Soluços crônicos e prolongados podem indicar doenças graves

Pessoas ansiosas, que comem rápido, não mastigam bem ou têm doenças gastrintestinais podem sofrer com problema. Mas há causas mais sérias

Mário Cândido de Oliveira Gomes (in memorian)*
 
É raro encontrar alguém que não teve uma crise de soluço durante a vida. Aliás, muitas pessoas apresentam crises periódicas, quase mensais, tornando a vida um inferno. Mas o que vem a ser o tal do soluço? É a contração involuntária e repetida de um músculo chamado diafragma, que separa o tórax da barriga. O diafragma é de fundamental importância na respiração, sendo inervado pelo frênico, que sai da medula na altura da coluna cervical. O ruído característico do soluço decorre do fechamento súbito da glote, com vibração das cordas vocais. O soluço ocorre por irritação direta do músculo ou de seu nervo, existindo uma infinidade de causas.
 
A crise aguda é leve, passageira e regride espontaneamente, mas sua origem é difícil de precisar. Entre as causas agudas é lembrada a ingestão excessiva de bebidas alcoólicas, bebidas quentes ou irritativas (café, chá etc), alimentação exagerada ou agressiva (condimentos em geral), aerofagia (ingestão inconsciente de ar), enfim, tudo que pode provocar irritação do esôfago, estômago ou nervo frênico.

As pessoas ansiosas (neuroses em geral), com maus hábitos alimentares (comer rápido, não mastigar bem etc), portadores de doenças gastrintestinais etc, geralmente engolem ar de forma exagerada, causando a síndrome da bolha gástrica, com dor intensa e soluço. Aliás, de 20% a 60% do gás encontrado no tubo digestivo provêm do ar deglutido, que na forma exagerada caracteriza a aerofagia.

Com a finalidade de aliviar a sensação de distensão, o indivíduo provoca o arroto, que piora ainda mais a situação, pois na eructação a pessoa engole mais ar, entrando num círculo vicioso. O mesmo acontece com os lactentes, que engolem ar durante as mamadas e precisam ficar na posição vertical para facilitar o arroto e expulsar o excesso de ar deglutido. Se a mãe não executa esta manobra e coloca o bebê deitado no berço, o soluço persiste, causando o vômito ou a regurgitação.
 
Já os soluços crônicos e prolongados são indicadores de enfermidades graves, como as neurites do frênico (herpes zoster, difteria, hanseníase, sífilis etc), doenças pulmonares (pneumonias, neoplasias, abscessos, água na pleura etc), problemas do esôfago (megas ou dilatações, tumores, divertículos etc), do estômago (câncer, úlceras, gastrites etc), do intestino (neoplasias, ulcerações etc), do fígado (cirrose, hepatites, tumores etc), do pâncreas (pancreatites, tumores etc) e até do aparelho urinário (pedras, tumores etc) e do cérebro (cânceres). Os pacientes terminais com distúrbios metabólicos importantes (uremia, amoniemia etc) ou com problemas respiratórios (acidose, alcalose etc) também apresentam soluços intermináveis e de tratamento problemático.
 
Sem explicação pela Medicina, a verdade é que o soluço aparece mais no sexo masculino, regride de maneira espontânea e não causa qualquer tipo de prejuízo para o organismo. Entre as soluções caseiras para os soluços esporádicos citam-se a interrupção da respiração por alguns segundos e a respiração dentro de um saco de papel (nunca de plástico), com a finalidade de acumular gás carbônico no sangue e inibir a contração do diafragma. Também, beber água gelada rapidamente, engolir pão seco ou gelo triturado. É importante mencionar que o susto não exerce qualquer efeito na mecânica do soluço. E, se for criança, ainda acarreta angústia e medo, sem resolver o problema.
 
O tratamento do soluço crônico requer a descoberta da causa ou a doença primária. Deve-se tentar medicamentos, como a clorpromazina e até o bloqueio anestésico dos nervos que controlam o diafragma, provocando sua paralisação. Porém, na prevenção do soluço é de fundamental importância a descoberta da origem do problema, isto é, o que está causando a irritação do músculo diafragma, que pode ser feita com exames de laboratório sob orientação profissional.
 
* Mário Cândido de Oliveira Gomes, médico infectologista, morreu aos 77 anos em junho de 2013. Escreveu esse artigo em seu livro ‘Doenças, conhecer para prevenir’ (volume 2 – Ottoni Editora – págs. 443 e 444).

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