hoje, certamente conduziria de outra forma.”

Aos 41 anos, Enrico venceu barreiras e traçou uma trajetória de sucesso no mundo dos negócios (Foto: Divulgação)

Ele também lembra outro caso em que conseguiu reverter e o colaborador virou um grande amigo. “Nesta ocasião, eu pedi demissão na empresa onde estava trabalhando, mas não abri para qual empresa eu iria. Na minha última semana de trabalho (na empresa antiga) uma das pessoas da equipe me disse que já sabia para qual empresa eu iria e me mostrou um post em uma mídia social, onde um rapaz, que ficaria sob a minha gestão mencionou: “(…) vão trocar o meu chefe: um maluco por um anão!!”.

Enrico encarou isso como um desafio e, nos primeiros dias nesta nova empresa, conversando individualmente com cada uma das 10 pessoas da equipe, ao se reunir com este rapaz, contou-lhe sobre a sua história de vida, enfatizando diversos aspectos e não só o lado profissional. “Foi uma experiência bem legal, pois a forma pela qual eu conduzi a conversa fez com que ele passasse a me respeitar, se aproximar e, com o tempo, ficamos bastante amigos”, disse.

Enrico acredita que cada tipo de deficiência tem a sua dificuldade ou peculiaridade no mundo corporativo. O principal desafio para os portadores de nanismo, segundo ele, é lidar com as brincadeiras e as reações dos colegas. “Para o nanismo, eu acho que o principal momento é o primeiro contato com os seus colegas de trabalho. A reação das pessoas varia ao te ver pela primeira vez e é neste momento que pode existir alguma piada, risada ou constrangimento”.

Apesar de tudo, ele conta que é importante manter a postura profissional, não permitir brincadeiras de mau gosto ou pejorativas. “É preciso também saber aceitar também, quando houver uma brincadeira criativa, engraçada, mas de bom gosto e sem ser de forma agressiva”, ressalta.

A acessibilidade é outro desafio. Todos são iguais perante a lei. Entretanto, os portadores de nanismo passam por muitos percalços. Quando morava em Niterói e trabalhava no Rio, Enrico, muitas vezes, precisava de ajuda para embarcar e desembarcar das barcas. As maiores dificuldades são observadas no trajeto de ida e volta para o trabalho, pois os transportes coletivos, como ônibus e barcas, não estão 100% preparados.

Por centenas de vezes, o desnível entre a barca e o deck onde ela atracava fazia com que eu precisasse recorrer a ajuda para poder embarcar. Há poucos anos, eles colocaram uma rampa para reduzir este desnível e dar autonomia para que, quaisquer pessoas, deficientes físicas ou com dificuldade de locomoção, pudesse embarcar mais facilmente. Outro exemplo que ouço reclamarem bastante é sobre a altura entre o chão e o degrau do ônibus e ainda sobre a altura onde fica o leitor do cartão de vale transporte”, conta.

De acordo com o consultor financeiro, a acessibilidade nas empresas varia bastante de uma para a outra, mas é comum que os RH’s se preocupem em receber bem um colaborador que precise de alguma adaptação: “No meu caso, apenas o apoio para os pés. Existem outras adaptações mais complexas, mas percebo que os recursos humanos vêm se preocupando e se envolvendo cada vez mais”, sinaliza.

Inclusão no mercado de trabalho e na sociedade das pessoas com nanismo

O conceito de ESG (Environmental, Social, and Governance) veio para ficar e vem sendo muito debatido, além de estar provocando grandes mudanças nas empresas, segundo Enrico. Sob a ótica de PCD (Pessoas com Deficiência), onde o nanismo está enquadrado, ele vê que as empresas estão buscando se tornar atrativas a estas pessoas. Trata-se de uma mudança de postura relevante, pois ao invés de buscarem PCD’s para cumprirem a legislação, tal adequação se torna uma consequência deste novo posicionamento.

Há estudos publicados demonstrando impacto financeiro positivo relacionados à inclusão. A pessoa com nanismo ou qualquer outro tipo de deficiência física passa não só a buscar salário, benefício, mas a observar claramente estas questões. Além disso, as empresas que aderem aos conceitos de ESG, são cada vez mais bem vistas pelos investidores, pela população de sua região e seus stakeholders”, destaca.

Ele enfatiza que, ao olharmos para a relação empresa e colaborador PCD, é preciso atentar para o fator Capacitismo x Vitimização. Segundo Enrico, o papel da empresa é oferecer todas as condições para que a pessoa com nanismo ou qualquer outra deficiência esteja apta a desempenhar seu trabalho assim como qualquer outro profissional. A partir daí, cabe ao PCD produzir e performar, sem qualquer distinção, em linha com o seu cargo e com a expectativa da empresa.

Ele deve estar atento para que, ao receber um feedback negativo ou uma avaliação mais crítica, não leve de forma persecutória, achando que a sua condição física é o fato gerador de tal episódio. Não cabe à empresa e tão pouco ao colaborador PCD gerarem uma relação de exceção, ao se olhar estritamente para o desempenho profissional, considerando que esta pessoa está totalmente apta, com todas as ferramentas providas pela companhia para que ela desempenhe o seu trabalho da melhor forma possível”, analisa o consultor.

Enrico tem uma percepção otimista sobre inclusão. “Apesar de ter muito ainda a ser feito, a “estrada” já está em construção e tem muita gente trabalhando conjuntamente para isso”, finaliza.

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