Leucemia de Susana Vieira se descobre em simples exame de sangue

Atriz de 76 anos fala sobre o medo da morte: ‘Se chegar, eu vou esbofeteá-la’. Para hematologista, ‘quem tem esse tipo de leucemia raramente morre da doença’

Rosayne Macedo
susana vieira leucemia Em entrevista ao Fantástico, atriz Susana Vieira fala do medo da morte: "Se ela aparecer eu vou esbofeteá-la" (Foto: Reprodução TV Globo)

Ela sempre foi ‘A Senhora do Destino’. Independente, falante e com uma vitalidade de dar inveja a muita garotinha por aí. Vaidosa, Susana Vieira, de 76 anos, teve medo de perder o cabelo, de perder trabalho, de parecer velha. Teve vergonha de se assumir doente. Mas ‘a ficha caiu’ de verdade nos 10 dias no CTI, onde teve que usar fralda. Ali, muito mais que sua dignidade, ela expôs sua fragilidade como ser humano. Sentir vergonha de sua própria condição a fez refletir sobre a importância da vida.

 

Diagnosticada com Leucemia Linfocítica Crônica (LLC), muito típica entre pessoas idosas, principalmente da raça branca nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, a atriz contou ao Fantástico neste domingo (18) como foi descobrir a doença, o tratamento e a fase de recuperação. Planos? Ela faz apenas para o Natal deste ano – vai ser em casa, rodeada de amigos – e para a vida profissional no ano que vem – já recebeu novo convite da Globo para gravar uma novela. “Acho que se a morte chegar eu vou esbofeteá-la”, disse, revelando ter medo de morrer (veja aqui a entrevista completa).

 

A doença de Susana faz cerca de 150 mil casos a cada ano no Brasil, o que representa 30% de todos os registros de leucemia, um tipo de câncer que ataca o sistema sanguíneo. É também a forma menos grave da doença – se é que pode existir atenuante para esse tipo de câncer no sangue que, ao contrário dos demais, não reage bem à quimioterapia. Mas, afinal, tem leucemia mais ou menos grave?

Para tirar essas e outras dúvidas, ViDA & Ação ouviu o médico hematologista Fábio Nucci, que integra a equipe da rede Oncologia D´Or. Segundo ele, de fato – assim como revelou a atriz – o tipo de leucemia que ela tem é o mais brando e, apesar de não ter cura, é o mais fácil de conviver.

Costumamos dizer que esse tipo de leucemia é tão indolente que quem tem essa doença convive, raramente morre da doença. É uma doença mais arrastada, que causa pouco impacto na sobrevida. Tenho mais medo da pressão alta e da diabetes”, comenta o médico.

Segundo ele, esse tipo de leucemia é mais comum no Ocidente, mais raro no negro, no índio e no asiático. “É tipicamente uma doença do idoso, acima de 65 anos”, explica o especialista.

Leucemias agudas são as mais letais

Dr.Nucci explica que as leucemias se dividem basicamente em dois tipos – agudas e crônicas. As agudas são de evolução rápida e catastrófica, com alto índice de letalidade, e necessitam de quimioterapia agressiva. A maioria dos casos só é curável com um transplante de medula para curar. E as taxas de cura nestes casos variam de 40% a 60%.

 

São os casos da Linfoide aguda ou linfoblástica ou linfocífica – LLA, que atacam 80% crianças, sendo muito curável com quimioterapia, mas o melhor tratamento é o transplante, com 50% a 60% de cura.

 

Já a Leucemia Mieloide ou mielocítica aguda (LMA) atinge em 80% dos casos os adultos e a incidência que aumenta com a idade. Neste tipo, a doença é devastadora e o único tratamento é o transplante, com taxa de sucesso de 40% a 60%.

 

Foi esta última doença que certamente levou, em menos de três anos, dois grandes amigos do passado – a cinegrafista e fotógrafa Lília Pereira, de 68 anos, e o jornalista Joca Muylaert, de 60. Ambos sofreram muito enquanto aguardavam por um transplante que nunca conseguiram estar aptos clinicamente para receber.

Leucemias crônicas são mais facilmente curáveis

Nos casos crônicos, aparecem dois tipos de leucemia. “A leucemia mielocítica crônica (LMC) é icônica na Medicina porque foi a primeira curada com terapia-alvo há 30 anos. Antes, o tratamento era feito somente com transplante de medula”, conta o médico.

Descobriu-se que o que causava era uma mutação genética que gerava hiperatividade da enzina considerada fundamental para a regeneração celular, pois promove a proliferação celular. Foram, então, desenvolvidos inibidores desta enzima, que bloqueiam a ação desta enzina. “A gente dá um comprimido pela boca e a doença some, parece que nunca teve nada”, explica o hematologista.

Já a Linfocítica crônica ou linfoide (LLC) – a leucemia de Susana – é uma doença do linfócito, uma célula normal do organismo que sofre mutações e vão causar, principalmente, o desarme da morte celular programada, chamada de apoptose. “Todas as células têm uma programação para morrer. O problema principal é o bloqueio da apoptose”, destaca o especialista.

Ele explica que a doença é arrastada porque a célula que prolifera, multiplica pouco, mas não morre, vai se acumulando.  Normalmente se descobre esta doença num simples exame de sangue. “É descoberta por um achado, um terço nunca precisará ser tratado, um terço vai precisar se tratar e outro terço vai tratar em algum momento da vida”, disse Dr Nucci.

Com um simples hemograma é possível diagnosticar

Segundo ele, a doença muito provavelmente já está com Susana há muito tempo. E foi fazendo um hemograma que ela achou essa alteração e foi atrás do resultado. “Diferentemente do serviço privado, onde se tem acesso a exames, no público os pacientes já chegam muito sintomáticos e de cara precisam ser tratados”, conta o médico. A doença causa anemia e baixa na taxa de plaquetas importante,  além do aumento de gânglios (ínguas) e do baço.

Assim como outros tipos de leucemia, nesta especificamente o paciente até pode diagnosticar precocemente, o que não quer dizer tratamento. É que na grande maioria dos casos a recomendação é o acompanhamento, iniciando o tratamento somente com o aparecimento de sintomas. Já as outras leucemias normalmente exigem intervenção terapêutica rápida.

Perguntamos, então, se é possível evitar a leucemia – assim como acontece em outros tipos de tumores em que os hábitos de vida podem influenciar no surgimento de um câncer. Dr. Nucci responde: “O que a pessoa tem que fazer é ir ao médico e fazer um hemograma. Visitar regularmente um médico assistente, não precisa ser especialista, um clinico geral que a examine, converse”.

Infelizmente, algo difícil em boa parte dos consultórios médicos pelo país, quando o paciente depende do SUS ou mesmo de um plano de saúde.

Dica do Especialista: Aos interessados no tema, no site da Abrale – Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia é possível encontrar dados, informações e orientações confiáveis sobre a doença.

 

 

 

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.