Obesos têm quatro vezes mais chances de morrer de Covid-19

‘Pesquisa sobre riscos da obesidade para a evolução do quadro da Covid-19 analisada pelo médico Cid Pitombo em live do #PapodePandemia

Redação

Pesquisas recentes têm alertado para a obesidade como um dos principais fatores de risco para o agravamento de quadros da Covid-19. Um estudo publicado semana passada na revista Annals of Internal Medicine mostrou que obesos sem comorbidades, com menos de 60 anos, e sobretudo homens, possuem quatro vezes mais chances de morrer da doença causada pelo novo coronavírus.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), principal entidade de saúde pública nos EUA, também emitiu alerta para o fato de que a obesidade pode prejudicar eficácia da vacina contra o novo coronavírus. São dados alarmantes se for levado em consideração que metade dos brasileiros está acima do peso e 20% dos adultos estão obesos, de acordo com o Ministério da Saúde.

Na live ‘Obesidade e Covid-19: uma combinação de alto risco’ do projeto #PapodePandemia desta quarta-feira (19/8), o médico Cid Pitombo, uma das maiores autoridades em cirurgia bariátrica do país, falou sobre os riscos do excesso de peso para o agravamento dos casos de Covid-19 e de várias outras doenças. Coordenador do Programa Estadual de Cirurgia Bariátrica do Hospital Carlos Chagas, no Rio de Janeiro, recordista nesse procedimento por videolaparoscopia pelo SUS, ele ainda falou da sua preocupação com a possibilidade de o serviço deixar de ser ofertado, por conta da grave crise no Governo do Estado, iniciada na pasta da Saúde.

Cid Pitombo, recordista em cirurgia bariátrica por videolaparoscopia no SUS, alerta para risco da Covid-19 entre obesos (Foto: Divulgação)

Ingrid Jacinto teve que esperar 3 meses pela cirurgia e já perdeu 16 quilos (Foto: Divulgação)

Na 13ª edição do #PapodePandemia, conduzida pela jornalista Rosayne Macedo no Facebook do Portal ViDA & Ação, a cabeleireira e cuidadora de idosos Ingrid Jacinto, de 29 anos, também contou sua história como paciente bariátrica na fila da cirurgia bariátrica pelo SUS. Moradora de Realengo, na Zona Oeste do Rio, Ingrid chegou a pesar 122 kg e ia ser operada no início deste ano, mas, com a pandemia do novo coronavírus, teve que esperar mais tempo. Ela foi uma das primeiras pacientes a serem chamadas na retomada do programa estadual, que atende cerca de 500 pessoas por mês e ficou três meses parado por conta das medidas de isolamento social. Ingrid foi operada recentemente pelo dr Cit Pitombo e já perdeu 14 quilos.

Homens obesos seriam mais propensos a complicações

A pesquisa publicada na Annals of Internal Medicine separou os doentes com hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares para avaliar a gravidade apenas do índice de massa corporal elevado. Sobre o fato de o risco de mortalidade ser maior entre homens obesos, conforme o médico Cid Pitombo, ainda não há conclusões definitivas sobre os motivos, mas uma possibilidade é o fato dos homens terem mais receptores ECA2, por onde o vírus penetra nas células.

O obeso já está sujeito a doenças como hipertensão, câncer, osteoartrite e doença renal crônica. A Covid-19 veio para agravar a situação de indivíduos que já eram vulneráveis. Já existem médicos em outros países clamando pelo aumento das cirurgias bariátricas nos próximos dois anos, como no Reino Unido, como forma de diminuir os riscos para essa população”, ressalta.

O especialista vem alertando para esse fator há alguns meses. Segundo Cid Pitombo, o obeso é, naturalmente, um inflamado crônico. Sua tese de doutorado na Unicamp foi justamente sobre os efeitos dos agentes inflamatórios produzidos pela gordura, principalmente pela gordura visceral (a localizada na barriga). Essa gordura leva à resistência insulínica e produção do diabetes, também sobre as doenças coronarianas e o fígado.

Por isso, vírus de alto impacto no organismo são mais graves entre os obesos por conta dessa condição da doença, que dificulta a resposta imunológica do organismo”, destaca Cid Pitombo.

Obesidade pode prejudicar eficácia da vacina contra o coronavírus

Em relação ao alerta do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) sobre a eficácia da vacina contra o novo coronavírus entre obesos, Cid comenta que estudos científicos já indicam que vacinas para doenças como gripe, tétano e hepatite B são menos eficazes em adultos obesos do que na população em geral.

Isso deixa esse enorme número de brasileiros mais vulneráveis a essas doenças. Não será diferente em relação ao novo coronavírus. Quando a vacina chegar, e há indicação de que ela virá em breve, os obesos seguirão mais suscetíveis à Covid-19″, destaca o especialista Cid Pitombo.

Alerta da ciência mundial

Alguns estudos internacionais já vêm alertando o que a experiência brasileira também confirma: obesos têm mais chances de apresentar casos graves para o novo coronavírus, com longas internações e maior percentual de morte.

Em março, ainda no início da pandemia global, um estudo chinês descobriu que pacientes mais gordos atingidos pela Covid-19 tinham maior probabilidade de morrer do que pacientes mais magros.

Em abril, cientistas da Universidade de Nova York (NYU) descobriram que a obesidade era o fator mais importante para a hospitalização ou não de um paciente após a infecção pelo novo coronavírus. Eles conduziram o maior estudo realizado em hospitais dos Estados Unidos nesta pandemia e indicaram que a composição corporal desempenhou um grande papel na resposta de cada indivíduo ao Covid-19.

Na sequência, pesquisadores franceses do Instituto Lille Pasteur examinaram 124 pessoas internadas com coronavírus e descobriram que 47,6% eram obesas e 28,2% tinham obesidade mórbida, quando o Índice de Massa Corporal é superior a 35. E, em junho, estudo do Reino Unido apontou que mesmo obesos leves têm mais risco de desenvolver versão grave da Covid-19.

As evidências são enormes. É essencial que pacientes obesos tenham consciência de que são um grupo de maior risco para a doença e sigam as medidas de prevenção e controle de contaminação, mesmo após a vacina”, destaca o médico e pesquisador Cid Pitombo.

Flexibilização traz risco para pacientes próximos de operar

A preparação para uma cirurgia bariátrica leva meses, às vezes anos. Passa por exames preliminares, dieta para emagrecimento, orientação psicológica, clínica e finalmente exames pré-operatórios. Com a chegada da pandemia, as cirurgias bariátricas no Hospital Carlos Chagas foram retomadas no dia 13 de julho.

Dias antes, o coordenador do programa, o médico Cid Pitombo, realizou novo estudo com 240 pacientes obesos que vão operar em breve e recém-operados para saber se foram contaminados pelo novo coronavírus. No início do isolamento, apenas um paciente que aguardava a cirurgia havia se contaminado. Agora em julho, eram oito. Todos disseram que não saíram do isolamento, mas estima-se que não falam pelo receio de acabar perdendo a cirurgia.

Entre os operados, o isolamento era maior. Mas ao final do período de isolamento obrigatório, entre operados, os contaminados passaram de 2 para 5 casos. “Saímos de 86 pacientes isolados (78,1%) para 61 (51%). Isso nos preocupa muito porque eles ainda são vulneráveis e estão no grupo de risco por terem feito cirurgia muito recentemente e ainda serem obesos. Estou reforçando meus pedidos para que fiquem em casa ou se protejam mais caso saiam para trabalhar”, destaca o médico Cid Pitombo.

A contaminação, além das questões próprias da doença, gera um enorme transtorno para o paciente e atraso na realização do sonho de ser operado. Estaremos realizando teste de Covid-19 na semana anterior e na data da cirurgia, não podemos correr o risco de operar ou transitar com pacientes contaminados no hospital, seremos rigorosos tanto na avaliação dos pacientes, como no cuidado de toda a equipe e materiais”.

Maior preocupação dos obesos na fila da cirurgia é adoecer

A pesquisa mostrou também que a maior preocupação dos pacientes atualmente é adoecer (58%), seguida da falta de dinheiro (38%). Cerca de 67% estão desempregados. Do ponto de vista da saúde mental, 34% contam ter sentido ansiedade e 45% disseram ter medo do vírus. Apenas três pacientes mencionaram depressão, mas não houve nenhum relato de tentativa de suicídio.

Para a pesquisa, foram avaliados 240 prontuários de pacientes que, contatados por telefone, puderam responder ao questionário. Dos que participaram, 75% eram mulheres e 25%, homens. O Índice de Massa Corporal (IMC – peso dividido pela altura ao quadrado) médio desses pacientes é de 46.

O Dr. Cid Pitombo explica que esse IMC elevado se dá porque os casos de super obesidade são mais comuns no SUS – e a idade média, de 46 anos (variando entre 25 e 63 anos). As comorbidades mais frequentes dos pacientes ouvidos são hipertensão (63%) e diabetes (39%).

A maioria (57%) dos pacientes é de moradores da cidade do Rio de Janeiro e 43% de outros municípios do Estado, de diversas regiões, demonstrando a grande abrangência desse programa Estadual e o equilíbrio em atender tanto a cidade do Rio de Janeiro quanto os outros municípios, de forma proporcional.

Médico é recordista em cirurgia bariátrica por videolaparoscopia pelo SUS

O médico e pesquisador brasileiro Cid Pitombo é o recordista nacional em cirurgia bariátrica por videolaparoscopia no SUS. Mais de 5 mil moradores do Rio de Janeiro já foram tratados pelo especialista, sendo que quase 3.500 passaram pelo procedimento cirúrgico nos últimos dez anos no Hospital Estadual Carlos Chagas, que fica em Marechal Hermes, bairro da Zona Norte do Rio.

Maior serviço deste tipo no SUS, o Programa Estadual de Cirurgia Bariátrica, coordenado pelo dr Cid Pitombo, atende pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) de todos os municípios do estado. Por mês, são realizadas 40 cirurgias, todas pelo acesso videolaparoscópico, que é minimamente invasivo.

Até o momento, mais de 3.200 pessoas já foram operadas pelo projeto do Governo do Estado em 9 anos. Desde que as cirurgias foram retomadas até esta segunda-feira (17), foram operados 45 pacientes e a fila de espera aumentou por conta da suspensão decorrente das medidas de isolamento social por causa da Covid-19.

Saiba mais sobre o projeto #PapodePandemia

O #PapodePandemia é um projeto do PORTAL VIDA & AÇÃO (www.vidaeacao.com.br) criado em junho de 2020, por ocasião do quarto aniversário do site, que é voltado para os temas de saúde, bem-estar, qualidade de vida e sustentabilidade.

A proposta da série de lives é promover uma conversa virtual sobre temas importantes da atualidade, durante o período de enfrentamento da pandemia mundial do novo coronavírus que vivemos desde meados de março de 2020.

A conversa virtual traz como convidados especialistas de diferentes áreas, de uma maneira mais simples, leve e descontraída, contando com a participação do público por meio de mensagens em tempo real.

Quem já participou das lives

Entre os especialistas participantes, estão personalidades como o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão; o sanitarista e vice-diretor do Icist-Fiocruz, Christovam Barcelos; a epidemiologista Liz Almeida, chefe do Serviço de Vigilância do Inca; a médica ginecologista e obstetra Silvia Piza, chefe do Setor de Gravidez de Baixo Risco da Santa Casa de São Paulo.

Também já participaram dos encontros virtuais o cirurgião de cabeça e pescoço e pesquisador da Uerj Leonardo Rangel; a psicanalista Renata Bento; a psicóloga e hipnóloga Miriam Pontes de Farias, a especialista em comunicação não-violenta Marie Bendelac, a educadora perinatal Bia Carneiro, dentre outros.

Personagens contam suas histórias de SuperAção

Além de especialistas, semanalmente o projeto traz alguns personagens, pessoas comuns que contam suas experiências de SuperAção em diferentes contextos. Jornalistas que venceram a Covid-19, como Alberto Corona e Aziz Filho, e as campeãs do Miss Cadeirante 2020, as estudantes paraplégicas Karen Aguiar e Alice Bekker, participaram das lives.

Alcoolista em recuperação e consultora em Dependência Química Luciana Lage – que assina a seção Agenda Positiva do ViDA & Ação – também foi uma das personagens de destaque. Cezar Sant´Anna, homem trans, vencedor do Festival de Cannes com um filme sobre diversidade na paternidade, também contou sua experiência numa live dedicada à paternidade LGBTI.


Novos dias e horários das lives


Passando a contar em agosto com duas edições semanais (quartas e sábados), o projeto #PapodePandemia prevê nova mudança em sua grade de horários.

A partir da próxima semana, dia 24/8, as lives acontecem às segundas e quintas-feiras, às 20 horas, com transmissão direta pelo Facebook.

Em seguida, a live fica disponível também no Youtube e posteriormente, passará a ser disponibilizada também no Instagram, pelo IGTV.

Sugestões e dicas podem ser enviadas para papodepandemia@vidaeacao.com.br.

Veja todas as edições do Papo de Pandemia

LIVE 1 – 5 de junho de 2020 – ESTREIA – Aniversário ViDA & Ação

Como ser sustentável em tempos de pandemia

LIVE 2 – 13 de junho de 2020

Pandemônio em casa: como evitar conflitos familiares

LIVE 3 – 20 de junho de 2020

Como controlar a ansiedade com hipnose a distância

LIVE 4 – 27 de junho de 2020

Álcool e outras drogas no isolamento: apoio ou ilusão? 

LIVE 5 – 4 de julho de 2020

Miss Cadeirante 2020: Lindas, empoderadas e sem limites

LIVE 6 – 11 de julho de 2020

Da ‘gripezinha’ aos 70 mil mortos: a realidade sem máscaras

LIVE 7 – 18 de julho de 2020

Adolescentes confinados, mentes aborrecidas ou criativas

LIVE 8 – 25 de julho de 2020

Os riscos da volta às aulas com o fim do isolamento

LIVE 9 – 01 de agosto de 2020

A cura do câncer tem pressa: como evitar uma epidemia no pós-Covid-19

LIVE 10 – 05 de agosto de 2020

As lições do ex-ministro que enfrentou a epidemia de H1N1

LIVE 11 – 08 de agosto de 2020

Diversidade na paternidade: Com quantos pais se faz uma família?

LIVE 12 – 15 de agosto de 2020

A espera de quem está esperando em tempos de incertezas

LIVE 13 – 19 de agosto de 2020

Obesidade e Covid-19: uma combinação de alto risco

Com Assessoria

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