Primeira a ser imunizada no Brasil faz apelo: “Acreditem na vacina”

Enfermeira de 54 anos, negra, obesa e diabética, recebe dose da Coronavac em São Paulo. João Dória acusa Bolsonaro de ‘golpe de morte’

Mônica Calazans, primeira a receber Coronavac no Brasil (Foto: Governo de SP)

Minutos após a aprovação oficial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) do uso emergencial da vacinas contra a Covid-19, o Governo de São Paulo realizou uma coletiva de imprensa neste domingo (17) em que realizou imediatamente a aplicação da primeira dose da Coronavac. A enfermeira Mônica Calazans, de 54 anos, que atua no Hospital Emílio Ribas (SP), foi a primeira brasileira a ser vacinada. Outras 111 pessoas foram vacinadas no Hospital das Clínicas de SP.

Moradora da Zona Leste de São Paulo, que se formou em Enfermagem tardiamente, Mônica é negra, diabética e obesa e atua voluntariamente na linha de frente no combate à pandemia. Trabalha na UTI do hospital de referência à Covid na capital paulista, que hoje possui 60 leitos e desde abril mantém mais de 90% de taxa de ocupação. Ela foi uma das voluntárias nos testes clínicos da CoronaVac no Brasil e recebeu um placebo no estudo.

Como mulher, brasileira, negra, peço que a população acredite na vacina (…) É isso que precisamos para voltar a ter uma vida normal. Quantas pessoas têm receio de chegar perto das outras? A gente está lidando com o invisível. Sou uma pessoa comum, há 10 meses, trabalhando incansavelmente trabalhando em dois hospitais. Não tenham medo. É a grande chance de salvar vidas. Aos que se foram, não temos o que dizer, só lamentar. Mas vamos nos vacinar”, apelou.

Em seguida, em canais oficiais do Governo, o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, também falou à imprensa, de forma irritada, sobre a primeira dose, realizada sem conhecimento da pasta, chamando-a de “golpe de marketing”. “Nenhuma dose pode ser retirada desse contrato”, enfatizou o ministro, após ameaçar judicializar a primeira dose da vacina, alegando que o Governo de São Paulo está politizando a vacina.

Desta vez abrindo a coletiva para perguntas dos jornalistas, Pazuello disse que começa a distribuir aos estados de forma igualitária, simultânea e proporcional já nesta segunda (18), a partir das 7h. “Qualquer movimento fora dessa linha está em desacordo com a lei”, disse o general, mandando um claro recado ao governador de São Paulo, João Dória, ameaçando judicializar o ato ocorrido neste domingo em São Paulo. Pazuello disse ainda que está confiante de que ainda esta semana recebe a remessa de 2 milhões de doses da vacina da Astrazeneca, a “preferida” do governo, importada da Índia pela Fiocruz.

Já o governador João Dória refutou as críticas de Pazuello, alegando que o governo é quem deu um “golpe de morte” ao agir com negacionismo desde o início da crise sanitária. Ele também saudou os cientistas do Instituto Butantan, verdadeiros responsáveis. Ele anunciou a entrega de 50 mil doses para Manaus nesta segunda (18), sem interferir nas 6 milhões de doses que serão direcionadas para o Programa Nacional de Imunização (PNI), como forma de solidariedade à capital amazonense, que sofre um colapso na rede pública de saúde com o aumento de casos de Covid-19 e a falta de oxigênio.

Dimas Covas, diretor do Butantan, informou que já nesta segunda-feira (18) entrará na Anvisa com novo pedido de uso emergencial para 4,2 milhões de doses da vacina já envasadas pelo instituto, e aguarda há 15 dias autorização para liberação de novos insumos para produzir mais 11 milhões de doses, o que deve ocorrer ainda esta semana. Covas também respondeu a Pazuello: “Ele foi preparado para matar, derrotar o inimigo. Nós, da saúde, somos preparados a vida inteira para salvar vidas ou até recuperar os estragos feitos pelos militares. Não há burocracia que resista ao nosso compromisso pela vida”.

Do ponto de vista legal, a Procuradoria do Estado de São Paulo entende que cumpriu as regras postas e a Constituição e, portanto, não caberá judicialização por parte da Anvisa por conta do ato de vacinação realizado neste domingo. A partir desta segunda, 1,35 milhão dos 6 milhões de doses contratados pelo Ministério da Saúde ficarão retidos em São Paulo para atender a população. Inicialmente, serão atendidos profissionais de saúde de hospitais públicos e a vacinação já começa nesta segunda.

Enfermeira foi alvo de piadas e memes de negacionistas; médico recebeu ameaças de morte

Ainda em sua fala, a enfermeira Mônica lembrou as vítimas da Covid-19 e disse que foi alvo de chacotas por participar dos testes clínicos em torno da Coronavc. “Quantas famílias, pais, mães, irmãos morreram? Eu mesmo quase perdi um irmão. Diante disso tomei coragem para participar da campanha. Eu recebia piadinhas, memes. Diziam que eu era cobaia de uma pesquisa de vacina. Não sou cobaia, sou participante de uma pesquisa clínica. E meu nome hoje está no mundo inteiro”, disse, lembrando que no dia do teste clínico ela foi a última a receber a dose.

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Mônica Calazans, de 54 anos, enfermeira negra, diabética e obesa, é primeira a ser vacinada no Brasil (Foto: Divulgação)

Ainda na coletiva, Sérgio Cimerman, médico infectologista do Hospital Emílio Ribas, disse que sofre ameaças de morte por parte de negacionistas. Outros médicos da Sociedade Brasileira de Infectologia também são alvos, segundo ele. Procurada por ViDA & Ação, a SBI confirma as denúncias, mas não se pronuncia a respeito já que o assunto vem sendo tratado no âmbito jurídico. Cimerman também lembrou a importância também de se manter as medidas de prevenção até que ocorra a chamada “imunização de rebanho”, com 70% da população vacinada.

Confira abaixo a entrevista coletiva de São Paulo na íntegra:

Primeira indígena a ser vacinada já sofreu com a doença

Vanuzia Costa Santos, 50, moradora da aldeia multiétnica Filhos Dessa Terra, na cidade de Guarulhos, é a primeira indígena do Brasil a se vacinar contra a COVID-19. Técnica em enfermagem e assistente social, Vanuzia também preside o Conselho do Povo Kaimbé, originário do Nordeste. Ela decidiu estudar, lutar por direitos e um dia retornar para cuidar dos moradores da aldeia de Massacará, na cidade baiana de Euclides da Cunha, onde nasceu.

Atualmente, a aldeia de Massacará tem cerca de 200 famílias, com representantes de pelo menos 180 delas residentes em São Paulo. Vanuzia veio para o estado em 1988 para trabalhar e se aprimorar na carreira profissional.

Fiquei muito feliz de participar deste momento. Sou defensora da vida, de outras vacinas, da prevenção e da saúde. Devemos valorizar a educação, a ciência, e isso pode ser conciliado mantendo uma crença, com as rezas e a medicina tradicional do meu povo”, afirmou Vanuzia.

Ela detalhou a atuação no engajamento de demais famílias indígenas sobre a importância da imunização. Vanuzia orienta as comunidades sobre a suscetibilidade aos vírus, relembrando sua experiência como técnica de enfermagem na Casa do Índio, onde trabalhou por dez anos.

Vanuzia concluiu a graduação em Assistência Social com bolsa integral pela PUC-SP no ano passado, com aulas à distância no último ano devido à pandemia. “O sinal era horrível na aldeia, corria com guarda-chuva para baixo de uma árvore. Fiz meu TCC inteiro pelo celular”, contou. Agora, pretende fazer residência em Saúde Mental para continuar a contribuir com seu povo e manter viva a herança dos ancestrais.

Ela também relatou o drama que viveu com a COVID-19 e os sintomas mais severos em maio passado. Solteira, com um filho de 24 anos, Vanuzia descreveu o sofrimento provocado pela doença: dores no corpo, tosse e severa falta de ar, além da ausência de olfato e paladar que persiste até hoje.

Não fui para o hospital porque ajudava a cuidar de outras seis pessoas, precisava ter força para dar uma palavra de conforto e cuidar deles sem me abater. Tinha um oxímetro [equipamento que mede a saturação de oxigênio na corrente sanguínea], mas não media minha respiração para não me apavorar. Fiz o teste em 15 de junho e já estava curada.”

Da Redação, com Agências e Assessorias

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