Janeiro Roxo: tratamento precoce cura a hanseníase

Ação no Rio lembra dia mundial de combate e prevenção à doença, que já foi conhecida como lepra e ainda hoje é cercada de estigmas

Redação

Conhecido como Canário, Nilson dos Anjos, de 60 anos, teve hanseníase e está curado e hoje leva uma vida normal e feliz. Canário buscou tratamento que, além de ser gratuito, é disponibilizado em todo o território nacional. Mas por preconceito, muita gente não sabe ou tem vergonha de buscar ajuda. Considerada a enfermidade mais antiga da humanidade, a hanseníase tem cura, mas ainda hoje representa um problema de saúde pública no Brasil.

Conhecida vulgarmente como lepra, a doença tropical negligenciada, infectocontagiosa de evolução crônica, se manifesta principalmente por meio de lesões na pele e sintomas neurológicos como dormências e diminuição de força nas mãos e nos pés. A enfermidade afeta os nervos e a pele e é causada por um bacilo por meio do contato próximo e prolongado entre as pessoas.
A doença acometeu a humanidade por centenas de anos sem que houvesse tratamento, o que provocou muita discriminação e isolamento dos pacientes. Sem tratamento, os doentes liberam os bacilos através do aparelho respiratório (secreções nasais, gotículas da fala, tosse, espirro), transmitindo a hanseníase para outras pessoas. Mas hoje sabe-se que o diagnóstico precoce, além de garantir maior sucesso no tratamento, evita as deformidades e o doente deixa de liberar os bacilos, evitando a transmissão da doença para outras pessoas.
Segundo o coordenador estadual do Programa de Controle da Hanseníase na Secretaria de Estado de Saúde do Rio, André Luiz da Silva, devido às deformidades provocadas, a doença carrega as marcas do estigma e preconceito. “Por isso, é importante intensificarmos ações de conscientização e esclarecimento da população. Seu controle está baseado no diagnóstico precoce, tratamento e cura, assim como identificação da cadeia de transmissão e a adoção de medidas para evitar incapacidades físicas”.
Atualmente existem antibióticos bastante eficazes contra a hanseníase, que pode ser tratada e curada, sem que o paciente precise se afastar da sua rotina. A terapia atual é feita entre 6 e 12 meses à base de medicamentos. No Brasil, o tratamento é gratuito e oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os pacientes podem se tratar em casa, com supervisão periódica nas unidades básicas de saúde.
Quanto mais rápido o paciente iniciar o tratamento adequado, mais rapidamente a doença deixa de ser transmissível e menor as chances de surgirem incapacidades físicas. Por isso, é muito importante a conscientização da população e dos profissionais de saúde visando ao reconhecimento rápido e do maior número de casos precoces da doença.
Por isso, é importante que o paciente faça o tratamento adequado e completo, para garantir a cura e interromper a linha de contágio. Seu diagnóstico, tratamento e cura dependem de exames clínicos minuciosos e, principalmente, da capacitação do médico. No entanto, fica o alerta: quando descoberta e tratada tardiamente, a hanseníase pode trazer deformidades e incapacidades físicas.

Números da doença são muito elevados no Brasil

 O Brasil vem se mantendo em segundo lugar mundial no número de casos novos de hanseníase diagnosticados anualmente, sendo superado apenas pela Índia. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2017, 150 países contabilizaram 210.671 novos casos da doença, o que corresponde a 2,8 casos a cada 100 mil habitantes.

No Brasil, no mesmo ano, foram detectados 26.875 casos novos, o que expressa 12,9 casos a cada 100 mil habitantes. Entretanto, há uma heterogeneidade dos números nas regiões do país. Os estados do Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Pará, e Piauí são os que apresentam os maiores índices de casos da doença.

Em 2018, o Estado do Rio de Janeiro registrou 910 casos de hanseníase e 1.334 pessoas estão em tratamento. São 40 casos notificados em menores de 15 anos e 275 casos com algum grau de incapacidade física.
Já no município do Rio houve uma queda no número de casos de hanseníase de 2013 a 2016. No entanto, a partir de 2017, os registros mostraram aumento da incidência da doença, quando foram diagnosticados 335 novos casos, fechando o ano com 430 pacientes em tratamento.

 

A IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO PRECOCE

Os sinais da hanseníase são manchas claras, róseas ou avermelhadas no corpo, geralmente com diminuição ou ausência de sensibilidade ao calor, frio ou ao tato. Também podem ocorrer caroços na pele, dormências, diminuição de força e inchaço nas mãos e nos pés, formigamentos ou sensação de choque nos braços e nas pernas, entupimento nasal e problemas nos olhos.

Diversos autores têm apontado que tanto a hanseníase, principalmente, nas formas avançadas (multibacilares), são mais frequentes nos homens do que nas mulheres. Esse predomínio é explicado geralmente pela maior exposição à bactéria e pelo menor cuidado de indivíduos do sexo masculino com a saúde, o que retarda o diagnóstico e aumenta o risco para o desenvolvimento de incapacidades físicas.

A transmissão da hanseníase ocorre pela respiração e a partir do contato com pacientes ainda não tratados. Em tese, todas as pessoas estão expostas, no entanto, a maioria das pessoas possui uma resistência natural e não adoece mesmo quando entram em contato com o bacilo. Os grupos de maior risco são familiares e pessoas próximas de pacientes. Dessa forma, como parte das ações de controle, todos os indivíduos que mantêm contatos próximos com os pacientes devem ser examinados visando ao diagnóstico precoce.

Apesar de ser uma doença manifestada na pele, a transmissão acontece por pequenas gotas de secreção que saem na respiração, do paciente, sem tratamento. Ao penetrar no organismo, a bactéria inicia uma luta com o sistema de defesa do paciente. O período em que a doença pode ficar escondida no organismo é prolongado, e pode variar de dois a sete anos”, explica o médico dermatologista da Diretoria da SBD, Dr. Egon Daxbacher.

Por isso, ao suspeitar dos sintomas, procure uma unidade de saúde da família mais próxima ou um dermatologista nas unidades de saúde do SUS e, também, no site da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

O atendimento da doença é feito por equipes multiprofissionais e o dermatologista tem um importante papel no diagnóstico e tratamento. É responsável pela avaliação clínica do paciente, com aplicação de testes de sensibilidade, avaliação e monitoramento da função dos nervos periféricos. É um médico que está apto a fazer uma biópsia ou pedir exames laboratoriais, caso evidencie alguma lesão suspeita no paciente”, explica a médica dermatologista Sandra Durães, coordenadora da Campanha Nacional de Hanseníase da SBD. 

Para Denise Alves, gerente de Dermatologia Sanitária da SMS, a hanseníase, doença de pele silenciosa e com alto poder de incapacitação, buscar informação e orientação é fundamental.
“É importante que você, cidadão, se informe sobre a hanseníase. Nossa rede de atenção à saúde está estruturada para garantir acesso ao atendimento e tratamento gratuito da população pela atenção primária nas clínicas da Família e nos centros municipais de saúde e quando indicado pela atenção especializada e atenção hospitalar. Esse mês, chamado de Janeiro Roxo, estão sendo desenvolvidas várias atividades educativas em nossas clínicas da família e centros municipais de saúde. Vá a uma unidade de saúde e informe-se. A hanseníase tem cura!”, orienta.

JANEIRO ROXO E DIA DE COMBATE E PREVENÇÃO

Anualmente, no mês de janeiro, são promovidas ações de conscientização sobre a hanseníase para marcar o Dia Nacional de Combate e Prevenção, lembrado no último domingo do mês. Conhecido como Janeiro Roxo, a iniciativa é apoiada pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), por intermédio do Departamento de Hanseníase.
A iniciativa busca melhorar o controle da doença por meio da disseminação de informações especializadas e conscientização da população sobre sua gravidade, bem como a necessidade de diagnóstico e tratamento precoces, contribuindo para a redução do preconceito acerca da doença. A data, que faz parte do Janeiro Roxo, tem como objetivo chamar a atenção da sociedade durante todo o mês sobre a importância da prevenção, diagnóstico precoce e tratamento adequado da doença.
A SBD tem participado ativamente das atividades promovidas pelo Ministério da Saúde quanto à adoção de um novo esquema terapêutico, reafirmando seu compromisso em auxiliar no controle da hanseníase no Brasil. “Estamos no caminho certo para transformar essa realidade. Mas sabemos que ainda temos muito trabalho pela frente no enfrentamento dessa doença”, afirma o presidente da SBD, Sergio Palma.

NAS CLÍNICAS DE FAMÍLIA e na Cinelândia

Para fortalecer a conscientização da população, as secretarias municipal e estadual de Saúde do Rio de Janeiro realizam, neste sábado (26), uma ação na Cinelândia, das 9h às 13h, com atendimento à população, orientação e distribuição de material sobre a hanseníase.
Dentre as atividades, profissionais de saúde realizam exames clínicos com quatro consultórios da carreta do Morhan. Além disso, 12 médicos residentes em dermatologia das universidades e unidades de saúde parceiras atendem a população, com supervisão de dermatologistas da SBD-RJ. Outros doze 12 profissionais de áreas como fisioterapia, terapia ocupacional, serviço social e psicologia darão suporte nos atendimentos.
Maria Kátia Gomes, coordenadora do Departamento de Hanseníase da SBD-RJ, ressalta que os pacientes diagnosticados com a doença já receberão a primeira dose do tratamento na Cinelândia, em uma ação de prevenção, de educação e de atendimento à população.
Os pacientes receberão a primeira dose do tratamento e serão encaminhados para a unidade básica de saúde mais próxima do seu domicílio. Temos uma meta de alcançar até 300 pessoas na região com a divulgação do carro de som que estará circulando e falando da hanseníase e atender ao menos 60 pessoas.”
Ao longo do mês, várias ações são desenvolvidas nas unidades de Atenção Primária da Secretaria Municipal de Saúde. Dentro das clínicas da família e dos centros municipais de saúde ou nos respectivos territórios serão realizadas atividades na sala de espera, rodas de conversa, panfletagens, caminhadas, jogos lúdicos, entre várias outras ações com o objetivo de informar e orientar a população sobre a doença, com foco na identificação dos sinais e início precoce do tratamento.
A programação do Janeiro Roxo inclui ainda a iluminação de pontos turísticos do Rio, com apoio da Rioluz e Arquidiocese. Fazem parte a sede da Secretaria de Estado de Saúde, o Cristo Redentor, os Arcos da Lapa, passarelas do Aterro do Flamengo, o Monumento Estácio de Sá, a Assembleia Legislativa e a Câmara Municipal do Rio.
O evento no Rio conta ainda com a parceria da Sociedade Brasileira de Dermatologia do Rio de Janeiro (SBD-RJ), do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), além de universidades (UFRJ, UFF, UERJ), do Hospital Naval Marcílio Dias e da Santa Casa de Misericórdia. A programação completa está disponível no site da SMS no link: https://bit.ly/2WgacH4.
Fonte: SMS e SES
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