Janeiro Branco: uma campanha pelo bem da saúde mental

Rosayne Macedo

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Outubro Rosa já se tornou tão conhecida que ganha, a cada ano, mais e mais aliados para o que se tornou uma mega-ação de marketing social envolvendo muitas empresas em favor da causa: o combate ao câncer de mama. Depois vem o Novembro Azul, que já funciona como um sinal de alerta para os homens que não cuidam tão bem da saúde e sofrem com o câncer da próstata. Em seguida, é a vez do Dezembro Laranja, que chama a atenção para o câncer de pele num país tropical, abençoado por Deus e com povo negligente por natureza com sua saúde.

Mas infelizmente poucos ainda sabem sobre o Janeiro Branco, iniciativa que vem lá de Minas Gerais e, esperamos, possa vir a mobilizar o país em torno de um tema que merece atenção o ano inteiro: a saúde mental. A campanha, ainda nova, merece muita atenção e já começa a ganhar espaço em outras capitais, como Curitiba, mas infelizmente ainda não chegou ao Rio de Janeiro. Tanto que este blog mesmo não recebeu nenhuma sugestão sobre o tema das assessorias parceiras, mas, sempre ligado no que há de novidades sobre saúde, bem-estar e qualidade de vida, descobriu a ação circulando nas redes sociais.

A proposta da campanha é mobilizar a sociedade em favor da saúde mental, mudando a compreensão cercada de tabus sobre a saúde mental e promovendo mais possibilidade de saúde mental a todos os indivíduos e a sociedade como um todo. Mas por que escolher o mês de janeiro, quando muita gente está de férias, nem aí para questões de saúde? É porque este é o mês das prometidas grandes mudanças em nossas vidas.

“Virada de ano é um período em que as pessoas entram num envolvimento espontâneo de avaliação das suas próprias vidas, e janeiro, o primeiro mês do ano, um mês terapêutico por natureza – vamos, então, aproveitá-lo e instigar as pessoas a pensarem sobre saúde mental, sentidos da vida, propósitos existenciais, qualidade de relacionamentos, equilíbrio emocional e se são, ou não verdadeiramente felizes”, argumentam os psicólogos que organizam a ação.

É cada vez maior o número de casos de depressão, ansiedade, fobias, pânico e até agressividade e desrespeito. Isso mostra que as pessoas precisam começar a cuidar também de aspectos mentais e emocionais de sua vida. Para Wania Cidade, presidente da  Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), qualquer iniciativa que esclareça a população quanto aos tratamentos disponíveis para o sofrimento psíquico é muito bem-vinda.  “É muito bem pensado que comecemos o ano pondo em dia nossa lista de prioridades na busca por uma vida psíquica mais de acordo com nossos desejos e, neste caso, a psicanálise pode ser um bom começo”, afirma.

Segundo ela, ultimamente têm havido campanhas muito exitosas que chamam a atenção para o cuidado preventivo com o corpo e é muito importante e significativo que se crie este paralelo, alertando as pessoas para o adoecimento psíquico, uma dor sem localização corporal, mas que afeta o indivíduo no todo de sua vida. “Há muita desinformação e, consequentemente, muito preconceito quando a pessoa padece de qualquer dor que não esteja situada e diagnosticada como doença física, orgânica. Seria interessante se, através de informações como a que esta matéria veicula, pudéssemos ampliar a noção de corpo e psiquismo, trazendo a noção de que ambos são interligados e inseparáveis”, ressalta.

Para Rovena Paranhos, coordenadora do curso  de Psicologia da Faculdade Arthur Sá Earp Neto (FMP/Fase), em Petrópolis, promover a saúde mental é responsabilidade de cada um e de todos nós. “Essa é uma questão de saúde pública, é um valor coletivo e, como tal, implica necessariamente o acolhimento indiscriminado, a informação correta, a promoção constante, a prevenção ampla, o tratamento adequado, a reabilitação segura. O caminho da reclusão, da alienação, da exclusão, da discriminação daqueles considerados doentes mentais é, seguramente, o caminho de uma sociedade injusta, desequilibrada, desonesta e incivilizada”, afirma.

É preciso “saber escutar” as dores da alma

Wânia  explica que é importante que a população tenha conhecimento a respeito disso e de que há tratamentos disponíveis aos quais pode recorrer. E também é  fundamental que o profissional da área de saúde, e mesmo a população, saibam escutar não somente as dores corporais, mas aquelas que decorrem da vida psíquica do sujeito e que, às vezes, o levam a adoecer, também, fisicamente.

“O contrário é igualmente verdadeiro, se o sujeito sofre de um mal físico, naturalmente, isso afeta sua vida mental, muitas vezes desencadeando sintomas depressivos ou de outra natureza”. Segundo ela, o acesso à saúde mental/emocional depende, necessariamente, do acesso ao nosso mundo interno, à ideia de que se passam fenômenos conosco sobre os quais não temos total consciência e, em alguns casos, precisamos de um profissional que nos ajude a metabolizá-los.

 

Drogas lícitas x drogas ilícitas

Rovena lembra que hoje, a Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social. “Por si só, essa definição põe por terra algumas arcaicas discussões sobre a pertinência — ou seria impertinência para uns tantos? — de se falar, tratar, cuidar, praticar, promover a saúde mental. É fato, pois, inquestionável, indiscutível, inarredável que não existe saúde geral, se a saúde social, mental e física não estiver em equilíbrio”,destaca a psicóloga.

E nesse trinômio — físico, mental e social — a relevância da saúde mental parece evidente, pois quando não se é capaz de sentir plenamente e de pensar claramente, não se consegue decidir com propriedade acerca de si, dos outros e das circunstâncias que nos inscrevem e circunscrevem. O que, por consequência, nos impede de agir com responsabilidade plena em relação à saúde em geral, mais, em relação à vida.

A psicóloga ainda questiona o uso “Nessa nossa atual sociedade em que a drogadição ilícita é largamente consentida e a lícita cada vez mais incentivada, há que se perguntar quem são, de fato, os doentes mentais? Esta reflexão e o desafio que ela impõe já começam a ser bravamente enfrentados pela campanha Janeiro Branco, que merece não só nossa acolhida, mas, sobretudo, nossa irrestrita adesão na medida em que trata das necessidades de saúde mental de todos nós”, ressalta.

Na seção Eu Vivo, veja o depoimento do jornalista Ricardo França, que mergulha fundo no tema para explicar as dores da depressão

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