‘Kit-Covid’ no Rio pode incluir vermífugo e outros remédios, diz infectologista

Médico que coordena comitê científico adianta os quatro pilares da nova política de enfrentamento à Covid no Estado do Rio

Edimilson Migowski é doutor em Infectologia e mestre em pediatria pela UFRJ (Foto: Reprodução da internet)

O comitê científico criado pelo governador em exercício Claudio Castro deverá recomendar o emprego de medicamentos off-label (de prescrição não prevista em bula) para tratar precocemente doentes de Covid-19 nas unidades de saúde do Estado do Rio de Janeiro. Como a nitazoxanida, defendida pelo médico infectologista Edimilson Migowski, escolhido para coordenar o grupo. Ao ViDA & Ação, sem mencionar o nome do remédio, Migowski adiantou a linha de trabalho a ser adotada pelo comitê, em apoio à Secretaria de Estado de Saúde (SES).

Existem vários fármacos comprovadamente seguros e eficazes no tratamento inicial dessa infecção. O grupo definirá quais medicamentos deverão ser utilizados. Não será um kit engessado e impessoal. Dessa forma há redução da replicação do SARS-CoV-2, menor gravidade e menor transmissibilidade. Poderemos facilitar o uso de outros fármacos, de acordo com experiências exitosas e publicações científicas”, disse o médico.

Segundo ele, o grupo tem como objetivo principal por em prática os quatro pilares de contingenciamento da Covid-19. O primeiro é reforçar o uso da máscara, distanciamento, higiene das mãos, álcool a 70%, vacinas contra a Covid-19 e evitar aglomerações. Já o segundo pilar prevê orientar a população quanto aos sinais e sintomas imediatos da Covid-19. “Assim as pessoas reforçam o primeiro pilar e seguem para o pilar seguinte”.

O terceiro pilar prevê que a equipe de saúde seja orientada a acolher imediatamente o paciente sob suspeita da Covid-19. O quarto e último pilar é orientar os médicos quanto ao tratamento de pacientes com quadro moderado a grave, internados em enfermaria ou em terapia intensiva de hospitais estaduais e para os municípios que manifestarem interesse. “Tudo em obediência ao secretário de Estado de Saúde”, ressalta o médico.

A intervenção medicamentosa imediata é apenas parte de tudo que iremos escrever, propor e orientar. Todos os membros desse grupo vêm colocando ‘a mão na massa’. Somos práticos, teóricos, pesquisadores, sensíveis e relatamos o que observamos e pesquisamos. Ou seja, além de ler, estamos escrevendo”, declarou.

Segundo ele, em duas semanas será entregue um “documento robusto”, assinado pelo grupo, com as evidências científicas que norteiam o trabalho. “Com os três pilares colocados em prática, teremos menos internações, tanto em CTI quanto em enfermaria e, imediatamente, menores letalidade e transmissibilidade do vírus”, explica Dr Migowski. O médico ressaltou que “o trabalho desse grupo é voluntário e não remunerado”.

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O decreto 47.564, publicado em Diário Oficial no dia 12 de abril, que instituiu o comitê de apoio científico, diz que os médicos têm o dever de “monitorar e avaliar o desempenho do SUS no âmbito do estado e elaborar recomendações à Subsecretaria de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado de Saúde”.

Em sua lista de transmissão no Whatsapp, Migowski pede que enviem relatos de experiências de pacientes de Covid-19 com uso de medicamentos para tratamento precoce da Covid. “Se vc conhece alguém que teve COVID-19 e foi tratado IMEDIATAMENTE (precoce), teria como vc me relatar o desfecho? Envie por aqui um vídeo curto, com celular deitado e me autorize a divulgar, pode ser? Obrigado desde já!”, escreveu. Ele também se mantém ativo nas redes sociais, especialmente no Youtube, militando em defesa do tratamento precoce com uso da nitazoxanida.

Comitê tem outros defensores do tratamento precoce

Edimilson Migowski não é o único a defender tratamento precoce dentro do grupo de notáveis médicos e escolhidos a dedo pelo governador em exercício para o grupo. De acordo com o jornal O Globo, ao menos outros cinco já se posicionaram publicamente em defesa do uso de medicamentos sem eficácia comprovada para prevenir ou tratar a Covid-19. Ou eram contra restrições como lockdown, recomendadas pela maior parte das entidades científicas brasileiras e mundiais para conter o avanço do coronavírus.

Entre os nomes incluídos no comitê de Castro está o infectologista Francisco Cardoso, que também já se manifestou a favor do tratamento precoce e contra o fechamento do comércio. No mês passado, ele disse ao portal Jovem Pan que, em um restaurante, com mesas separadas, clientes de máscaras e ventilação adequada, as regras sanitárias são seguidas e “você está muito mais seguro do que em casa”.

Psicólogo e consultor do Ministério da Saúde, Bruno Campello já falou contra o lockdown, junto com seu pai Fernando Campello, que também faz parte do comitê – mesmo não sendo médico. Em nota divulgada nesta terça à noite pelo Governo do Estado, esclarecendo o decreto (veja abaixo), Fernando é descrito como “doutor em Engenharia Elétrica e especialista em tomada de decisões”.

Virologista diz que não há medicamentos para evitar a doença

Já o biomédico virologista Raphael Rangel, outro integrante do comitê científico criado por Claudio Castro no Rio, afirmou, por meio de sua assessoria, que é contrário a tratamento precoce. ‘Ele acompanha a comunidade científica onde é de entendimento do doutor e de todos, que não existe medicamentos que se tomados precocemente possam evitar a infecção pela COVID-19″.

Ainda de acordo com a assessoria, “o posicionamento do Doutor é claro desde o início da pandemia, sempre a favor de medidas e intervenções que possuem comprovações científicas. É a favor do distanciamento social, uso de máscaras e higiene da população”.

O texto informa ainda que Rangel “é a favor da testagem em massa e monitoramento dos infectados e contactantes para isolamento e entende que o Estado precisa urgentemente aumentar os leitos de UTI para assistência dos pacientes que necessitarem dos cuidados intensivos”. 

Um dos integrantes de comitê vende testes de Covid

A nota informa que outro membro do comitê, Rafael Cisne, é fisioterapeuta, professor associado da UFF e doutor em Ciências Biológicas. Esquece de mencionar que ele também é diretor de Tecnologia e Inovação da DFL, que diz ser a “maior representante da indústria americana e europeia de odontologia no Brasil”.

A empresa desenvolveu e comercializa o GenePro COVID-19. Trata-se de um Kit de diagnóstico in vitro que usa a técnica de RT-PCR para detecção da COVID-19. O “teste molecular padrão ouro” foi desenvolvido em parceria com a Gencurix, “conceituada empresa sul-coreana especializada em diagnóstico molecular”.

ViDA & Ação não conseguiu contato com os demais integrantes do comitê.

Nota do GovRJ sobre o comitê científico

Quanto ao decreto 47.564 publicado em Diário Oficial no dia 12 de abril, que cria o comitê de apoio científico para políticas públicas de enfrentamento à Covid-19, o Governo do Estado do Rio de Janeiro esclarece:

1. O referido comitê, composto por renomados profissionais e pesquisadores, terá como função o contido no artigo  2º do decreto:

a. Monitorar e avaliar o desempenho do SUS no âmbito do Estado do Rio de Janeiro;
b. Acompanhar, por meio de relatórios e indicadores, as atividades de vigilância, de atenção à saúde, de prevenção e de controle de doenças;
c. Elaborar recomendações de forma a obter o constante aperfeiçoamento das ações de proteção à vida.

2. É ilação dizer que este comitê promoverá políticas de tratamento precoce. Em seu artigo 1º, o próprio decreto diz “prevenção e controle da doença”.

3. Contudo, é de conhecimento público que o Governo do Estado já investiu mais de R$ 89 milhões em pesquisas, por meio da FAPERJ, apoiando pesquisadores de instituições como UERJ, UFRJ, LNCC, Instituto D’Or, PUC, entre outras, na busca pelas melhores práticas científicas de tratamento contra a Covid-19.

4. É importante esclarecer que o secretário estadual de Saúde, Carlos Alberto Chaves, sempre teve conhecimento da criação do comitê, o qual está dentro da estratégica de enfrentamento à Covid-19.

5. É importante frisar que este comitê não está subordinado à Secretaria de Estado de Saúde, já que o tema tem repercussões que extrapolam os limites delegados à pasta, havendo a necessidade de ampliação do escopo de trabalho e debates.

6. O Governo do Estado reitera o respeito à ciência, às boas práticas clínicas e, sobretudo, o reconhecimento aos milhares de pesquisadores espalhados pelo mundo que estão se dedicando na busca por soluções e alternativas para o enfrentamento à Covid-19.

7. Segue, abaixo, um breve currículo dos membros do comitê:

Coordenador
– Edimilson Migowski, médico infectologista, pediatra e professor da UFRJ.

Membros
– Francisco Cardoso, médico infectologista.
– Eduardo Lucas, médico da Estratégia da Saúde da Família.
– Bruno Campello, psicólogo, professor da UFPE e especialista em lockdown.
– Guili Pech, cardiologista e arritmologista.
– Rafael Cisne, fisioterapeuta, professor associado da UFF e doutor em Ciências Biológicas.
– Raphael Rangel, biomédico, mestre especializado em virologia e doutorando com foco em Covid-19.
– Fábio Pereira Mesquita dos Santos, biomédico e especialista em farmacologia e imunologia.
– Fernando Menezes Campello de Souza, doutor em Engenharia Elétrica e especialista em tomada de decisões.

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