‘Não é hora de flexibilização, nem afrouxamento das medidas’, diz imunologista

Lúcia Abel Awad, PhD em doenças infecciosas, é a favor da retomada das medidas de isolamento social e até um possível lockdown

Redação

Quais são as perguntas que os imunologistas e os infectologistas têm que responder com mais frequência? Temas como imunidade, reinfecção, vacina ideal e segunda onda têm sido bastante recorrentes em tempos de coronavírus. A biomédica e imunologista Lúcia Abel Awad, PhD em doenças infecciosas, responde a algumas dessas inquietações e faz um alerta:

O cenário de segunda onda na Europa pode servir de alerta para o Brasil que deve, neste momento, continuar com as medidas preventivas e de proteção, mesmo que o número de casos e óbitos esteja caindo! Não é hora de flexibilização nem afrouxamento das medidas”, ressalta Dra Lúcia.

Também há muitos mitos e inverdades sobre as vacinas que estão sendo produzidas para o combate da Covid-19. Para esclarecer as dúvidas, a biomédica, que atua como professora da Unisa e pesquisadora ligada à Unifesp e USP, também esclareceu algumas dúvidas.

Nesta sexta-feira (27), Dra Lúcia participa de live do projeto #PapodePandemia, do ViDA & Ação, falando sobre o tema junto com o médico infectologista e professor da UFRJ, Edimilson Migowski. A apresentação é da jornalista Rosayne Macedo, editora do site. A live está disponível em nosso Facebook e também no Youtube.

1 – Afinal, a segunda onda chegou mesmo ao Brasil? Dá para flexibilizar ou afrouxar as medidas neste momento?

Os números da pandemia na Europa e nos Estados Unidos estão preocupando as autoridades quanto à uma possível segunda onda no Brasil. Após uma nova explosão de casos, os governos da Alemanha e da França anunciaram um lockdown parcial para conter a segunda onda da doença. A Rússia também vem registrando aumento do número de casos e óbitos. Esse cenário pode servir de alerta para o Brasil que deve, neste momento, continuar com as medidas preventivas e de proteção, mesmo que o número de casos e óbitos esteja caindo! Não é hora de flexibilização, nem afrouxamento das medidas. Uma segunda onda no Brasil não está descartada.

2 – Quanto tempo dura a imunidade contra a Covid-19. Há reinfecção?

Esta é uma pergunta importante sob vários aspectos: como será a resposta frente às vacinas em indivíduos que já tiveram a Covid-19? Uma vez detectados os anticorpos nos indivíduos que estiveram expostos ao vírus, quanto tempo eles irão perdurar na circulação? De acordo com estudos publicados, a detecção de anticorpos protetores contra o vírus SARS-COV-2, inicia-se no sexto dia após o início dos sintomas e atinge o pico na segunda semana, podendo permanecer em até cinco a seis meses. A presença desses anticorpos anti-SARS-CoV-2 em pessoas infectadas pode variar muito, dependendo dos testes aplicados e em diferentes perfis clínicos. Não sabemos quanto tempo a imunidade protetora pode durar, dada a grande variação de pessoa para pessoa.

É preciso salientar que a reinfecção ou recidiva da Covid-19 não é um episódio comum e precisa ser estudada com mais profundidade. Existem casos de reinfecção no Brasil sendo analisados. Estudos da análise da resposta imune estão sendo conduzidos e acompanhados. É importante ressaltar a importância da análise do sequenciamento do genoma para diferenciar uma nova infecção dos casos de reinfecção. 

Sabemos que, conforme o título de anticorpos caem, mais são as chances de reinfecção. Entretanto, a doença tem se mostrado mais amena em alguns casos, sem apresentação de quadros graves, o que poderia ser explicado por uma forte resposta imune celular mediada por linfócitos T da exposição anterior. Por essa razão podemos observar poucos casos de reinfecção na Covid-19.

Dra Lúcia Abel Awad é PhD em doenças infecciosas, professora da Unisa e pesquisadora ligada à Unifesp e USP (Foto: Divulgação)

3 – Por que que dentro de uma mesma família, uma pessoa se contamina e apresenta sintomas, e outra não, e nem sequer apresenta anticorpos?

O vírus SARSCOV-2, responsável pela COVID-19, está se mostrando atípico com diversas particularidades, que estão sendo estudadas e observadas por pesquisadores no mundo todo. Estudos mostram que em determinadas situações, os anticorpos são produzidos em quantidades muito pequenas e desaparecem muito rapidamente da circulação. 

Várias pesquisas com acompanhamento de famílias verificaram que as transmissões dentro do núcleo familiar, e mesmo pessoas assintomáticas que tiveram contato com familiares doentes, os anticorpos não são detectados, mas é possível verificar a presença de uma resposta imune mediada por células T CD4+ e T CD8+. Isso quer dizer que, mesmo sem anticorpos, essas pessoas podem estar protegidas contra a infecção. Outro ponto importante é que o fato de termos sido expostos a outros vírus da família do coronavírus no passado, pode ter gerado um repertório de células T e B de memória, desencadeando o fenômeno chamado de reatividade cruzada.

A situação está sendo investigada por vários grupos de pesquisa no Brasil e no mundo. No caso da dengue, por exemplo, se formos infectados pelo mesmo sorotipo, estaremos imunes. Entretanto, se a nova infecção por dengue ocorrer por um vírus da dengue de outro sorotipo, isso pode desencadear a dengue hemorrágica. Essa é uma das razões que ainda não temos uma vacina para a doença. 

No caso da vacina pelo novo coronavírus, é esperado que ela seja capaz de induzir uma proteção duradoura e eficaz, independente do repertório de células T e B e exposição prévia do indivíduo.

4 – Qual será a vacina ideal?

Frente à grande variação na produção de anticorpos, as apostas para a melhor vacina contra a Covid-19 estão nas soluções que também são capazes de induzir uma resposta imune mediada por linfócitos T CD4+ e T CD8+, capazes de conferir proteção eficaz e duradoura. A vacina capaz de induzir uma resposta de células T de memória com uma forte resposta de produção de anticorpos neutralizantes será a vacina mais promissora.

A detecção da presença de anticorpos neutralizantes é crucial. Outros estudos apontam que a reatividade cruzada poderá benéfica. Ainda assim precisamos entender melhor como essa imunidade funciona.

A via de administração da vacina intranasal deve ser considerada e pesquisada, sendo capaz de gerar uma resposta imune robusta de células CD4 + Th1 de memória nas vias aéreas.

5 – Quando as vacinas estarão disponíveis para a população?

De acordo com o andamento dos estudos com as vacinas em fase 3 aqui no Brasil, ainda vai levar algum tempo para analisarmos o número de casos de Covid-19 entre os voluntários vacinados. Somente a partir daí é que saberemos, de fato, qual vacina funcionará melhor e, a partir disso, seguir com o pedido de registro da vacina. Entretanto, já podemos ter um planejamento de logística e de distribuição, com vistas, em breve, ao processo de vacinação em massa.

6 – Há divergências até no Ministério da Saúde e na Anvisa em relação à disponibilidade da vacina no Brasil. Afinal, a vacina deve ou não ser para todos? Ou só para os grupos de risco?

Sim, a vacina deve estar disponível para todos. Porém, estamos diante de um enorme desafio, que é o de avaliarmos as vacinas em plena pandemia. Temos que compreender o tempo da CIÊNCIA, as vacinas nunca foram testadas com tanta rapidez! Antes de qualquer situação, precisamos saber se as vacinas irão conferir proteção, ou seja, se serão capazes de induzir a produção de anticorpos neutralizantes contra o SARS- CoV-2. Para termos esta resposta, temos que aguardar os resultados dos estudos da fase III. É compreensível que a pressão seja enorme para termos uma vacina, mas ressalto a importância de termos os resultados dos estudos para, de fato, comprovarem seu efeito, segurança e toxicidade e, a partir daí, iniciarmos o processo de imunização em massa. Está previsto que as primeiras doses das vacinas sejam disponibilizadas entre dezembro e janeiro de 2021.

O Ministério da Saúde assumiu inicialmente a compra de 30 milhões de doses da vacina de Oxford, enquanto aguardamos a finalização dos testes clínicos. Sendo assim, esta quantidade de doses estará disponível para 15 milhões de pessoas, visto que serão necessárias duas doses da vacina, com prioridade aos profissionais da saúde, pessoas de grupo de risco como idosos, indivíduos com diabetes, obesidade, hipertensão e outras doenças onde exista algum comprometimento do sistema imunológico. Uma vez comprovada a segurança e a eficácia da vacina de Oxford, estão previstas mais 70 milhões de doses. Enquanto aguardarmos as vacinas com os resultados da fase III, investimentos em fábricas, logística, distribuição, infraestrutura e qualificação de profissionais são fundamentais para o início do processo de imunização em massa.

7 – No mundo há grupos se manifestando contra as vacinas. Isso pode atrapalhar a cobertura de uma vacina para a Covid-19 – quando estiver disponível?

Eu acredito que esses movimentos anti-vacinas estão perdendo força neste momento da pandemia, por se tratar de uma doença de curso rápido e alta letalidade para alguns pacientes. Uma pesquisa feita recentemente, mostrou que cerca de metade dos adultos nos EUA (51%) receberia a vacina, caso estivesse disponível, ao passo que 49% disseram que não tomariam ou provavelmente não receberiam. Comparativamente às pesquisas anteriores, o número de norte-americanos a favor da vacina vem aumentando, indicando uma maior aderência ao processo de imunização. Aqui no Brasil, graças ao acesso gratuito à uma ampla variedade de vacinas, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Programa Nacional de Imunizações (PNI), as pessoas acreditam nos benefícios das vacinas, visto que as campanhas de vacinação resultaram na erradicação de doenças importantes. O Japão está entre os países com maior desconfiança com relação às vacinas, de acordo com trabalho publicado na revista The Lancet no mês de setembro.

Hoje, a maior preocupação das pessoas está no fato de que os interesses políticos e das indústrias farmacêuticas estejam à frente das etapas que devem ser cumpridas com os testes vacinas, temendo uma aprovação precoce antes mesmo da finalização dos testes clínicos. Por outro lado, os movimentos anti-vacinas comprometem os esforços de imunizar a população visando acabar com a pandemia. Existem grupos alegando que as vacinas com RNA mensageiro, cujo propósito é promover a produção de resposta imune contra o Sars-Cov-2, podem alterar o DNA das nossas células, mas essas informações são falsas e não têm embasamento científico.

8 – O presidente Jair Bolsonaro afirmou que a vacina não pode ser obrigatória. Afinal, a população deve ou não ser obrigada a se vacinar?

Na minha opinião, o presidente não foi feliz nesta fala, já que criticou a obrigatoriedade da vacinação. Vale lembrar que ele mesmo sancionou uma lei que prevê a obrigatoriedade da vacina em fevereiro deste ano, na gestão do então ministro Luiz Henrique Mandetta. Não vejo isso como uma questão de opção, uma vez que, caso alguém se negue a tomar a vacina, poderá transmitir a doença para outra pessoa. É dever do nosso presidente e das autoridades públicas conscientizarem a população e mostrarem a importância do procedimento, visando não apenas a proteção individual, mas também a coletiva.

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