Quando o jornalista passa a ser a notícia – e ser humano

Declaração de Lílian Ribeiro sobre tratamento de câncer de mama desperta debate entre jornalistas sobre exposição das fragilidades humanas

Lilian Ribeiro, apresentadora da Globonews, apareceu de lenço e falou sobre câncer de mama nesta segunda, 8/11 (Reprodução de internet)

Numa semana triste para o Jornalismo brasileiro, com a morte da comentarista política Cristiana Lôbo, de 64 anos, vítima de mieloma múltiplo, um exemplo de resiliência veio de Lilian Ribeiro, apresentadora da Globonews, que revelou estar em tratamento do câncer de mama. A imagem da semana fica por conta do depoimento emocionado da jornalista de 37 anos diante das telas, que comoveu milhares de fãs e telespectadores e também trouxe reflexões sobre a humanização do papel do jornalista.

Afinal, quando as fragilidades de profissionais da imprensa ou da comunicação podem ou devem ser expostas publicamente, quis saber ViDA & Ação em grupos formados por esses profissionais no Whatsapp? No Grupo JornalistasRJ, criado e moderado pela editora-chefe de V&A, Rosayne Macedo, houve muitas reações, a maioria, enaltecendo a coragem e o exemplo manifestados por Lílian, como forma também de encorajamento a quem enfrenta um tratamento tão complexo.

“É uma decisão corajosa. Acredito que ajude muitas pessoas que passam por situações semelhantes”, considerou a jornalista Lucila Soares. Para Sheila Vasconcelos, que também é paciente e influencer em diabetes, a reação “ajuda a despertar a empatia no público”. Alexandre Medeiros também aprovou: “Eu achei a postura dela corajosa e exemplar”.

Cristina Miguez concorda com os colegas: “Certamente a atitude dela pode ajudar outras mulheres. E achei bacana a emissora apoiá-la, ainda que possa enxergar benefício mercadológico nisso. Mas, entre os seus pares, penso que o apoio foi importantíssimo”.

Humanização é boa para a profissão, avaliam jornalistas

Já o também jornalista Fabio Couto ponderou: “Eu, pessoalmente, não sou muito fã da ideia, mas é algo que humaniza, aproxima do público, de fato”. Para Claudia Silva, de fato, a decisão deve caber a cada um:

“Acho que cada um tem seu direito de escolher, mas acredito que expor a situação é ajudar a espantar preconceitos, é fortalecer a vida de milhares de pessoas fragilizadas, que se envergonham quando perdem o cabelo quando estão com câncer, por exemplo. Acho que faz parte de nossa função é informar e mostrar a realidade”, aponta a jornalista.

Ana Cláudia Costa lembrou que, no caso de jornalistas de TV, que têm sua imagem exposta, revelar um tratamento como esse é necessário também para evitar especulações. “No caso dela como apresentadora ia ter que acabar falando mesmo ou esperar a especulação dos outros pelo sumiço ou apresentando o jornal de lenço ou peruca”, destaca. Para Ana Claudia, a humanização é boa. “Não somos seres de pedra, nós jornalistas somos humanos sim e sofremos de tudo e qualquer mal”.

A jornalista discorda, no entanto, da celebrização de jornalistas a partir de aspectos da sua vida privada, como relacionamentos amorosos. “O que eu não acho legal é tornar o jornalista estrela com paparazzi seguindo e fotografando a vida pessoal como fazem com o relacionamento da Fatima Bernardes. Isso acho demais, mas no caso dela (Lilian Ribeiro) é uma doença. Por que não?”, disse a jornalista, ao lembrar da corrente de solidariedade e orações que fizeram para a Suzana Naspolini, repórter do RJTV, da Globo, que passou por tratamento de câncer.

Muitas pacientes ‘se fecham’ após o diagnóstico

Daniele Maia Teles também acha “muito bom quem consegue passar por isso e falar, expor o problema, dividir e compartilhar as dores”. “Sendo jornalista/apresentadora, também ajuda e muito outras mulheres que estão passando pela doença. Acho q encoraja e fortalece toda uma rede”, afirma.

Segundo Daniela, sua irmã, a médica gastroenterologista Luciana Maia, de 46 anos, quando descobriu a doença, em 2017, se fechou, também. E foi muito ruim. “Quando conseguiu mostrar ao mundo o que estava passando, tudo foi mais ‘leve’. E olha que ela é médica… Mesmo assim, teve pudor, medo. Não queria falar pras pessoas. Felizmente ela superou”, recorda-se a jornalista.

“Muitas reagem assim. Achei admirável o posicionamento dela”, completou Cristina Miguez. “Todo câncer é brabo de lidar, claro, mas o câncer de mama acho q mexe ainda mais com a mulher. A perda da mama e dos cabelos….cara, é brabo. Enfim, achei muito linda e corajosa a atitude da Lilian Ribeiro”, acrescentou Daniela.

‘Descobri por sorte um câncer silencioso no intestino’

Geórgia Cristhine: “Não estou mais com câncer. Só continuo a manutenção. Sou abençoada. Tem uma galera lá em cima que gosta de mim” (Acervo pessoal)

No grupo Mulheres da Comunicação, a jornalista Geórgia Cristhine, de 48 anos, também ressaltou a coragem da apresentadora, que ajuda na humanização do jornalista. “Muita gente acha que a vida do jornalista é só glamour e isso mostra o quanto às vezes temos que fazer o show continuar apesar de tantas coisas. Sem falar na questão do alerta para a doença em si, que pode servir de alerta para ajudar tantas outras pessoas”, disse.

Geórgia inspirou-se no exemplo dela para contar que também enfrenta um processo de tratamento contra um câncer silencioso no intestino, após quase dois anos sem conseguir fechar um diagnóstico do seu caso. “Descobri por sorte, tentando achar o motivo de uma anemia. Graças a Deus consegui fazer a cirurgia a tempo de o câncer não atingir outros órgãos e não precisei fazer quimioterapia. Mas preciso fazer ainda exames de manutenção por cinco anos e é esse momento que estou vivendo agora”, conta.

Geórgia conta que passou por tudo isso no meio do auge da pandemia, sem plano de saúde. “Por um milagre eu consegui uma vaga para me tratar pelo SUS e só tenho que agradecer a Deus e a força de familiares, amigos e a minha fé e decisão de só olhar pra frente buscando minha cura”, ressalta. “Sou abençoada. Tem uma galera lá em cima que gosta de mim”.

Ao ViDA & Ação, Georgia conta que o tumor já ocupava 95% de um trecho do intestino onde estava localizado e ela não tinha claramente os sintomas da doença. “Mas no fim deu tudo certo e agora estou aguardando pra fazer exames pelo SUS após um ano de cirurgia”, comenta. Georgia está se tratando no Hospital Federal de Bonsucesso, no Rio de Janeiro.

“Estou sendo muito bem tratada lá. Tem ótimos médicos. Só tive sorte. Na verdade eu fiz duas cirurgias em quatro meses. Primeiro tirei esse tumor do intestino e descobri que estava com outro na axila esquerda, mas esse era apenas uma reação do meu corpo, não era câncer”, conta ao ViDA & Ação.

Ainda sobre Lilian Ribeiro, a jornalista ainda acrescentou: “Não é fácil fazer o que ela fez, mas acho super positivo, eu faria o mesmo e a enxurrada de amor que ela está recebendo só vai ajudar que ela vença também essa doença. Infelizmente perdemos hoje (dia 11/11) a Cristiana Lôbo😔, que foi uma guerreira, muita luz para ela nessa passagem”.

‘Mulheres da Comunicação’ aprovam humanização

Líder do grupo Mulheres da Comunicação, a jornalista Luiza Xavier pondera que alguns fatores devem ser avaliados.Por um lado, é a “humanização” do jornalista. Importante para mostrar que não há “glamour” só pelo fato dela estar na TV. Permite que que pessoas “de casa” se identifiquem e, talvez, passem até a dar mais credibilidade ao que ouvirem daquele profissional, daquela emissora”, enaltece.

No entanto, pontua Luiza, é preciso cuidado para “não tornar a situação piegas”. “É uma linha muito tênue. É claro que depende também da pessoa envolvida. A Lilian foi muito corajosa, transmitiu naturalidade”, disse a jornalista.

No mesmo grupo, Josianne Ritz aprovou a ideia de ter uma jornalista como ‘personagem’ real no caso de uma doença que necessita de conscientização para a prevenção. “Acho positivo para não só demonstrar que o jornalista é um ser ‘normal’ como todos, como também ajuda na conscientização. Toda vez que se noticia sobre isso, a conscientização sobre a doença aumenta. Então acho que se torna um serviço”, avalia.

Para Josianne, “o jornalismo precisa se transformar, tudo precisa ser repensado para diminuir a distância entre a informação e a população”. “Na minha opinião, a única coisa que não pode mudar é a apuração, a verdade. Todo o resto precisa ser modificado, desde a linguagem aos canais de distribuição da notícia”.

Para Daniela Walendorff, a pandemia também veio para humanizar mais a profissão. “O Jornalismo está passando por um novo momento. Vimos muitos jornalistas se emocionarem durante a cobertura da covid. E acredito que será cada vez mais comum ver e ouvir casos de jornalistas se abrindo e expondo suas vulnerabilidades. O público se conecta mais. O desafio é saber se a emissora vai aceitar bem essa mudança”, disse.

Sororidade também no ‘Clube da Comunicação’

No grupo Clube da Comunicação, comandado pela jornalista Terezinha Santos, também houve uma chuva de aprovações. Ana Condeixa considera que o relato de Lilian Ribeiro “humaniza a profissão, principalmente os que estão na TV diariamente”. “Eu vi o relato dela e achei lindo”, disse.

Iara Cruz concorda: “Ela é um ser humano, não um robô. É lamentável estar portadora dessa doença. Linda declaração. Estamos torcendo para que se livre logo do câncer e continue linda com ou sem lenço”. Marlene Custódio considerou “corajosa e emocionante a declaração de Lilian Ribeiro”. “Acho a postura corretíssima. Triste pela Cristina Lobo”, lembrou.

No grupo ‘ABI – Casa do Jornalista”, formado em sua maioria por jornalistas veteranos, sócios da centenária Associação Brasileira de Imprensa, o associado Luiz Carlos Taveira também se manifestou:

“Embora a profissão predomine no âmbito privado, o jornalista está em função de contato com o público, a quem deve informar os fatos e apresentar opinião para a formação da opinião pública. Portanto, não vejo razão para não mostrarmos nossas fragilidades, uma vez que somos humanos como todos os telespectadores, leitores e ouvintes”, disse Luiz Carlos Taveira.

 

 

 

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