Uso de canabidiol para fins medicinais aumenta mais de 2.400% no Brasil

Em novembro de 2014, 168 pacientes conseguiram liberação para importar substância. Em outubro de 2018, registrou-se um total de 4.236. Congresso em São Paulo debate pesquisa e experiência clínica

Rosayne Macedo
Jéssica e Deolinda - Arquivo pessoal
Jéssica e sua mãe, Deolinda: jovem conseguiu liberação do canabidiol na Justiça (Arquivo pessoal)

A jovem carioca Jéssica Rodrigues Sá, de 27 anos, vive desde os 7 anos com Erro de Migração Neuronal, uma doença que causa crises de epilepsia de difícil controle. Chegou a tomar sete tipos anti-convulsionantes diferentes. Tinha mais de 20 convulsões ao dia. Em meados de 2014, sua mãe, Deolinda da Rocha Rodrigues, 54, viu uma matéria no Fantástico, mostrando o caso de Katiele Fischer, e procurou saber mais sobre o canabidiol, substância extraída da Cannabis sativa, a popular maconha.

“Consegui a autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para importar e hoje o acesso é mais fácil graças ao ofício anual. Antes havia necessidade de um novo ofício a cada compra ou solicitação. Conseguimos na Justiça o direito de receber o canabidiol pelo SUS, de  forma gratuita. Até hoje recebi 10 ampolas e como demora para ser disponibilizado e a Jéssica não pode deixar de tomar, acabo realizando a compra para garantir a continuidade do tratamento”, conta Deolinda.

A família de Jéssica não é a única nessa luta. Milhares de brasileiros já fazem uso medicinal da substância obtida à base da planta que dá origem à maconha, ainda proibida no país. Graças a uma cadeia da cannabis medicinal, integrada principalmente de pacientes que dependem da cannabis para tratamentos, médicos especialistas e o esforço da Anvisa, o Brasil vem avançando na questão da política regulatória para o uso medicinal da planta.

O que evidencia esta afirmação é o crescimento de concessão autorizada para importação da planta. Segundo dados da própria Anvisa, o número de pacientes que recebeu autorização de importação cresceu 2.421% de 18 de novembro de 2014 até 16 outubro de 2018. Em novembro de 2014, 168 pacientes foram beneficiados e em outubro de 2018 registrou-se um total de 4.236.

Estes números demonstram maturidade da Anvisa e dos médicos sobre o uso compassivo da cannabis medicinal e do seu potencial terapêutico em doenças crônicas”, complementa Carolina Nocetti, especialista em Cannabis em mercado regulamentado e a primeira médica brasileira com experiência internacional em terapia canabinoide.

Prescrição da medicação triplicou em menos de 3 anos

A quantidade de médicos que prescrevem a cannabis também cresceu. Segundo a Anvisa, em 2015, apenas 321 médicos brasileiros receitaram a planta. Atualmente, há 911 profissionais prescritores, o que contabiliza 183% de aumento. “É outra questão que aponta a necessidade da regulamentação da cannabis para o uso medicinal no Brasil”, ressalta Carolina.

Números recentes apontam cerca de 34 especialidades médicas que prescrevem a cannabis, sendo as principais: Neurologia; Psiquiatria; Neuropediatria; Radiologia; Clínica Médica; Neurocirurgia; Reumatologia; Pediatria; Ortopedia e Cirurgia Geral.

Já são 208 os tratamentos que podem ser feitos com uso do canabidiol, sendo os mais indicados para epilepsia; autismo; doença de Parkinson; dor crônica; neoplasia maligna; transtorno de ansiedade, transtorno de tecidos moles; paralisia cerebral; esclerose múltipla e transtorno depressivo.

Segundo Carolina, o cenário comparado a outros países da América Latina ainda não é o ideal, mas houve bons avanços com a RDC 38/2013 do Ministério da Saúde, que visa o compassivo de medicamentos. Outra medida importante foi a RDC 17/2015 que permite, em caráter excepcional, a importação direta de produtos ricos em canabinoides.

Congresso de Medicina Canabinoide reúne especialistas

A expansão do uso terapêutico da maconha no Brasil motivou a organização do 1º Congresso Internacional de Medicina Canabinoide, que acontece nos dias 12 a 14 de novembro, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo. O evento reunirá alguns dos líderes mais importantes na pesquisa de medicamentos canabinoides do mundo, além de especialistas do Brasil e autoridades locais.

O foco do Congresso será na pesquisa e na experiência clínica. Alguns dos assuntos abordados incluirão o papel homeostático do sistema endocanabinoide e o uso de canabinoides na prática clínica para o tratamento de dor, câncer, autismo e o cuidado integrado para idosos.

Em três dias, o congresso terá a participação de pensadores, médicos, influenciadores e experts da cannabis; profissionais que vem transformando o modelo de promoção e assistência à saúde em todo o mundo. De acordo com os organizadores, o evento marca um capítulo importante na história do sistema de saúde brasileiro, focado na pesquisa e na experiência clínica como, por exemplo, para o tratamento de dor, câncer, autismo e cuidado integrado para idosos.

Entre as presenças confirmadas, estão o pesquisador Elisaldo Carlini, um dos precursores de dar luz aos estudos da cannabis para uso terapêutico e medicinal, e o jornalista Gilberto Castro, que há 15 anos por indicação de um médico, usa a planta como auxílio em seu tratamento de esclerose múltipla. Ativista, Castro conta que a cannabis auxilia na redução de crises, choques e evita surtos que podem ser fatais. Instituições como a Anvisa também estarão no congresso.

Os pacientes se beneficiarão do congresso com os conhecimentos sobre o uso terapêutico da cannabis medicinal, trazendo alívio para doentes crônicos. Aos médicos, o evento trará acesso a mais conhecimento e experiências a uma terapia adjunta e efetiva em determinadas doenças refratárias aos tratamentos convencionais”, afirma Carolina Nocetti.

Novos negócios entre Brasil e Israel

joint venture canabidiol
Consultora técnica da Indeóv, Carolina Nocetti; o presidente da Cann 10 Israel, Yossi Bornstein, e a CEO da Indeóv, Camila Teixeira, no momento do acordo oficial da joint venture (Foto: Divulgação)

Por trás da legalização do uso terapêutico da cannabis no Brasil, estão negócios milionários. Segundo o advogado Marcus Maida, o Brasil está prestes a viver uma nova onda de regulação em cannabis medicinal. “Esta é uma tendência mundial e o mercado é extremamente promissor. Na Califórnia (EUA), este mercado de cannabis medicinal vai gerar cerca de US$ 24,5 bilhões de negócios em 2021”.

Durante o CannX, será firmada a primeira joint venture que unirá dois países: Israel – referência mundial em Cannabis medicinal -, e Brasil, onde ,aos poucos, este tipo de tratamento ganha mais força. O valor do negócio está na casa de R$ 3 milhões, sendo o maior da história da Cann10 em investimento em outro país.

A empresa israelense Cann10 é uma das organizações precursoras em Cannabis em Israel. Atua nos braços de tecnologia, produtos, educação e aceleradora. A aliança com a brasileira Indeov pauta um novo momento para o acesso de pacientes que precisam do uso da Cannabis medicinal no Brasil. A empresa quer ser a primeira a conectar pacientes, médicos e fornecedores de produtos à base da planta.

É um momento importante para a Cannabis medicinal no Brasil. A Joint Venture vai possibilitar a atuação de profissionais sérios e comprometidos, sobretudo com a Medicina e a assistência ao paciente, oferecendo a planta mais acessível de todas as formas”, diz Carolina Nocetti, médica brasileira especializada em mercado regulado da Cannabis medicinal e consultora da Indeov.

De olho na demanda, empresa americana abre sede no Brasil

O mercado brasileiro é tão promissor que uma das maiores fabricantes do produto, com sede dos Estados Unidos, anunciou na semana passada que está de mudança para o Brasil. A HempMeds™, subsidiária do grupo americano Medical Marijuana, Inc., inaugura nesta terça-feira, 13 de novembro, o primeiro escritório da empresa no país. Até o momento, a operação brasileira era comandada pelo escritório de San Diego, na Califórnia.

Hoje a HempMeds atende em torno de 3 mil pacientes devidamente autorizados a realizar a importação de canabidiol para o Brasil. Notamos um crescimento de 40% no último ano”, afirma a vice-presidente da HempMeds™ Brasil, Caroline Heinz.

Segundo ela, o processo para ter acesso a esse tipo de tratamento melhorou muito desde 2014, quando a empresa começou a atuar no Brasil. “Mas a nossa maior barreira ainda é expandir o conhecimento sobre o canabidiol na comunidade médica e garantir a capacitação desses profissionais para prescrever esse tipo de tratamento aos seus pacientes”, disse.

A sede brasileira localizada na Granja Julieta, em São Paulo, promove a aproximação e otimização do atendimento da HempMeds™ Brasil aos seus pacientes brasileiros. Segundo a empresa, a instalação no país também abre novas possibilidades para eventos e cursos de capacitação em medicina canábica para médicos de diversas especialidades e profissionais da área de saúde em geral.

Esse passo reforça o compromisso da HempMeds™ de caminhar junto à comunidade médica e aos seus pacientes, em busca da facilitação do acesso aos produtos feitos a base de cannabis, ampliando as possibilidades de um tratamento que oferece melhor qualidade de vida a milhares de pessoas”, afirma Caroline.

CEO é advogado que criou movimento por causa da filha

O presidente da HempMeds™ para a América Latina, Raúl Elizalde, aproveita a viagem ao Brasil para inaugurar a nova sede e também marcar presença no CannX. No dia 14, às 14h50, Elizalde participará da “Conversa com pacientes: Como o Uso Terapêutico da Cannabis pode ajudar na promoção de saúde e qualidade de vida?”, junto com outros atores importantes da comunidade canábica.

A participação neste evento é uma oportunidade ímpar de trocar experiências com autoridades do setor e principalmente para unirmos forças, na promoção de ações que beneficiem os pacientes que precisam da cannabis medicinal e que facilitem o acesso para tratar as mais diversas patologias”, afirma o advogado formado pela Universidade de Monterrey, no México.

Foi a experiência familiar que o motivou a empreender na área. Sua filha, Grace, tornou-se a primeira paciente a importar legalmente produtos à base de cannabis para o país, graças a uma ordem judicial. Ele fundou uma organização sem fins lucrativos – a “Por Grace” – que ajuda mais de mil mexicanos a obter acesso legal a produtos de cannabis.

Elizalde hoje é considerado peça chave na legalização da cannabis para uso médico e industrial no México, tendo participado em 2016 da discussão com o presidente do país sobre o projeto de lei que permite o uso medicinal de cannabis. Participou como palestrante no 39º Comitê de Peritos de Dependência de Drogas da Organização Mundial de Saúde, ministrando fala sobre canabidiol.

Empresário quer vender remédios à base de cannabis a partir de R$ 40

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, a Casa França Brasil programou para o período de dias 30 de novembro a 1º de dezembro, o Wired Festival Brasil que vai trazer grandes temas que desafiam a humanidade para os próximos anos, entre os quais, a maconha.

mario Grieco
Mario Grieco

Um dos palestrantes é Mario Grieco, um dos mais conhecidos empreendedores da maconha, que luta por sua legalização para fins medicinais no Brasil. Veterano da Monsanto e Pfiezer no Brasil e presidente da Knox Medical, Grieco quer vender medicamentos à base de cannabis a partir de R$ 40 no país. Mas, segundo ele, para conseguir este preço, a planta deve ser cultivada no Brasil.

Hoje a Anvisa permite o uso de medicamentos à base de maconha no Brasil, para fins medicinais, desde que o registro seja aprovado, mas não há previsão legal para o plantio. Grieco mira em um mercado bilionário. O remédio Mevatyl, registrado em janeiro de 2017, é vendido no país por mais R$ 2 mil em função desses entraves.

A VerdeMed, uma startup integrada por médicos do Brasil e da Colômbia, tenta levantar 20 milhões de dólares em dois anos para investir em remédios à base da cannabis sativa. A primeira rodada, que tenta levantar US$ 6 milhões, deve ser fechada ainda este ano.

Israel é pioneiro na descoberta da cannabis para a saúde

Com apoio do Consulado Geral de Israel e da Câmara Brasil Israel de Comércio e Indústria, a primeira edição da CannX: Congresso Internacional de Medicina Canabinoid é promovida pela ABMedCan, plataforma online de educação médica sobre cannabis medicinal e a Cann10 Israel, um dos líderes globais ao tratar de cannabis medicinal, tecnologia, educação, eventos.

De Israel  – país pioneiro na descoberta da cannabis para a saúde – vêm speakers reconhecidos mundialmente, como a médica neurologista pediátrica Orti Solar, diretora clínica dos serviços de infância no Centro de Autismo Assaf Harofeh Medical Center.

Líder na aplicação clínica de soluções naturais para a dor e terapia canabinoide, o médico Ira Price discutirá a perspectiva atual e futura da cannabis medicinal. Ele é professor assistente clínico na Divisão de Medicina de Emergência do Departamento de Medicina Interna da Universidade McMaster (EUA) e educador de médicos e pacientes sobre o uso de canabinoides.

Simpósio Satélite – Durante o evento, a HempMeds™ Brasil promove no Simpósio Satélite, no dia 13, às 12h40. O tema será qualidade de vida e funcionalidade aos pacientes. O evento conta com a presença de Norberto Fischer, pai de Anny Fischer, que foi a primeira paciente a obter autorização para importar canabidiol para o Brasil, em decorrência do diagnóstico da sua condição rara, CDKL5.

Ao lado de Fischer, irão compor a mesa o neurologista infantil Rubens Wajnsztejn e Júnior Gibelli, diretor de Assuntos Médicos da HempMeds™ Brasil. Eles discorrerão sobre a experiência clínica do uso de canabidiol em pacientes com autismo e transtorno global do desenvolvimento, além das variedades de produtos e posologias indicadas para determinadas terapias.

Da Redação, com Assessorias

1 Comment
  1. Josiane 1 mês ago
    Reply

    Meu maior sonho é usar no meu filho de 9 anos que tem crises de difícil controle mas o valor é muito alto acho muito chato saber que existe uma medicação tão maravilhosa que poderia está salvando vidas mas por causa do custo não podemos ter acesso

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