Pacientes renais correm risco de morte com a greve dos caminhoneiros

Sem a entrega de insumos, clínicas de hemodiálise são obrigadas a reduzir tratamento. Sociedade Brasileira de Nefrologia faz apelo para que vidas humanas sejam preservadas

Rosayne Macedo

A greve dos caminhoneiros, que entrou no seu quinto dia nesta sexta-feira (25), está atingindo também os doentes renais crônicos que necessitam passar pelo difícil e complexo tratamento de hemodiálise. De acordo com a  Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT), as clínicas que fazem o tratamento de terapia renal substitutiva (TRS) e mantêm a vida de mais de 110 mil pacientes renais começam a ser afetadas. Em algumas unidades, as sessões, que são feitas três vezes por semana e duram em média 4 horas, estão sendo encurtadas em até uma hora.

“O caos está instalado entre os 10 mil pacientes que fazem diálise no Rio de Janeiro”, alerta Gilson Nascimento, doente renal crônico que está na fila do transplante e depende da diálise para sobreviver. Ele faz um apelo ao governo federal, para acelerar as negociações com os caminhoneiros. “Essas pessoas vão morrer e todos esses falecimentos vão entrar na conta do governo federal”, disse ele, que preside a Associação de Doentes Renais Crônicos do Estado do Rio (Adreterj) – confira no vídeo em nosso canal no Youtube.  Nesta sexta-feira, a Sociedade Brasileira de Nefrologia também se manifestou.

Com muita preocupação, nos vemos enfrentando uma paralisação que já causa forte impacto em todas as clínicas e hospitais do país, pois, assim como em outros setores da saúde, as clínicas especializadas em tratamento de diálise dependem de insumos e soluções que vêm por transporte rodoviário, especialmente aquelas que não contam com uma rede ampla ou logística tão frequente de acesso às cargas. Por isso, tememos pela paralisação do atendimento, que no, nosso caso, pode resultar em mortes e problemas graves aos pacientes”, informou Carmen Tzanno, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia.

Problemas em Minas e no Rio

Em Governador Valadares (MG), as clínicas já estão em alerta, pois os insumos estão chegando ao fim e um caminhão carregado com capilares está parado em um dos bloqueios. Em Nova Friburgo (RJ), as clínicas já foram obrigadas a reduzir de quatro para três o número de horas da sessão de hemodiálise. As secretarias de saúde estadual, municipal e o ministério público já foram notificados. No Estado do Rio de Janeiro, são 86 clínicas de diálise e 10.198 pacientes no Rio

Na quinta-feira (24), a Associação Brasileira dos Centros de diálise e Transplante (ABCDT) também fez um apelo à organizadora da paralisação, a Associação Brasileira dos Caminhoneiros (ABCAM). O objetivo era que considerassem “a fragilidade desse setor e o tratem de maneira especial, permitindo que os caminhões que transportam cargas com insumos e medicamentos passem pelas barreiras e cheguem até as clínicas”.

Entretanto, informou a entidade, mesmo que os caminhões consigam passar pelas barreiras, ainda enfrentarão o problema da falta de combustíveis. “Com a paralisação, caminhões tanques não conseguem chegar aos postos para repor os estoques e já falta combustível em diversas cidades do país e as filas nos postos estão só aumentando”, afirma Leonardo Barberes, da diretoria da ABCDT.

Estamos de mãos atadas, acreditando e esperando que os envolvidos tenham um pouco de complacência e flexibilidade e entendam que saúde é prioridade e não pode ser tratada como se tratam outras questões. Entendemos a situação e nos solidarizamos com todos aqueles que estão na mesma condição do que a nossa, Por isso, gostaríamos e torcemos para que se chegue a um acordo o mais rápido possível, caso contrário, tememos pelo colapso do atendimento aos pacientes com doença renal crônica”, destacou Carmen Tzanno.

Vidas em jogo

No caso das clínicas de diálise o problema não é apenas econômico, são várias vidas que estão em jogo. Para a realização de uma sessão de hemodiálise são necessários vários materiais e a falta de um item, por menor que seja, impede a realização do procedimento. “Os pacientes renais crônicos dependem única e exclusivamente das sessões de hemodiálise para sobreviverem. O setor está em alerta máximo, devido a peculiaridade do serviço de diálise, sua continuidade e fragilidade do paciente”, alerta a entidade.

É preciso que as autoridades deem uma atenção especial para essa situação, pois o setor pode entrar em colapso, com grande prejuízo à população assistida. Caso o Governo Federal, assim como o Ministério Público Federal não interfiram, milhares de vidas correm risco de morte”

Não podemos ficar calados frente a essa situação e fazemos um apelo, tanto ao governo, como aos representantes da categoria, para que intercedam e tomem medidas que garantam o fornecimento de insumos aos hospitais e as clínicas de saúde”, afirma  Carmen Tzanno, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia.

Associação Médica também manifesta preocupação

Também a Associação Médica Brasileira (AMB), em nota envida nesta sexta à noite, expressou sua preocupação diante da greve dos caminhoneiros, com a manutenção do atendimento dos serviços de saúde. E destacou principalmente os “serviços de urgência, em um sistema que já conta com inúmeras deficiências”.

O transporte de carga no Brasil é realizado essencialmente na malha terrestre, e a entrega de oxigênio, medicamentos, alimentação para os hospitais, além de combustíveis para ambulâncias e demais suprimentos é altamente impactada se não houver bom senso”, diz o texto.

Ainda de acordo com a AMB, os motivos da paralisação não estão sendo questionados, mas é necessário “a compreensão dos manifestantes para que itens fundamentais à manutenção do atendimento de urgência e emergência sejam liberados nas rodovias dando prosseguimento no atendimento à população”.

A entidade ainda manifestou seu apoio à categoria, informando que “entende e se solidariza com as pautas reivindicadas pela greve dos caminhoneiros, visto que é necessário que haja uma redução dos impostos, como no caso dos combustíveis no Brasil, pois o preço destes afeta praticamente todos os produtos e serviços já altamente impactados pela carga tributária colossal em todos os segmentos de mercado”.

Sem vacina 

A vacinação contra a gripe, para pacientes acamados ou com restrição de mobilidade, marcada para este sábado (26), em Santos, foi adiada em razão da greve dos caminhoneiros. O anúncio foi feito pela Prefeitura, na tarde desta quinta-feira (24). Segundo a Administração Municipal, o repasse de novo lote de vacinas para o Município estava previsto para esta sexta (25), mas não ocorrerá devido aos bloqueios nas estradas que impedem a chegada das doses à sede regional do Grupo de Vigilância Epidemiológica (GVE), do governo estadual.

Da Redação, com Assessorias

 

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