Tem vacina para quase tudo… menos para ignorância

Apesar da incontestável importância das imunizações, movimento antivacinismo cresce no Brasil, alavancado por fake news, e preocupa especialistas

Redação
Vacinação contra a gripe no Rio No município do Rio. são mais de 230 unidades de saúde fazendo a vacinação (Foto: Divulgação SMS)

As vacinas representam um dos mecanismos mais eficazes na defesa do organismo humano contra vírus e bactérias que provocam vários tipos de doenças graves. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a vacinação em massa evita entre 2 a 3 milhões de mortes por ano e é responsável pela erradicação de várias doenças. No Brasil, graças à cobertura vacinal, a varíola foi eliminada no país em 1973; a poliomielite, em 1989; e a transmissão de sarampo dentro do mesmo território, em 2001.

Apesar disso cada vez mais o movimento antivacina vem ganhando força entre a população, impulsionado pela onda de fake news em torno da eficácia e risco de várias vacinas, afastando a população dos postos de vacinação. Por conta disso, campanhas como a da vacinação contra a gripe tiveram que ser prorrogadas este ano por conta da baixa procura nos postos – até dia 15 de junho, os grupos alvo podem se vacinar contra os vírus que estão circulando no país nesta temporada.

Este Dia Nacional da Imunização (9 de junho) serve de alerta para sensibilizar e lembrar a população sobre a importância de pessoas de todas as faixas etárias manterem sua vacinação em dia.  Segundo especialistas, é muito importante acompanhar o calendário das campanhas de imunização e manter a caderneta de vacinação sempre atualizada, como a vacina da gripe, que precisa ser tomada anualmente.

A vacina é a forma mais efetiva de prevenção de doenças infecciosas. Manter o calendário atualizado é garantia de proteção individual e coletiva. Por meio das vacinas a humanidade conseguiu frear grandes epidemias que no passado dizimou civilizações. Vacinar é sinônimo de proteção”, pontua a médica infectologista da Aliança Instituto de Oncologia, Joana D’arc Gonçalves.

Febre amarela voltou com toda força

Com maior adesão nos Estados Unidos e alguns países da Europa, o movimento antivacinismo é considerado um retrocesso pelos especialistas. Uma das preocupações é a possibilidade do retorno de algumas doenças infecciosas que estão sob controle há anos. Aliado a outros fatores, podem ocorrer surtos de doenças como o sarampo, caxumba e varicela.

A febre amarela é um exemplo recente de doença infecciosa que voltou com toda a força. É considerada uma doença muito grave, com grande chance de óbito. Agora, os holofotes se voltam para a vacina contra a gripe, doença mundial, que ocorre nas estações do outono e inverno e pode levar a complicações pulmonares, como pneumonia e até óbito, principalmente em crianças e idosos.

Ana Escobar, pediatra e consultora do programa Bem-Estar, da TV Globo, afirma que a vacinação é um dos principais métodos de prevenção e qualquer desconforto causado por uma vacina é muito menor do que o risco de se contrair uma doença. Segundo ela, pessoas, em qualquer faixa etária, podem ficar doentes, mas as crianças nos primeiros anos de vida são muito mais suscetíveis, por isso é importante vaciná-los, para que criem anticorpos.

Não se vacinar e impedir a imunização de crianças e adolescentes pode causar aumento da morbidade e da mortalidade, e enormes problemas para a saúde pública, como o surgimento de doenças graves ou o retorno de agravos de forma epidêmica, como a poliomielite, o sarampo, a rubéola, entre outros”, alerta Ana Escobar.

Vacinas reduzem incidência de doenças e mortalidade

O Departamento Científico de Imunizações da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) alerta para a importância da prevenção por meio das vacinas, que contribuíram para modificar a história natural da Humanidade. “As vacinas trouxeram impactos diretos na redução da mortalidade, principalmente nos casos de doenças infecciosas, como sarampo, varicela e coqueluche, o que foi muito importante”, esclarece Ana Karolina Barreto, Coordenadora do Departamento Científico de Imunizações da Asbai.

Quando altas coberturas vacinais são atingidas, os efeitos benéficos da vacinação não estão limitados às pessoas que foram vacinadas. A vacinação em massa permite, na maioria das vezes, não somente proteção individual, mas também a proteção de toda a população, reduzindo a incidência de doenças e impedindo a contaminação de pessoas suscetíveis.

O Brasil tem um dos melhores programas de imunização do mundo. Graças à vacinação em massa de nossas crianças, conseguimos erradicar doenças graves como a paralisia infantil, que no passado matou ou deixou sequelas em muitos brasileirinhos. Mas não são só as crianças que devem ser vacinadas. Para adultos e idosos também há vacinas de grande importância, como as que previnem contra a febre amarela, o tétano, a hepatite B, a grip”, diz o secretário municipal de Saúde do Rio, Marco Antonio de Mattos.

Importante para adquirir imunidade, mas há contraindicações

A médica infectologista Joana D’arc Gonçalves explica que a vacina ajuda a adquirir anticorpos contra várias doenças, como as hepatites A e B, o sarampo, a rubéola e entre outras. Ela afirma que há duas formas do nosso organismo adquirir imunidade contra os microrganismos. “Pegando a doença e sofrendo todas as consequências da enfermidade, podendo gerar sequelas ou ate a morte, ou se vacinando e criando anticorpos com segurança”, diz.

Joana complementa que quando a pessoa adoece o organismo dela pode evoluir de diferentes maneiras, podendo apresentar sintomas, melhorar rápido, piorar ou até morrer, antes de adquirir imunidade.

“A vacina nos ajuda a adquirir anticorpos, contra algumas doenças sem ficarmos doentes. É uma forma de fazer com que nosso organismo conheça alguns vírus e bactérias sem precisar adoecer e correr riscos elevados”, destaca. De acordo com Joana, as vacinas podem prevenir diversas doenças, como a difteria, o tétano, a coqueluche, a poliomelite, o sarampo, as hepatites A e B, arubéola, a caxumba, o rotavírus, o HPV, a dengue e tantas outras.

Segundo a infectologista é preciso atenção. “Algumas vacinas são de bactérias ou vírus vivos atenuados, e ,em pessoas imunossuprimidas ou com doenças graves como câncer e lupos, a doença pode se desenvolver. Outros indivíduos, podem ainda, apresentar quadros alérgicos aos adjuvantes da vacina”.

Vacinas x alergia

Algumas vacinas possuem componentes que são comuns no desencadeamento de alergias, como ovo e leite. Porém, a especialista da Asbai explica que os benefícios da vacinação superam chances de reações graves.

Já existem protocolos para uma vacinação segura. Se houver a indicação de vacinação para um paciente alérgico é possível fazê-la por meio de fracionamento ou escalonamento de doses. O paciente deve ficar sob supervisão em serviço de saúde por uma hora após receber a vacina. É importante reforçar a necessidade da avaliação médica prévia para saber se – realmente – esse paciente pode ou não receber a vacina”, explica Dra. Ana Karolina.

Ela explica que as vacinas são seguras na maioria dos pacientes e eficazes em prevenir doenças infecciosas em todas as faixas etárias, da infância ao idoso. Pessoas com dúvidas ou que estejam em alguma condição especial, como imunossupressão – tratamento que diminui a imunidade – ou que sabem ser alérgicas a algum componente da vacina podem procurar o auxílio de um médico para serem vacinadas com segurança. “Na dúvida, sempre busque informação em um serviço de saúde, em especial com o médico. O importante é não deixar de se vacinar. É preciso orientar a população do benefício da vacinação, que supera os riscos de reações adversas”, alerta a especialista.

Vacinas no município do Rio

No Rio, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) conta com o Programa de Imunizações Municipal, que promove ações regulares de vacinação de rotina e obrigatórias por meio de estratégias especiais, como campanhas, bloqueios vacinais, além de notificação e investigação de eventos associados à vacinação. “Temos 232 unidades de Atenção Primária que ofertam as vacinas em toda a cidade, e isso facilita o acesso da população à imunização e garante uma boa cobertura vacinal dos cariocas”, afirma o secretário de Saúde.
O Programa de Imunizações também é responsável pela distribuição de material informativo, emissão de Certificado Internacional de Vacinação e Profilaxia para Febre Amarela (CIVP) e a dispensação de soro e imunoglobulinas na rede hospitalar municipal. O serviço municipal segue as diretrizes preconizadas pelo Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde (PNI/MS), que estabelece o calendário de vacinação em todo país. Para saber mais sobre os calendários de vacinação, acesse: http://bit.ly/2Jqmiq4.
A SMS promove, todos os anos, campanhas de vacinação, seguindo as orientações de público-alvo e calendário estabelecidos pelo Ministério da Saúde (MS). Em 2017, foram aplicadas 6.499.806 doses de vacinas, sendo 4.543.666 de rotina (disponíveis durante todo o ano nas unidades de saúde) e 1.956.140 de campanhas vacinais (oferecidas durante período determinado pelo MS). Comparando com o ano de 2016, quando foram aplicadas 4.714.151 doses de imunizantes, com 2.806.903 na rotina e 1.907.248 nas campanhas, 2017 registrou um aumento de mais de 1,7 milhão de doses aplicadas.
A vacinação de rotina está disponível nas unidades de Atenção Primária (clínicas da família e centros municipais de saúde), de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. É importante levar à unidade de saúde a caderneta de vacinação ou comprovantes das vacinas já tomadas, para que o profissional da sala de imunização possa avaliar quais estão com o esquema incompleto, para a atualização. Para saber a unidade mais próxima de sua casa ou escola, basta verificar pela internet, no serviço “Onde ser atendido” (https://smsrio.org/subpav/ondeseratendido/), ou pela Central de Atendimento da Prefeitura, no telefone 1746.

Calendário público x privado

O Ministério da Saúde disponibiliza no Sistema Único de Saúde (SUS), por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI), todas as vacinas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no Calendário Nacional. Atualmente, são disponibilizadas pela rede pública de saúde, de todo o país, cerca de 300 milhões de doses de imunobiológicos ao ano, para combater mais de 19 doenças, em diversas faixas etárias. Destaque para:

  • BCG (para prevenção da tuberculose em crianças);

HPV (vírus do papiloma humano);

  • Pneumocócica (contra a infecção por pneumococo que causa meningite, pneumonia e infecção de ouvido – otite);

Febre AmarelaVIP/VOP (vacina inativada e vacina oral contra poliomielite – paralisia infantil);

  • Hepatite BPenta (vacina contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e infecção por Haemophilus influenzae);

RotavírusHepatite A;

  • Tetra viral (sarampo, caxumba, rubéola e varicela – catapora);

Tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola);

  • Dupla adulto (difteria e tétano);

dTpa (difteria, tétano e pertussis – coqueluche), e

  • Meningite C (conjugada).

Além das vacinas disponíveis na rede pública, existem as vacinas da rede privada e, entre essas duas redes, há algumas diferenças. O sistema público de saúde tem como objetivo a proteção coletiva e erradicação de doenças e para isso, necessita de altas coberturas vacinais. Já o calendário privado foca na proteção individual, ou seja, que o indivíduo faça o esquema vacinal necessário para obter a proteção máxima contra as doenças.

Portanto os calendários da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) são diferentes do Calendário do Programa Nacional de Imunizações (PNI), pois possuem esquemas vacinais com doses adicionais e contemplam vacinas não disponíveis na rede pública.

Veja as principais diferenças

– Meningite (meningococo): O PNI só disponibiliza a vacina contra o meningococo C, sendo que existem outros sorogrupos que também são responsáveis por causar doença meningocócica invasiva. Tendo isto em vista, os calendários da SBIm e da SBP recomendam 2 ou 3 doses da vacina meningocócica conjugada ACWY dos 3 aos 7 meses e mais dois reforços da vacina ACWY durante os 12-15 meses e 4-6 anos. O calendário do PNI não contempla a vacina para o meningococo B, porém a SBIm e a SBP recomendam três doses no primeiro ano de vida, mais um reforço aos 12 meses, ou duas doses a partir de um ano de idade.

– Gripe (Influenza): SBP e SBIm preconizam duas doses para influenza a partir dos 6 meses de idade até os 8 anos, para a primeira vacinação contra gripe. Após isso, uma dose anual é aconselhada para todas as idades. No PNI, a vacina só está disponível para grupos de maior risco de complicações: indivíduos com 60 anos ou mais de idade, crianças na faixa etária de 6 meses a menores de 5 anos de idade (4 anos, 11 meses e 29 dias), gestantes, trabalhadores da saúde, povos indígenas, grupos portadores de doenças crônicas não transmissíveis e outras condições clínicas especiais, adolescentes e jovens de 12 a 21 anos de idade sob medidas socioeducativas, população privada de liberdade, os funcionários do sistema prisional e professores das escolas públicas e privadas. Além disso, na rede privada, está disponível a vacina contra gripe causada por 4 tipos de vírus (tetravalente). Já o PNI, oferece a vacina contra a gripe causada por 3 tipos de vírus (trivalente)

– Hepatite A: o PNI disponibiliza apenas uma dose,7 e a SBP e SBIm recomendam duas doses (aos 12 e 18 meses). 

– Varicela/Catapora: o PNI disponibiliza 2 doses, a 1ª utilizando a vacina tetra viral (sarampo, caxumba, rubéola e varicela) e a segunda aos 4 anos utilizando a vacina monovalente. Os calendários da SBIm e da SBP recomendam duas doses da vacina (12 e 15 meses para SBP, 12 e 15-24 meses para SBIm).

– dTpa (difteria, tétano e pertussis – coqueluche) – No PNI, está disponível somente para gestantes, enquanto que a SBP recomenda reforço aos 4 anos de idade e a SBIm, reforço dos 4 aos 5 anos, dos 9 aos 10 anos, e a cada 10 anos após a última dose, caso tenha sido feito o esquema básico completo.

– Pneumocócica conjugada – No PNI são duas doses, aos 2 e 4 meses, e um reforço aos 12 meses, que é o esquema 2+1. Já a SBP recomenda o esquema 3+1, três doses, aos 2, 4 e 6 meses, e um reforço aos 12 meses. No calendário da SBIm o esquema é 3+1 com o reforço dos 12 aos 15 meses.

– Pentavalente – No PNI existe a vacina pentavalente que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e Haemophilus influenzae do tipo b. No sistema privado existe a vacina hexavalente que protege contra difteria, tétano, coqueluche, poliomielite 1, 2 e 3, Haemophilus influenzae do tipo B e hepatite B.

Da Redação, com Assessorias

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