Uma doença para a qual não existe vacina: a desumanidade

Além de ser o pivô para novo debate que divide o país, morte do neto de Lula acende alerta para meningite, uma doença grave que pode ser evitada

Rosayne Macedo
Lula e parentes se abraçam no velório de Arthur (Reprodução de internet)

Não é ser politicamente correto. É ser humano, no sentido literal da palavra. A morte de Arthur, o neto do ex-presidente Luiz Inácio da Silva colocou novamente o país em pé de guerra em pleno Carnaval. Movidas pelo ódio e pela intolerância, milhares de pessoas – até mesmo o filho do presidente Jair Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) – usaram as redes sociais para desrespeitar a dor da família e dos amigos.

Tudo em nome das divergências político-ideológicas que nem de longe poderiam influenciar na morte de uma criança inocente de apenas 7 anos, vítima de uma fatalidade. Desumanidade e falta de empatia definem. E contra isso, infelizmente, não existe vacina. Afinal, “quando você comemora a morte de alguém, o primeiro a morrer foi você mesmo”, diz frase atribuída ao Papa Francisco, que circulou em redes sociais. Felizmente, a racionalidade humana venceu o debate.

A solidariedade de todos os brasileiros decentes agora é teu manto e seguirá para sempre a te aquecer, menino”, escreveu Alexandre de Oliveira Périgo, em um de muitos textos em homenagem a Arthur, que viralizaram na internet e que reproduzimos ao final deste post.

Alerta para a meningite

Além de abrir o debate sobre os limites éticos, morais e até cristãos de nossa “nova sociedade brasileira”, movida pela cegueira de valores tão caros a qualquer civilização, a morte de Arthur nesta sexta-feira (1) acendeu novamente o alerta para uma doença grave e que muitas vezes poderia ser evitada – esta sim – com uma simples vacina: a meningite. A Associação Brasileira de Clínicas de Vacinas (ABCVAC) aproveitou o fato para emitir nota ressaltando a gravidade da doença.

A Meningite Meningocócica é composta de 12 tipos, sendo cinco os mais prevalentes na população: os tipos A, B, C, W, Y. Existem vacinas para esses cinco tipos, desenvolvidas por Laboratórios de altíssima confiança. Na rede pública é possível encontrar a vacina contra o tipo C, enquanto nas clínicas privadas encontram-se outras duas versões: a vacina contra os tipos ACWY e a vacina contra o tipo B”, diz a nota.

Essas vacinas, segundo a ABCAC, são recomendadas pelas Sociedades Brasileira de Pediatria e de Imunizações e estão disponíveis em clínicas em todo o país. Em todo o mundo são indicadas, com eficácia comprovada e no Brasil são aprovadas pela Anvisa, tendo passado, assim, por todos os testes de qualidade e eficiência.

Saiba mais sobre a doença

A meningite é uma doença grave que pode ser causada por diversos agentes infecciosos, como bactérias, fungos e vírus. A meningite bacteriana costuma apresentar um quadro clínico mais grave. No Brasil, casos de meningite são esperados ao longo de todo o ano, sendo a ocorrência das bacterianas mais comum no inverno e, das virais, no verão.

A meningite meningocócica é uma infecção bacteriana das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal, podendo causar sequelas e até mesmo levar a óbito. É causada pela bactéria Neisseria meningitidis que possui 12 sorogrupos identificados1,4, sendo que cinco deles são os mais comuns (A, B, C, W e Y).

Por ser uma doença grave, é importante conhecer os diferentes tipos de meningite e saber como se prevenir. Confira abaixo algumas informações sobre a doença como transmissão, sintomas e formas de prevenção.

– Quais as diferenças entre meningite viral e meningite bacteriana?

As meningites bacterianas são, do ponto de vista clínico, as mais graves. A meningite meningocócica (causada pela Neisseria meningitidis)certamente está entre as doenças imunopreveníveis que causam maior preocupação e, pela magnitude, gravidade e potencial de ocasionar surtos e epidemias, apresenta maior importância para a saúde pública.  Já as meningites virais podem se expressar por meio de surtos, porém com menor gravidade.

– O que é doença meningocócica? Por que é uma doença grave?

A Doença Meningocócica (DM) é causada pela bactéria Neisseria meningitidis e uma das formas de manifestação é a meningite meningocócica, que é uma infecção das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal. Uma outra forma mais grave é quando a bactéria atinge a corrente sanguínea, chamada de meningococcemia.

Mesmo quando a doença é diagnosticada precocemente e o tratamento adequado é iniciado, 8% a 15% dos pacientes vão a óbito, geralmente dentro de 24 a 48 horas após o início dos sintomas.

Se não for tratada, a meningite meningocócica é fatal em 50% dos casos e pode resultar em dano cerebral, perda auditiva ou incapacidade em 10% a 20% dos sobreviventes.

– Como a meningite meningocócica pode ser transmitida?

O meningococo, bactéria que causa a meningite meningocócica, pode ser transmitido de uma pessoa para outra por meio do contato direto com gotículas respiratórias através de tosse, espirro e beijo, por exemplo.Aproximadamente 10% dos adolescentes e adultos possuem a bactéria na orofaringe (“garganta”) e podem transmiti-la mesmo sem adoecer – são chamados de portadores assintomáticos.

– Quais são os sintomas mais comuns?

Os sinais e sintomas iniciais da meningite meningocócica — incluindo febre, irritabilidade, dor de cabeça, perda de apetite, náusea e vômito — podem ser confundidos com outras doenças infecciosas.

Na sequência, o paciente pode apresentar pequenas manchas violáceas (arroxeadas) na pele, rigidez na nuca e sensibilidade à luz.

Se não for rapidamente tratado, o quadro pode evoluir para confusão mental, convulsão, sepse e choque, falência múltipla de órgãos e risco de óbito.

Essa rápida evolução e início abrupto, pode levar a óbito em menos de 24 a 48 horas.5 Por isso, é tão importante a prevenção da doença.

– Quais são as principais formas de prevenção?

A vacinação é considerada uma forma eficaz na prevenção da doença.3 A vacina para prevenção da doença meningocócica causada pelos sorogrupos A, C, W e Y é indicada para crianças a partir dos 2 meses de idade, adolescentes e adultos.7 Já a vacina para a proteção contra a doença meningocócica causada pelo meningococo B é indicada para indivíduos dos dois meses aos 50 anos de idade.8 Nos postos de saúde, a vacina para proteção contra a doença causada pelo meningococo C é gratuita para crianças menores de 5 anos de idade e adolescentes de 11 a 14 anos.

Outras formas de prevenção são evitar aglomerações e manter os ambientes ventilados e limpos.

Descanse, Arthur

Por Alexandre de Oliveira Périgo

Descanse, Arthur. As dores agora não te pegam mais. Não te conheci, mas tenho uma filha e uma enteada com sua idade. Sei bem que aos sete anos a vida está apenas desabrochando, numa maravilhosa mescla de descoberta de sabores, sensações, vontades e alegrias.

Descanse, Arthur. As injustiças agora não te alcançam mais. A morte não combina com os pequeninos, Arthur. É algo inimaginável. O mundo é das crianças! Morrer antes de usufruir do direito à plenitude de uma vida razoavelmente longa é o castigo mais cruel possível entre todos os castigos impossíveis. E a dor que atraca para sempre no peito dos que te amam e ficam um pouco mais por aqui é indizível, nefasta, inexplicável.

Descanse, Arthur. Os dogmas não te confundirão mais. Não é possível haver um deus misericordioso que dite regras que incluam a morte de meninos como você, Arthur. Sua precoce partida reforça minha incredulidade e relutância quanto a existência do divino: ou não há deus ou o deus que existe é perverso e não me interessam suas atitudes inescrupulosas.

Descanse, Arthur. A canalhice daqueles que comemoram sua partida não te sujará mais. Esse mundo não te merecia, Arthur. Não merece a pureza que você e as crianças de sua idade carregam em cada sorriso, em cada frase direta e sábia, em cada atitude legitimamente solidária. Nós, os já crescidos, infestamos o seu lugar com nossa maldade, egoismo e imbecilidade. Nesse contexto partir, ainda que tão cedo e tão dolorosamente, é também privar-se das maldades mundanas vindouras que sacrificariam sua bondade e inocência natas.

Descanse, Arthur. O orgulho de sua família é agora seu eterno quarto de brincadeiras. Seu avô é um grande homem, Arthur. Tenho certeza que você se orgulhava dele como eu. Um brasileiro que saiu da miséria que assola tantos de nós para se tornar o maior líder do Brasil. Um homem submetido a injustiças e dores desumanas que apenas acrescentam mais e mais latitude à sua grandeza.

Descanse, Arthur. O cotidiano distópico não te contaminará mais. Você terá para sempre sete anos, Arthur. E em breve estaremos todos juntos, sem mais aniversariar. Nossas existências são tão somente brevíssimos intervalos entre nossa quase eterna não existência; e estou seguro que você, menino, enquanto por aqui esteve, alegrou aos seus, tal qual fez seu avô, que melhorou a vida de milhões de pessoas injustiçadas.

Descanse, Arthur. A solidariedade de todos os brasileiros decentes agora é teu manto e seguirá para sempre a te aquecer, menino.

Da Redação, com Assessorias

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