Um curto circuito no cérebro: epilepsia não é doença mental

Doença neurológica que afeta 50 milhões de pessoas no mundo é pouco compreendida e ainda cercada de preconceitos. Confira informações de especialistas

Redação

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a epilepsia atinge mais de 50 milhões de pessoas no mundo – só na América Latina são quase 8 milhões de pessoas – e que 3,5 milhões não recebem ou não fazem o tratamento adequado. A falta de informações e estigmas associados à doença impactam na qualidade de vida dos pacientes que, muitas vezes, não procuram ajuda, encontram dificuldades para se inserir na sociedade ou até mesmo conseguir um emprego.

Afirmações como “epilepsia é uma doença contagiosa”, “pessoa com epilepsia não deve praticar atividade física, muito menos dirigir”, “pacientes com epilepsia têm dificuldade mental” são grandes mitos que precisam ser desconstruídos. Além disso, muita gente não sabe o que fazer quando se depara com uma pessoa tendo uma crise e por isso não consegue ajudar.

Para mudar essa perspectiva, datas como o Dia Nacional e Latino-Americano de Conscientização sobre a Epilepsia, comemorado no dia 9 de setembro, são importantes formas de chamar atenção para o tema e alertar a respeito de especificidades da doença. Tendo o conhecimento como ferramenta de combate ao preconceito, a Associação Brasileira de Epilepsia aproveita a data para apresentar mitos, verdades e explica aspectos que ainda geram confusão.

Para Maria Alice Susemihl, presidente da ABE, a informação é o melhor caminho para a mudança, portanto, é essencial levá-la ao público para que a doença seja encarada de uma maneira diferente.

O preconceito surge, principalmente, por conta da falta de informação e esse é um dos maiores problemas que temos hoje, o que torna tão importante a conscientização social sobre a doença. Saber o que é de fato a epilepsia e como ajudar alguém durante uma crise é algo básico para a vida dos seres humanos”, diz.

Nem toda convulsão é epilepsia

A epilepsia é caracterizada por descargas elétricas anormais e excessivas no cérebro que são recorrentes e geram as crises epiléticas. “É como se alguma área do cérebro tivesse um curto circuito, um desarranjo na parte elétrica”, explica a neurologista Irina Raicher, gerente médica da Zodiac.

Um dos sintomas mais conhecidos, e que costuma assustar quando presenciado, é a convulsão, marcada por movimentos rítmicos involuntários de membros, braços e pernas, mordedura da língua e salivação intensa. Mas a neurologista alerta:

Não necessariamente uma pessoa que tem uma convulsão é epiléptica. Para o diagnóstico, é preciso ter pelo menos duas crises epilépticas não provocadas em um intervalo maior de 24 horas ou diagnóstico clínico feito pelo médico. Lembrando que as crises também podem ser sutis, mais fracas, como breves desligamentos como em uma parada comportamental, na qual a pessoa fica um tempo sem responder, com o olhar parado, por exemplo”.

É justamente a imprevisibilidade da ocorrência das crises que causa insegurança em quem apresenta a doença. Esse fator somado ao preconceito e os mitos que existem, faz com que muitos se privem de ter uma rotina comum. Mas, de acordo com a Liga Brasileira de Epilepsia, até 70% dos indivíduos com epilepsia têm suas crises controladas com medicamentos antiepilépticos.

Dessa forma, a qualidade de vida é preservada, tornando possível acompanhar a escola normalmente, fazer um curso superior, se desenvolver em uma profissão, como todos os outros. Também existem casos mais graves da doença, em menor porcentagem”, explica a médica.

Alguns tipos de epilepsia têm cura e sintomas podem ser controlados

Ao contrário do que muitos dizem, alguns tipos de epilepsia têm cura e os sintomas podem ser controlados por medicamentos. Para o tratamento ser bem-sucedido, é necessário existir um comprometimento e um certo rigor do paciente. Segundo Irina, um modo de garantir uma maior eficácia é envolvê-lo nas tomadas de decisões clínicas, deixando que ele escolha a opção que melhor se adeque ao seu organismo, dia a dia e realidade.

Entretanto, a construção dessa relação de decisão compartilhada entre paciente e médico requer que mais informações confiáveis sobre a doença estejam disponíveis para as pessoas. “Essa questão de participar das escolhas envolve tudo, desde saber os eventos adversos de cada medicamento até conhecer o quanto cada um pode proporcionar mais qualidade de vida. As decisões abrangem também o custo do tratamento, que é um importante fator de adesão ao tratamento”, afirma Irina.

No que diz respeito às atividades físicas, por exemplo, desde que não envolvam esportes radicais, há estudos que comprovam os efeitos benéficos tanto físicos quanto psicológicos, podendo promover a recuperação da autoconfiança e eliminando o medo de que novas crises aconteçam.

Associação Brasileira de Epilepsia desfaz mitos

1 – A epilepsia não é uma doença mental

Diferentemente do que muitas pessoas acreditam, a epilepsia é uma doença neurológica, ou seja, acontece quando um grupo de neurônios não apresenta um funcionamento normal, gerando assim, descargas excessivas. É como se ocorresse um “curto-circuito” no cérebro.

2 –  A maioria dos pacientes com epilepsia têm inteligência absolutamente normal

Apenas uma pequena parcela das pessoas pode apresentar alguma dificuldade mental, porém, a epilepsia não é a causa.

3 – A doença não é contagiosa

É impossível adquirir epilepsia apenas tendo contato com uma pessoa que tenha a doença, e dessa forma, o contato com a saliva não vai resultar em transmissão. Qualquer ser humano, independentemente da idade, pode ter uma crise epiléptica e o estresse elevado pode ser um dos motivos.

4 – Nem toda convulsão é epilepsia

A crise convulsiva tem abalo motor, ocorrendo tremores no corpo, e nem toda crise epiléptica apresenta isto. Para que uma pessoa seja diagnosticada com epilepsia, vários episódios precisam acontecer. Alteração de comportamento, olhar parado, movimentos automáticos e até mesmo crises de ausência, podem ser sinais de epilepsia.

5 – Medicamentos podem controlar as crises epilépticas

Na maioria dos casos (70%), é fácil a epilepsia ser totalmente controlada com o uso de medicamentos e acompanhamento médico, o que permite uma vida com poucas ou nenhuma restrição. É importante ressaltar que, quando ocorrem crises, as medicações devem ser mantidas nos horários e nas dosagens receitadas pelo médico; não pode haver super dosagem.

6 – A cura da epilepsia é possível, mas depende do caso

Existem cirurgias que retiram a causa das crises, porém, o acompanhamento médico é fundamental, pois cada caso é um caso.

7 – Existem maneiram corretas de falar e escrever alguns termos

O certo é crise epiléptica e não epilética. Além disso, não é correto dizer que uma pessoa é epiléptica ou que é portadora de epilepsia, e sim, que é uma pessoa com epilepsia. Dizer pacientes epiléticos, além de pejorativo, é errado. O correto é: pacientes com epilepsia ou pessoas com epilepsia.

Dicas de primeiros socorros em caso de crise epiléptica

E o que uma pessoa deve fazer caso presencie uma crise epiléptica? Alice Susemihl, presidente da ABE, esclarece que o primeiro passo é manter a calma, pois as crises tendem a passar em poucos minutos e não é possível ajudar alguém quando se age com desespero ou ansiedade. Então, é preciso colocar a pessoa de lado e afastá-la de possíveis perigos.

O ideal é que a pessoa seja deitada de lado, para facilitar a saída de possíveis secreções, e que a cabeça seja apoiada em algo confortável. Além disso, é preciso tirar de perto todos os objetos perigosos que podem ocasionar ferimentos”, afirma.

Se possível, leve-a para um lugar seguro. Se não houver a presença de traumas, coloque um travesseiro embaixo da cabeça para evitar ferimentos. Caso identifique algum trauma, não movimente a região da cervical”, explica a neurologista Irina Raicher, gerente médica da Zodiac.

Alice ressalta que não é preciso colocar nada dentro da boca da pessoa que está tendo uma crise, pois há o risco de asfixia e, na tentativa de segurar a língua, ambos podem se machucar. “O mais importante, contrariando a sabedoria popular, não introduza nenhum objeto na boca da pessoa e nem tente segurar a língua”, afirma Dra Irina.

“Também não se pode dar nada para a pessoa beber e nem jogar água em seu rosto naquele momento. Apenas aguarde a respiração voltar ao normal e ela querer se levantar. Mantenha-se ao lado dela até ela acordar”, destaca a médica.

E quando é preciso chamar uma equipe socorrista? “É necessário chamar uma ambulância caso a crise dure muito tempo, se for seguida de outras, ou se a pessoa não recuperar a consciência”, afirma a presidente da ABE. “Se o episódio durar mais que cinco minutos, chame um serviço de emergência. Não dê nenhuma medicação para a pessoa, isso deve ser feito por uma equipe de saúde especializada”, completa a neurologista.

Com Assessorias

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