Pandemia pode aumentar consumo de drogas, alerta ONU

Relatório aponta que 35 milhões, das 269 milhões de pessoas que consumiram substâncias ilícitas em 2018, sofrem de transtornos

Redação

O mundo está usando “mais drogas do que nunca”. Estima-se que 269 milhões de pessoas consumiram substâncias ilícitas em 2018. Isso representa um aumento de 30% em relação a 2009. No período, houve aumento na população mundial, mas, ainda assim, o número de usuários aumentou proporcionalmente, de 4,8% para 5,4% da população adulta, quase 1 a cada 19 pessoas. Pior: mais de 35 milhões de pessoas sofrem de transtornos associados ao uso de drogas.

É o que mostram dados do relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), lançado nesta quinta-feira (25). De acordo com o levantamento, cerca de 5% da população mundial, entre 15 e 64 anos usam drogas ilícitas. Nessas últimas décadas a intensidade do problema do uso indevido de substâncias psicoativas ganhou proporções tão graves que hoje é um desafio para a saúde pública.

O Relatório Mundial sobre Drogas de 2020 oferece uma visão global sobre a oferta e a demanda de opioides, cocaína, cannabis, estimulantes do tipo anfetamina e Novas Substâncias Psicoativas (NPS), bem como sobre seu impacto na saúde, levando em conta os possíveis efeitos da pandemia da Covid-19.

Divulgado na véspera do  Dia Internacional de Combate às Drogas (26 de junho), o documento destaca, por meio de pesquisa aprimorada e dados mais precisos, que os efeitos adversos para a saúde devido ao uso de drogas são mais generalizados do que se pensava anteriormente.

O tratamento para dependência química é um processo delicado e contínuo, infelizmente em alguns casos acontecem as recaídas, porém, a equipe sempre trabalha com os pacientes que eles não devem se sentir envergonhados ou fracassados. Que na recaída sirva para que se autoconheçam, que saibam das suas limitações e também que identifiquem quais são os fatores que determinam para que isso não venha ocorre novamente”, explica a coordenadora da Unidade de Governança e Justiça para o Desenvolvimento do PNUD, Moema Freire.

Acesse aqui o relatório completo

Crise da Covid-19 pode agravar riscos das drogas

O relatório também analisou o impacto da Covid-19 nos mercados de drogas e, embora seus efeitos ainda não sejam totalmente conhecidos, o fechamento de fronteiras e outras restrições relacionadas à pandemia já causaram escassez de drogas nas ruas, levando ao aumento de preços e à redução da pureza.

Pobreza, pouca educação e marginalização social continuam sendo fatores importantes que aumentam o risco de ocorrência de transtornos associados ao uso de drogas. Além disso, os grupos vulneráveis e marginalizados também podem enfrentar barreiras para obter serviços de tratamento devido à discriminação e ao estigma.

A diretora-executiva do UNODC, Ghada Waly, explicou que os grupos vulneráveis e marginalizados, jovens, mulheres e as camadas mais pobres pagam o preço do problema das drogas no mundo. “A crise da COVID-19 e a retração econômica ameaçam agravar ainda mais os riscos das drogas, quando nossos sistemas sociais e de saúde estão à beira de um colapso e nossas sociedades estão lutando para lidar com esse problema”.

Maconha é a mais consumida, mas opióides continuam sendo mais nocivos

Enquanto a cannabis foi a substância mais consumida no mundo em 2018, com uma estimativa de 192 milhões de pessoas que a usaram, os opioides continuam sendo os mais nocivos.  Na última década o número total de mortes por transtornos associados ao uso de opioides teve alta de 71%, com aumento de 92% entre as mulheres, comparado com 63% entre os homens.

Embora o impacto das leis que legalizaram a cannabis em alguns países ainda seja difícil de avaliar, é notável que o uso frequente da cannabis aumentou em todas essas áreas após a legalização. Em alguns desses países, os produtos mais potentes da cannabis também são mais comuns no mercado.

A cannabis também continua sendo a principal droga que coloca as pessoas em contato com o sistema de justiça criminal, respondendo por mais da metade dos casos de infrações à lei de drogas, com base em dados de 69 países, no período de 2014 a 2018.

Escassez de opioides farmacêuticos para aliviar a dor

O relatório também aponta que os países de baixa renda ainda sofrem com a escassez de opioides farmacêuticos, usados para controle da dor e cuidados paliativos. Mais de 90% de todos os opioides farmacêuticos disponíveis para consumo médico encontravam-se em países de alta renda em 2018, compreendendo cerca de 12% da população mundial.

A estimativa é de que os países de baixa e média renda, que compreendem 88% da população mundial, consumam menos de 10% de opioides farmacêuticos. O acesso a essas substâncias depende de vários fatores, incluindo legislação, cultura, sistemas de saúde e práticas de prescrição.

O estudo mostra que a pandemia também tem levado à escassez de opioides, o que, por sua vez, pode resultar em pessoas que buscam substâncias mais facilmente disponíveis, como álcool, benzodiazepinas ou mistura com drogas sintéticas. Podem surgir padrões de uso mais prejudiciais à medida que alguns usuários passem para o uso da injeção, ou injetem com maior frequência.

Foto: Reno Beranger/Pixabay

Desigualdade também no acesso às drogas ilícitas

Os efeitos da desigualdade social pelo mundo, escancarados pela pandemia, também esbarram no universo das drogas ilícitas. Ainda que exista maior prevalência no uso de drogas em países desenvolvidos e em classes sociais mais altas, pessoas social e economicamente mais vulneráveis são mais propensas a desenvolver distúrbios devido ao consumo dessas substâncias.

O aumento do desemprego e a redução de oportunidades causados pela pandemia também podem afetar desproporcionalmente as camadas mais pobres, tornando-as mais vulneráveis ao uso e ao tráfico e cultivo de drogas para obterem sustento, aponta o relatório.

O desemprego crescente e a falta de oportunidades torna provável que pessoas pobres e em desvantagem desenvolvam padrões prejudiciais de uso de drogas, sofram de distúrbios relacionados ao uso e apelem para atividades ilegais relacionadas a produção e ao tráfico”, diz o estudo.

Além disso, pessoas vulneráveis podem ser convencidas a entrar em redes criminosas, e agricultores podem ampliar ou começar a se dedicar à produção de substâncias ilícitas, tanto pela falta de alternativas quanto pela falta de fiscalização.

Mercado de drogas sintéticas deve sofrer alterações

Segundo o relatório, esses são apenas alguns dos efeitos da pandemia de coronavírus no mercado de drogas ilícitas. O estudo aponta que a situação remete a outros momentos de tensão global. Durante a crise financeira de 2008, por exemplo, usuários passaram a buscar substâncias sintéticas mais baratas e mudaram seus padrões de consumo para drogas injetáveis.

Em março, por exemplo, os preços da anfetamina nos EUA e no México aumentaram devido à dificuldade de produtores mexicanos em conseguir matéria-prima proveniente do leste asiático. Esses produtores passam então a utilizar químicos alternativos ou menos regulados e a produzir drogas menos puras. As mudanças levam usuários a modificar seus padrões de uso para comportamentos mais nocivos, um movimento perigoso.

O UNODC também alerta que, assim como em 2008, a capacidade dos governos de responderem aos problemas relacionados a drogas, seja na contenção da distribuição, no desmantelamento de redes criminosas ou no fornecimento de tratamentos a usuários, pode ser prejudicada por cortes de verbas.

No tráfico internacional, o maior impacto deve ocorrer em países onde grandes quantidades de drogas são levadas em voos comerciais. Isso deve afetar principalmente o mercado de drogas sintéticas, como metanfetamina e ecstasy, por exemplo, geralmente traficadas em bagagens pessoais de mulas ou em pacotes pelo corpo.

Droga pode vir pelo mar ou pela internet

Devido à COVID-19, os traficantes podem ter que encontrar novas rotas e métodos, e as atividades ligadas ao tráfico e remessas pelo correio podem aumentar, apesar de a cadeia de suprimentos postais internacionais ter sido interrompida.

A redução nas rotas aéreas, por sua vez, deve gerar aumento no tráfico por transporte marítimo. Outra alternativa utilizada por traficantes agora é a darknet – área não rastreável da internet – e o envio de drogas por correio, apesar das rotas de correspondência internacional terem sido rompidas.

Segundo a UNODC, desde a segunda metade de 2017 grandes mercados de drogas na darkweb foram fechados, mas em 2020 foi identificado um aumento nas compras de drogas por esse meio, geralmente feitas por usuários com maior dificuldade de encontrar traficantes nas ruas.

“Há indícios de que a atividade em alguns mercados europeus de droga na darknet cresceram durante o primeiro trimestre de 2020”, diz o relatório. A pesquisa reforça, entretanto, que a comparação entre anos devem ser vistos com cautela, já que as estimativas representam os melhores dados disponíveis à época.

Apoio aos países em desenvolvimento

Ao observar outros efeitos da atual pandemia, o relatório alerta que se os governos reagirem igual à crise de 2008, quando reduziram orçamentos de drogas, intervenções para prevenção, serviços de tratamento e fornecimento de naloxona, usado na reversão da overdose de opioides, populações podem ser mais duramente atingidas. As operações de interceptação e a cooperação internacional também podem se tornar menos prioritárias, facilitando a operação por parte dos traficantes.

Precisamos que todos os governos demonstrem maior solidariedade e apoiem, principalmente os países em desenvolvimento, no combate ao tráfico ilícito de drogas e ofereçam serviços baseados em evidências para os transtornos associados ao uso indevido de drogas e doenças relacionadas, para que possamos alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, promover a justiça e não deixar ninguém para trás”, afirmou a diretora-executiva do UNODC.

#TODEBOA: projeto foca em adolescentes, jovens e vulneráveis

O uso de drogas aumentou muito mais rapidamente entre os países em desenvolvimento, durante o período 2000-2018, do que nos países desenvolvidos. Adolescentes e jovens representam a maior parcela daqueles que usam drogas, enquanto os jovens também são os mais vulneráveis aos efeitos das drogas, pois são os que mais consomem e seus cérebros ainda estão em desenvolvimento.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, lançou um edital para implementar uma fase piloto do projeto “Tô de Boa”, para aprimorar estratégias de prevenção das políticas sobre drogas. A iniciativa quer diminuir o envolvimento de jovens, adolescentes e pessoas vulneráveis com entorpecentes e marca o Dia Internacional de Combate às Drogas, lembrado em 26 de junho.

“Tô de Boa” é a sigla para Trabalho Orientado de Desenvolvimento Econômico e Biopsicossocial baseado na Oferta de Alternativas e está alinhado com a Política Nacional de Drogas da SENAD. O edital busca uma instituição para elaborar o modelo e a metodologia do projeto. A organização selecionada fará também a implementação, o monitoramento e a avaliação do projeto piloto, usando métodos de análise de políticas públicas.

As instituições interessadas têm até 15 de julho para apresentar as propostas. Serão considerados elegíveis centros de pesquisa ou formação, instituições de ensino superior, públicas ou privadas, fundações, institutos e organizações da sociedade civil que comprovadamente atuem ou realizem pesquisas relativas às áreas temáticas propostas, de políticas sobre drogas e desenvolvimento humano.

Desde 2016 o PNUD desenvolve, em parceria com a SENAD e a Secretaria Nacional de Cuidados e Prevenção às Drogas (SENAPRED), um projeto com base  nas premissas do desenvolvimento sustentável para a redução da violência e da oferta de drogas em comunidades vulneráveis. A iniciativa prevê a redução de cultivos ilícitos de drogas via integração socioeconômica dos agricultores, ações de repressão ao tráfico, entre outras.

 Mais informações aqui.

Da ONU Brasil, com Redação