Sete em cada dez jovens sofrem com ansiedade, tédio ou impaciência

Quase 30% dos 33 mil adolescentes e jovens de 15 a 29 anos entrevistados pensam em deixar a escola e, entre os que planejam fazer o Enem, 49% já pensaram em desistir

Redação

Os reflexos da pandemia mundial do novo coronavírus podem ser devastadores para os planos e sonhos da geração do futuro. Sete em cada 10 jovens brasileiros afirmam que seu estado emocional piorou por causa da pandemia, enquanto os sentimentos mais marcantes para eles durante o isolamento social são ansiedade, tédio e impaciência.

O que mais atrapalha não é a infraestrutura tecnológica para acessar conteúdos e aulas ou a falta de tempo, mas o próprio equilíbrio emocional e a capacidade de organização para estudar.  Para lidar com essas dificuldades, eles pedem apoio das escolas e faculdades: 6 em cada 10 adolescentes e jovens brasileiros consideram que suas instituições de ensino devem priorizar atividades para lidar com as emoções; e 5 em cada 10 querem aprender estratégias para gestão de tempo e organização.

Saúde em risco, isolamento social, escolas e universidades fechadas, alteração de práticas no trabalho ou suspensão de contratos são apontados na pesquisa  sobre como as consequências da pandemia de Covid-19 impactam rotinas e sentimentos dos jovens. O levantamento “Juventudes e a Pandemia do Coronavírus” ouviu, entre 15 e 31 de maio, 33.688 jovens de 15 a 29 anos de todo o Brasil por meio de um questionário disponibilizado pela internet.

A pesquisa questionou jovens em relação a quatro temas – economia; saúde e bem-estar; educação; e perspectivas para o futuro – e em todos eles a instabilidade está presente de alguma forma. A iniciativa é do Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), em parceria com Em Movimento, Fundação Roberto Marinho, Mapa Educação, Porvir, Rede Conhecimento Social, Unesco e Visão Mundial.

Metade dos jovens teve a renda familiar reduzida

Outro fator que provoca instabilidade são as mudanças no trabalho e renda dos jovens e suas famílias: 6 em cada 10 tiveram alteração em sua carga de trabalho desde o início da pandemia (mais ou menos trabalho, parada temporária das atividades ou ainda interrupção por demissão). A renda também foi afetada: 4 em cada 10 indicam ter diminuído ou perdido sua renda e 5 em cada 10 mencionam que suas famílias tiveram essa redução. Diante dessa realidade, 33% dos participantes relatam ter buscado alguma maneira para complementar sua renda.

O futuro desta, que é a maior geração de jovens da história do país, está seriamente em risco, o que pode impactar drasticamente os rumos da sociedade nas próximas décadas. A pesquisa foi criada para contribuir concretamente com este desafio. Mobilizamos um conjunto expressivo de jovens em todo o país, consolidando uma base relevante de evidências capaz de apoiar e influenciar a ação de tomadores de decisão, das esferas pública e privada, para a construção de caminhos e perspectivas”, afirma Marcus Barão, vice-presidente do Conselho Nacional da Juventude e coordenador da pesquisa.

72% acham que a pandemia vai piorar a economia

Embora 34% dos jovens ouvidos estejam pessimistas em relação ao futuro e 72% acharem que a pandemia vai piorar a economia do Brasil, eles também têm algumas perspectivas positivas em relação à maneira como a sociedade vai se organizar a partir desta crise. Metade deles imaginam que o modo como trabalhamos vai melhorar um pouco ou muito e acreditam que novas oportunidades de trabalho podem surgir para quem mora afastado dos grandes centros urbanos, por conta do aumento do trabalho remoto. 48% também acreditam que surgirão novas formas de estudar mais dinâmicas e acessíveis que as atuais.

As ações em relação à ciência e saúde são valorizadas pelos participantes da pesquisa, com 96% dizendo que confiam na descoberta da vacina contra o coronavírus como uma ação importante para a retomada depois da pandemia. 44% dos jovens ainda acham que a sociedade vai reconhecer mais os educadores e 46% preveem que a ciência e pesquisa terão mais prestígio e investimentos. Por fim, 48% deles ainda acreditam que as relações humanas e a solidariedade receberão mais atenção.

Oito em cada 10 jovens têm aulas a distância

A maior parte dos jovens que responderam ao questionário está no Ensino Médio ou na faculdade. Entre os estudantes, 8 em cada 10 realizam algum tipo de atividade de ensino remoto. Mas estudar em casa é um desafio para eles. Em consequência, existe um risco grande de desconexão dos jovens com a educação: 28% dos que responderam ao questionário pensam em não voltar para a escola quando a pandemia acabar e entre os que planejam fazer o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), 49% já pensaram em desistir.

Os mais de 33.000 jovens que se engajaram para responder o questionário têm um perfil de conexão direta ou indireta com instituições que atuam no campo de juventudes; acessam equipamentos ou dispõem de modos de conexão para estar online; além de terem suficiente domínio de leitura para interagir com o questionário, terem tempo disponível e estímulo para contribuírem com a pesquisa. A dinâmica de coleta “bola de neve” e questionário online permite atingir rapidamente e com poucos recursos um grande volume de respostas, atraindo o perfil mais conectado e engajado.

Metodologia

A metodologia usada para realizar a pesquisa foi a PerguntAção, desenvolvida pela Rede Conhecimento Social, que envolve o público alvo em todas suas etapas. No final de abril, 18 jovens de diferentes realidades e origens foram mobilizados para colaborar. “Eles se reuniram virtualmente para ajudar a construir o questionário, apoiaram na divulgação da pesquisa para outros jovens e, posteriormente, realizaram outro encontro para analisar os resultados” diz Marisa Villi, diretora executiva da Rede Conhecimento Social.

A participação no levantamento se deu por adesão, em resposta ao convite enviado pelas organizações parceiras desta iniciativa e por outras instituições e redes que atuam com juventudes. Durante a coleta de dados, foi realizado um monitoramento diário que influenciou o trabalho de mobilização para as respostas, com o objetivo de garantir diversidade geográfica, de faixa etária, gênero e cor/raça entre os participantes. Posteriormente, também foi realizado um trabalho de ponderação dos dados para evitar distorções em relação ao grupo que participou da pesquisa e a distribuição de jovens brasileiros de 15 a 29 anos em todos os Estados Brasileiros, tendo como referência a Pnad Contínua 2019 (IBGE).

Os dados completos do levantamento foram apresentados nesta terça-feira, dia 23 de junho, em um evento virtual, reunindo Wilson Risolia (Fundação Roberto Marinho), Marlova Noleto (UNESCO), Tábata Amaral (Deputada federal), Felipe Rigoni (Deputado federal), Caio Henrique (Jovem participante da Oficina Perguntação / estudante na UFPE) e Thais Duarte (Jovem participante da Oficina Perguntação / Coletivo MJPOP Ousadia Juvenil de Mossoró – RN), mediados pela Ana Paula Brandão, da Fundação Roberto Marinho.

Mais informações e os dados finais sobre a pesquisa podem ser acessados pelo site www.juventudeseapandemia.com