Seu leite não é fraco: médicos esclarecem sobre amamentação

Amamentar nos primeiros seis meses de vida do bebê fortalece a sua imunidade. Na Semana Mundial do Aleitamento Materno, ViDA & Ação traz uma série de matérias sobre o tema

Rosayne Macedo
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Amamentei a Clarinha até os dois anos e muito além do vinculo afetivo que se cria nesta experiência indescritível, está a importância do leite materno para a saúde dela. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mais de 800 mil vidas seriam salvas anualmente se toda criança fosse amamentada desde o nascimento até os 2 anos.  Todo esse poder está na composição natural do leite materno, que tem a composição calórico proteica ideal e é rico em anticorpos – classificados como imunoglobulinas. São essas moléculas que auxiliam na prevenção de doenças no bebê. Por isso, a recomendação de amamentar bebês até os seis meses, de forma exclusiva, com leite materno, não deve ser ignorada.

Comemorada entre os dias 1 e 7 de agosto, a Semana Mundial do Aleitamento Materno reforça a importância da amamentação para o desenvolvimento saudável dos bebês, assim como para a diminuição da mortalidade entre recém-nascidos no mundo. Para colaborar com as ações de incentivo à amamentação, ViDA & Ação vai publicar esta semana uma série de matérias a respeito do tema, ouvindo especialistas. A primeira delas visa a derrubar o mito de que seu leite é fraco e, por isso, é necessário complementar – digo com a autoridade de quem também já pensou assim – inclusive incentivada por uma médica. Por sorte, insisti e consegui amamentá-la, mesmo com muito sofrimento nos primeiros dias, com dor e mamilos feridos nas primeiras mamadas.

“De um modo geral, não existe leite fraco, nem leite forte, cada mãe produz o leite ideal para o seu bebê, principalmente se a mãe estiver seguindo uma dieta adequada para esse período. Não é preciso complementar a alimentação do bebê com fórmula artificial por meio de mamadeira, a não ser que seu médico tenha orientado. A introdução precoce do bico artificial pode levar o bebê a recusar o peito, fazendo a produção de leite diminuir progressivamente”, afirma o ginecologista e obstetra Corintio Mariani Neto.

pediatra do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos, Miquelina Lucia Santarsiere Etchebehere também confirma: “Não existe leite materno fraco: todos são ricos em nutrientes e anticorpos que protegem o bebê”. Segundo ela, o aleitamento materno é capaz de prevenir doenças e suprir as necessidades nutritivas da criança. A transferência de anticorpos maternos ajuda a evitar processos alérgicos e doenças autoimunes que possam surgir no futuro. “Os anticorpos de algumas doenças que a mãe já teve e carrega com ela, inclusive adquiridos por vacinas, são passados por meio da amamentação. Esse processo é importante para a formação de uma imunidade forte ao bebê”, reforça.

Além da estruturação do sistema de defesa do organismo, o leite materno contém todas as demandas proteicas e energéticas que o bebê precisa. Neste contexto, a pediatra ressalta que não existe leite fraco, e que é sim possível apenas alimentar o bebê por meio da amamentação até os seis meses de idade. “Todos os leites possuem a mesma concentração de nutrientes. O importante é que a criança esvazie o peito a fim de conseguir todo aporte energético que a mamada possibilita, pois o leite apresenta concentrações de gordura diferentes durante o ato de amamentação”, complementa a especialista.

Os benefícios, porém, não se limitam ao bebê. A amamentação também é positiva para mãe. O mais importante no momento da amamentação é o vínculo materno, mas o ato também ajuda a mãe a perder peso, por ter um alto gasto calórico”, conclui a Dra Miquelina.

Menos de 40% dos bebês se alimentam de leite materno no Brasil

O ginecologista e obstetra Corintio Mariani Neto, presidente da Comissão Nacional de Aleitamento Materno da Febrasgo e diretor técnico do Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros, afirma que a amamentação é uma das formas mais eficazes de garantir a saúde e a sobrevivência de recém-nascidos. Porém,  no Brasil, somente 38,8% das crianças se alimentam exclusivamente do leite materno nos primeiros 5 meses de vida, taxa considerada abaixo do ideal pela OMS. Para o obstetra, ainda há muito a fazer para que se chegue cada vez mais perto do ideal. “Uma das medidas importantes para estimular o aleitamento é fornecer informação de qualidade às mães, já que o tema costuma trazer muitas dúvidas”, pontua.

Para isso, o especialista destaca algumas dicas importantes. Confira:

Alimentação é a fonte

Mantenha uma dieta balanceada, constituída por carnes magras, aves, ovos, peixes, frutos do mar, verduras, cereais e frutas. A hidratação também é importante: beba pelo menos dois litros de água por dia. Evite excesso de leite de vaca, amendoim, frutas secas, soja, café, chocolate, refrigerantes, chá preto, mate, feijão, repolho e batata doce, para prevenir alergias ou mesmo gases e cólicas intestinais na criança.

Não interrompa a mamada

Quando a criança começa a sugar, ela recebe o leite inicial da mamada, que é mais “diluído” e serve para hidratar a criança. Depois de certo tempo, que é variável de bebê para bebê, começa a chegar o leite do final da mamada, que é rico em gorduras e, por isso, sacia a fome do bebê. Assim, é importante que não se interrompa a mamada para trocar de peito e que a criança mame do mesmo lado até saciar sua fome.

Pega e posição

A mãe deverá estar relaxada e confortável, o abdome do bebê encostado ao seu, com a cabeça e o tronco alinhados e o queixo tocando o peito materno. A boca do bebê deve estar bem aberta (cobrindo quase toda a parte inferior da aréola), o lábio inferior voltado para fora e sua língua acoplada ao peito. A sucção será lenta e profunda, intercalada por pequenas pausas de deglutição. O pequeno deve sugar a aréola, não o mamilo.

Mamilo machucado, e agora?

É preciso estar atenta à posição do bebê, pois a pega incorreta pode ser o motivo de os mamilos estarem machucando. Corrija a posição e fique tranquila, pois a cura das lesões costuma ser rápida. Lembre-se que o seu próprio leite é um ótimo cicatrizante. Também considere a utilização de produtos que ajudem na cicatrização das lesões, mas somente com a indicação do seu médico.

Amamente a livre demanda

Não se apegue a intervalos fixos, isso costuma ser bem variado, dependendo da necessidade e da frequência que seu bebê gosta de mamar. Respeite as vontades do pequeno, pois ele não procura o seio apenas para matar a fome, mas também quando tem sede ou precisa de conforto, aconchego e segurança. Portanto, não hesite em colocá-lo para mamar.

Contracepção e amamentação

Algumas mulheres podem ovular mesmo amamentando. Para prevenir, é necessário que a amamentação seja exclusiva, com mamadas frequentes, nas 24 horas do dia. Para aumentar a segurança, é recomendado que a mãe adote um método contraceptivo a partir da sexta semana após o parto. Um exemplo são as pílulas que contêm só progestagênio, ideais para esse período. Como são livres de estrogênio, não inibem a produção de leite e não interferem em sua qualidade e volume. Converse com seu médico sobre a possibilidade, pois ele poderá recomendar o método mais adequado.

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