Ovário policístico na adolescência não é doença

Em entrevista ao ViDA & Ação, endocrinologista explica que ultrassom pélvica não é aconselhável nos primeiros oito anos após a primeira menstruação

Rosayne Macedo

Ela tem apenas 13 anos. E ainda não menstruou, ao contrário da maioria das amiguinhas da turma. Preocupada, a mãe a levou à pediatra, que recomendou uma ultrassom pélvica para identificar a possibilidade de ela sofrer de ovários policísticos, um problema comum na adolescência, mas que nem de longe é motivo de preocupação para a vida reprodutiva futura da menina.

No momento, o exame não é aconselhável. A ausência de menstruação aos 13 anos não significa necessariamente uma doença. A depender de outras características esperadas para esta faixa etária, e do estágio de desenvolvimento da adolescente, podemos considerar normal a ausência de menstruação nesta idade”, afirma a médica Raiane Crespo, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP).

Ovários aumentados ou com múltiplos pequenos cistos (padrão micropolicístico) são comuns nesta faixa etária, sem associação a qualquer doença. Portanto, o ultrassom não deve ser critério de diagnóstico de síndrome do ovário policístico (SOP) nesta fase, e não se recomenda sua solicitação até oito anos após a primeira menstruação com a finalidade desse diagnóstico.

O alerta foi da endocrinologista  Larissa Garcia Gomes, diretora da Sbem-SP, recentemente sobre o tema durante o 13° Congresso Paulista de Endocrinologia e Metabologia – COPEM, realizado em maio, em São Paulo. Segundo a médica, a prevalência geral da síndrome do ovário policístico (SOP) é de 8% a 13% das mulheres. As adolescentes com risco aumentado por apresentar um dos sinais clínicos devem ser acompanhadas por um especialista, para confirmação do diagnóstico durante acompanhamento.

Confira uma entrevista exclusiva de Raiane Crespo ao ViDA & Ação:

– Por que o ultrassom na adolescência pode ser um problema? O que pode causar?

Adolescentes saudáveis podem apresentar ovários discretamente aumentados ou com padrão micropolicístico ao ultrassom, sem que isso represente uma doença. Assim, o achado de uma alteração como ovários policísticos nesta idade pode levar ao diagnóstico equivocado de síndrome de ovários policísticos (SOP) e induzir a tratamentos desnecessários. A recomendação atual é que o ultrassom de pelve seja solicitado apenas 8 anos após a primeira menstruação com a finalidade desse diagnóstico.

– Como então identificar se uma adolescente pode ter o problema?

O diagnóstico da SOP em adolescentes requer muita cautela. É necessário que a paciente apresente sintomas de excesso de hormônios masculinos (testosterona) e irregularidade menstrual para fechar a síndrome. Em relação às manifestações de excesso de testosterona, destaca-se o surgimento de pelos grossos em áreas como buço, queixo, tórax e abdome, além de acne grave e queda de cabelos.

É importante salientar que a irregularidade menstrual é normal em meninas saudáveis durante seu primeiro ano de menstruação e que ciclos com duração entre 21 a 45 dias podem ocorrer nos primeiros 3 anos após a primeira menstruação. Por isso apenas esse sintoma isolado não é suficiente para se diagnosticar a SOP.

– Quais os riscos que pode acarretar futuramente um problema identificado nesta fase? Pode ser indicativo de endometriose no futuro?

A SOP está associada a um risco futuro de desenvolvimento de diabetes, obesidade, esteatose hepática (gordura no fígado), dentre outras manifestações metabólicas. Por isso sempre incentivamos essas adolescentes à prática de atividade física regular e alimentação saudável.

Além disso, nos últimos anos, percebeu-se que essas meninas possuem maior probabilidade de desenvolver transtorno de ansiedade e depressão, sendo esta também uma preocupação da equipe médica nestes casos.

Já em relação endometriose, não existe uma associação clara com a SOP. O que ocorre é um risco aumentado de hiperplasia de endométrio (aumento da camada interna do útero) que pode ser reduzido com tratamento adequado.

– Há riscos de problemas reprodutivos na fase adulta?

Sim. Mulheres com SOP podem apresentar maior dificuldade para engravidar, mas essa não é uma regra. Muitas pacientes engravidam espontaneamente. Nos casos em que isso não acontece, é possível utilizar medicações que aumentam a chance de gestação. Essas pacientes também devem ser acompanhadas com cuidado durante a gravidez devido ao risco aumentado de complicações como diabetes gestacional.

Irregularidade menstrual e acne

Dra Larissa explica que diagnosticar SOP na adolescência requer cautela, pois muitas de suas características são comuns na fase de maturidade do eixo reprodutivo: irregularidade menstrual é típica no primeiro ano, e ciclos entre 21 até 45 dias são usuais até três anos após a primeira menstruação. Acne é outro achado comum na adolescência, devendo ser investigadas causas hormonais nos casos de acne grave.

síndrome dos ovários policísticos é uma disfunção ovariana crônica, que acarreta excesso de produção de hormônios androgênicos, como testosterona e precursores da testosterona como androstenediona, quadro de anovulação que se manifesta clinicamente com irregularidade menstrual, podendo estar associado ao achado no exame de ultrassom de ovários com padrão micropolicístico”, ressalta a especialista.

Sinais – aumento de pelos corporais, em virtude do excesso de testosterona, acne grave e queda de cabelo, irregularidade menstrual com ciclos de intervalos muito curtos ou muito prolongados. “A síndrome também tem associação com aumento de risco de doenças metabólicas como diabetes, obesidade, hipertensão arterial, alteração do perfil do colesterol, esteatose hepática (gordura no fígado) e apneia do sono”, complementa Dra. Larissa.

médico deve estar atento ao excesso de pelos grossos, em regiões de distribuição de pelos corporais tipicamente masculinas como buço, mento (parte inferior da face, abaixo do lábio inferior) e tórax, associado ao aumento de concentrações hormonais da testosterona e presença de irregularidade menstrual com ciclos mais longos que 45 dias, ou mesmo ausência de menstruação por vários meses.

O diagnóstico da SOP na adolescência exige a presença de todos esses achados para se estabelecer o diagnóstico de certeza. A presença de um dos sintomas indica risco aumentado de SOP, e deve manter seguimento clínico”, comenta a médica.

Na adolescência devem ser solicitados apenas os exames hormonais como testosterona e androstenediona para confirmar o diagnóstico. Tais dosagens devem ser realizadas sem uso de anticoncepcional e colhidas no início do ciclo menstrual (fase folicular).

Importante lembrar que a SOP é um diagnóstico de exclusão, e o diagnóstico de hiperplasia adrenal congênita (forma não clássica), hiperprolactinemia, hipotireoidismo, síndrome de Cushing, síndromes de resistência insulínica grave e tumores virilizantes devem ser descartados” conclui a endocrinologista.

tratamento vai depender dos sintomas, mas para excesso de pelo, acne grave e irregularidade menstrual na SOP é recomendado o contraceptivo oral combinado.

Fonte: Sbem-SP

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