Pandemia pode dificultar o tratamento da esquizofrenia, doença ainda estigmatizada

Isolamento social pode comprometer o diagnóstico precoce e a adesão ao tratamento dos pacientes, alertam especialistas

Redação

A esquizofrenia é uma condição crônica ainda muito estigmatizada que afeta cerca de 1% da população mundial. No Brasil, a enfermidade atinge cerca de 1.6 milhões de pessoas. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, é considerada a terceira doença que mais afeta a qualidade de vida entre a população de 15 a 45 anos de idade.

A patologia geralmente tem início entre o fim da adolescência e o começo da vida adulta. Consiste em um transtorno mental complexo caracterizado por distorções no pensamento, percepção, emoções, linguagem, comportamento e consciência do “eu”. Os sintomas da esquizofrenia podem incluir alucinações (ouvir, ver ou sentir coisas que não existem) e delírios (falsas crenças mantidas mesmo quando há provas que mostram o contrário).

Embora o tema saúde mental venha ganhando notoriedade nos últimos anos, a esquizofrenia ainda é um assunto pouco abordado, o que acaba acentuando o estigma e contribuindo para que haja demora na busca por um diagnóstico ou tratamento corretos.

Estudo mostra que a chegada da Covid-19 tende a piorar o cenário da doença. Além da dificuldade do diagnóstico, potencializada pelo isolamento social, a pandemia pode aumentar o risco de recaídas em pacientes com esquizofrenia, pois o estresse e restrições resultantes da quarentena podem acarretar a piora dos sintomas psiquiátricos que, quando não estabilizados, têm mais chances de resultar em novos surtos.

Dados de uma pesquisa realizada pela OMS, em 130 países, mostra que a pandemia de Covid-19 interrompeu os serviços essenciais de saúde mental em 93% dos países em todo o mundo. Mais de 60% relataram interrupções nos serviços de saúde mental para pessoas vulneráveis (incluindo crianças e adolescentes, adultos mais velhos e mulheres que precisam de serviços pré-natais ou pós-natais). Cerca de 67% alegaram interrupções no aconselhamento e psicoterapia, e cerca de 30% relataram interrupções no acesso a medicamentos para transtornos mentais e neurológicos.

Um dos principais obstáculos para tratar a esquizofrenia é a adesão ao tratamento. Segundo especialistas, cerca de 2/3 dos pacientes com transtornos psicóticos não tomam a medicação corretamente. Em um período de cinco anos, aproximadamente 80% dos indivíduos apresentam recaídas após o primeiro episódio da doença. As recaídas múltiplas culminam em uma perda progressiva da funcionalidade. Dessa forma, evitar recaídas desde o princípio da doença é uma prioridade no tratamento, e um potencial fator modificador da doença.

Pessoas com essa condição, desde que diagnosticadas e tratadas corretamente, podem levar uma vida socialmente ativa, trabalhar, estudar, casar, ter filhos e serem independentes como qualquer outra. A questão é que em alguns casos, por preconceito, medo ou falta de conhecimento, as pessoas acabam não buscando ajuda médica especializada, o que pode dificultar o diagnóstico e comprometer o tratamento”, alerta Cristiano Noto, médico psiquiatra da Escola Paulista de Medicina/Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Ainda de acordo com a pesquisa da OMS, 70% dos países alegaram ter adotado a telemedicina ou teleterapia como opções para contornar as interrupções nos serviços presenciais durante a pandemia. Há, no entanto, disparidades significativas na aceitação dessas intervenções, já que 80% dos países que relataram a implantação do serviço são de alta renda; países de baixa renda representam menos de 50%. Essa lacuna de cuidado representa um desafio importante, já que são justamente estes os países que mais precisam fortalecer seus sistemas de saúde e os cuidados em saúde mental.

Segundo Rodrigo Bressan, médico psiquiatra e professor da Unifesp, apesar da dificuldade de tratamento, houve grande avanço nos medicamentos para o transtorno nos últimos anos e, atualmente, existem opções no mercado capazes de controlar as diversas fases da esquizofrenia e prevenir possíveis recaídas, com efeitos colaterais mínimos. Para facilitar a adesão às terapias, em alguns casos, são recomendados medicamentos de longa duração, capazes de controlar o quadro com aplicações mensais ou até mesmo trimestrais.

In the news
Leia Mais