Morte de jornalista acende o alerta para complicações da Covid-19 ao cérebro

Especialistas ouvidos pelo Portal ViDA & Ação falam sobre as causas e riscos da trombose venal cerebral sofrida por Rodrigo Rodrigues

A morte encefálica do jornalista Rodrigo Rodrigues, anunciada nesta terça-feira (28) no Rio de Janeiro, acendeu o alerta: não são apenas complicações respiratórias que o novo coronavírus provoca. O jornalista de 45 anos morreu após sofrer uma trombose venosa cerebral, em consequência da Covid-19. O apresentador do SportTV foi internado no último sábado (25) no Hospital da Unimed Rio, na Barra da Tijuca, foi colocado em coma induzido e chegou a passar por uma cirurgia, mas não resistiu.

Entre os fatores de risco do novo coronavírus estão os problemas vasculares, incluindo a trombose venosa cerebral, que não é considerada uma doença comum e pode ser confundida com o conhecido AVC (Acidente Vascular Cerebral). Especialistas em Angiologia, Cirurgia Vascular e Neurologia ouvidos pelo Portal ViDA & Ação falam sobre as causas e riscos da trombose venal cerebral e a relação entre a formação de trombos e a doença causada pelo novo coronavírus.

Rafael Paternò, neurologista do Hospital 9 de Julho, explica que uma das complicações da Covid-19 é por meio de distúrbios da coagulação, que podem elevar o risco de trombose ou de sangramentos. “Essas tromboses podem acontecer em qualquer lugar. Por exemplo, na perna, que é conhecida como trombose venosa profunda; a trombose na circulação pulmonar, que é o tromboembolismo pulmonar, e existe a trombose venosa cerebral, como é o caso do Rodrigo”, esclarece.

Apesar de incomum, esta complicação tem surgido com maior frequência desde o começo da pandemia no novo coronavírus. O neurologista André Lima, diretor da Clínica Neurovida, no Rio de Janeiro, conta que atendeu dois casos em seu consultório com esse mesmo diagnóstico no mês de abril. “A Covid 19 está cursando com hipercoagulabilidade e pode afetar as veias do cérebro também. A trombose venosa cerebral é de difícil diagnóstico e o sintoma pode ser uma forte dor de cabeça”, explica.

Ricardo Brizzi, angiologista e cirurgião vascular, confirma a ocorrência dessa complicação. E ainda faz um alerta: “Alguns pacientes, com ou sem histórico de doenças circulatórias, estão sendo vítimas de trombose. Por isso, quem já possui problemas circulatórios deve ficar mais atento”.

Trombose cerebral x AVC

A trombose é a formação de coágulos no interior das veias, que causam a obstrução total ou parcial dos vasos. O tratamento desse trombo é feito com anticoagulante, que vai estimular a dissolução do trombo no interior daquele vaso. De acordo com Ricardo Brizzi, a infecção causada pelo Sars-Cov-2 propicia uma hipercoagulação sanguínea. Anticoagulantes estão sendo usados no auxílio do tratamento da infecção quando há evidências de formação de trombos.

O neurologista André Lima explica que o diagnóstico da TVC é feito a partir de uma suspeita em um exame clínico e uma ressonância com análise das veias e artérias do cérebro poderão ajudar a esclarecer o quadro. O tratamento é feito com anticoagulante para dissolver o coágulo na veia. Ele ainda esclarece as diferenças entre a doença e o acidente vascular cerebral (AVC).

A trombose venosa cerebral se dá por um problema de circulação sanguínea que acontece nas veias do cérebro, diferente do AVC, que é nas artérias. Ela é causada pela formação de coágulo nas veias. Um dos sintomas é dor de cabeça forte, tontura e desorientação. Não costuma dar  perda de força em um lado do corpo como o AVC, por exemplo”, esclarece o especialista.

De acordo com Ricardo Brizzi, normalmente, quem desenvolve a doença tem uma alteração em um dos componentes da tríade de Virchow.

Essa tríade é formada questões relacionadas ao estado de hipercoagulação, lesão da parede arterial, lesões mecânicas em cima da veia levando a uma lesão endotelial e a estase sanguínea, que é a diminuição da velocidade no interior da veia, levando a uma maior propensão da formação de coágulo. Qualquer um desses três fatores pode propiciar o aparecimento da trombose”, explica o especialista.

Confira a entrevista de Rafael Paternò ao ViDA & Ação:

– Qual a relação entre a formação de trombos e a Covid-19?
Em alguns casos de Covid-19 existe um aumento da predisposição à formação de trombos e coágulos, em outros casos também pode acontecer uma predisposição a maior risco de sangramentos. Isso ocorre porque uma das manifestações importantes e graves da Covid-19 é a disfunção do nosso sistema de coagulação.

– Qual é a prevalência de casos de trombose cerebral (a mais comum é nos membros inferiores?)
A trombose venosa cerebral é relativamente incomum na população geral. As pessoas mais acometidas por esse problema são mulheres jovens e de meia idade, que fazem uso de anticoncepcional e que são tabagistas e que estão acima do peso.


– Quais os sintomas mais comuns?
Os sintomas mais comuns são dor de cabeça persistente e alterações visuais, como turvação visual e visão dupla. Em casos mais graves os sintomas são confusão mental, podendo evoluir para um AVC tanto isquêmico como hemorrágico, ocorrendo como uma complicação mais grave da trombose cerebral.

– A trombose cerebral pode ser confundida com AVC? O tratamento é o mesmo?
Nos casos mais graves em que chega a ter realmente um sangramento ou isquemia como complicação da trombose ela pode, sim, ser confundida com AVC. Mas o tratamento não é exatamente igual. Na trombose, independentemente de ter um sangramento como complicação, o tratamento é feito com anticoagulantes.

Com Assessorias