Peça teatral retrata abusos contra mulheres

Baseado em histórias reais, espetáculo ‘Cascavel’ mostra conturbadas relações afetivas que colocam em cena os horrores do feminicídio

Primeira montagem brasileira de Cascavel estreia em temporada virtual (Foto: Divulgação)

Os canais nacionais que registram a violência contra a mulher receberam mais de 105 mil denúncias em 2020. Do total, 75,7 mil foram referentes a atos domésticos e familiares. Em vários países do mundo, esse tipo de violência se intensificou durante a pandemia, quando as vítimas se viram confinadas com seus agressores. Os dados recentes mostram a atualidade do espetáculo “Cascavel”, escrito pela inglesa Catrina McHugh, em 2015, para colocar em cena os horrores do feminicídio.

Dirigida por Sérgio Ferrara, a peça ganha sua primeira montagem brasileira pela plataforma Sympla, com as atrizes Carol Cezar e Fernanda Heras, que expõem os diferentes tipos de abuso possíveis em um relacionamento. As sessões, de quinta a domingo a qualquer horário, exibem uma gravação do espetáculo realizada em julho no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro.

Baseado em histórias reais, o espetáculo acompanha Suzy (Fernanda Heras) e Jen (Carol Cezar) e suas conturbadas relações com James (interpretado pelas duas atrizes), um homem que cerca e controla as mulheres em sua vida. Como uma cobra traiçoeira, com um veneno potencialmente mortal, ele começa a destruir a vida de cada uma.

Atrizes Carol Cezar e Fernanda Heras interpretam mulheres que foram vítimas do mesmo agressor (Foto: Divulgação)

Elas falam sobre como conheceram James, e a mudança de comportamento dele à medida em que o relacionamento avançava. Suas histórias são muito parecidas. Aos poucos, James começa a controlar Suzy e Jen, afastando-as do mundo e fazendo dele, e de seu comportamento repressor e agressivo, o centro da existência das duas.

“Cascavel” foi originalmente desenvolvida como parte de um programa de treinamento para aumentar a conscientização de policiais da cidade de Durham, no nordeste da Inglaterra, local onde as mulheres não tinham voz. A lei do Reino Unido foi alterada em 2015 para tornar o controle coercitivo em relacionamentos um crime. É a primeira vez que o espetáculo é montado fora da Grã-Bretanha. Sem linearidade, com cenas que intercalam o passado e o presente, o texto é construído a partir de depoimentos das duas personagens.

“A peça detalha o comportamento de James com Suzy e Jen, as manipulações que levam as personagens a viverem com dúvidas e inseguranças e o desfecho desses relacionamentos. É importante lembrar que a violência que uma mulher sofre não termina quando o agressor é preso ou afastado. Ela, muitas vezes, tem que lidar com as sequelas daquela agressão ainda por um longo período. A gente quer que as espectadoras possam olhar para aquelas cenas e sentirem que têm voz.”, comenta a atriz Carol Cezar.

Segundo a Lei Maria da Penha (Lei n° 11.340, de 7 de agosto de 2006), existem cinco tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. A história de “Cascavel” mostra ao público diferentes maneiras que essa violência pode se manifestar e como afeta a vida das duas personagens.

“Além da violência física, há muitos outros tipos de abuso pelos quais a gente passa e só vai entender muito tempo depois. Os danos psicológicos são enormes. A sensação é de perda de autoestima e de que a nossa personalidade vai desaparecendo. Como ficam essas mulheres depois de passar por isso? Esse é um conflito universal”, acrescenta a atriz Fernanda Heras.

Este é o quarto espetáculo em que Fernanda e Carol dividem a cena. Já estiveram juntas em “A hora perigosa” (2014), “A Serpente” (2017/2018) e “Amor é química” (2019). Pela primeira vez, a dupla, que também é responsável pela produção, trabalha com o premiado diretor e psicólogo Sérgio Ferrara.

“Acho importante esse papel antropológico que o teatro também pode ter, de pesquisa de temas sociais. Tenho pensado muito no teatro como representação do indivíduo, da sociedade e da comunidade. Procuro textos que nos permitam refletir sobre a exclusão social para exercer também o meu papel de cidadão por meio do teatro”, comenta Ferrara.

“Pelo lado artístico, “Cascavel” é uma peça muito instigante: tem uma carpintaria teatral ágil, o texto flui, a dramaturgia propõe um jogo teatral interessante, no qual as personagens podem viver várias facetas do que elas passaram. Acredito, assim como a autora Catrina McHugh, que a gente só vai conseguir mudar o mundo a partir das nossas histórias”, acrescenta o diretor.

Para o tradutor, Diego Teza, o que mais chamou a atenção na dramaturgia foi como a autora conseguiu, de maneira direta e ao mesmo tempo muito sensível, personificar relatos fortes dessas mulheres. “O texto, num piscar de olhos, nos aproxima dessas personagens e nos faz testemunhar o dia a dia sufocante e devastador dessas sobreviventes”, comenta. “A peça serve como um alerta geral para mulheres que estejam em relacionamentos abusivos e que talvez nem percebam que estão. E também um alerta para as famílias e amigos, para que prestem atenção nos sinais silenciosos do sofrimento”, completa.

Para construir a atmosfera da história, o cenógrafo Nello Marrese se inspirou no mito do labirinto do Minotauro, onde jovens eram sacrificadas ao monstro, que possuía corpo de homem e cabeça de touro. O artista também usa elementos que remetem ao Memorial aos Judeus Mortos na Europa, em Berlim, composto por blocos de concreto de tamanhos variados que dão uma sensação de desorientação. “Imagino o abusador como um Minotauro e as mulheres como reféns de uma violência que as deixa desnorteadas naquele labirinto”, explica Marrese.

O figurinista Kleber Montanheiro criou peças sobrepostas, de tons invernais e outonais, com inclusão e retirada de elementos conforme as atrizes vão mudando de personagem. “O figurino, composto por calças, saias, blusas com casacos por cima, vão interferir na ação, já que elas vão tirar e colocar as roupas muitas vezes durante o espetáculo. Usamos também cortes geométricos para que essas roupas pareçam se transformar, dependendo do posicionamento da câmera”, explica. A iluminadora Adriana Ortiz lembra que “para a luz ajudar a contar estas histórias deverá ter um viés confessional e inquisidor”.

a peça é patrocinada pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, MXM Sistemas e Serviços de Informática, Top Down Consultoria de Projetos, Carelink Consultoria em Saúde e Sistemas de Informática, Bedois Consultoria e Corretora de Seguros e Norte a Sul Corretora de Seguro, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura – Lei do ISS.

 

1 Comment
  1. […] Peça teatral retrata abusos contra mulheres […]

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

In the news
Leia Mais