Vacina da Covid-19: enfim, a vez das nossas crianças

Ministério da Saúde distribui primeiro lote, com 1,25 milhão de doses para crianças de 5 a 11 anos, em 14 de janeiro. Rio começa no dia 17

Após muita polêmica – como quase tudo que envolve a gestão da pandemia desde o início no país – a imunização de crianças de 5 a 11 anos contra a covid-19 finalmente está aprovada. A decisão veio após inúmeros debates sobre a obrigatoriedade, exigência de prescrição médica e necessidade de imunização das crianças. Não será mais exigida receita médica para que pais e responsáveis levem os filhos aos postos de vacinação, ao contrário do que defendiam o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde Marcelo Queiroga.

A liberação ocorre quase um mês após a aprovação do imunizante para esta faixa etária pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), após ser adotada em 40 países, como Estados Unidos, França, Inglaterra, Alemanha, Israel, entre outros.  Nesta quarta-feira (5), Queiroga divulgou um plano de imunização infantil contra a covid-19.

O primeiro lote da vacina da Pfizer – a única destinada a esse público, em dosagem três vezes interior à aplicada em adultos – chega no dia 12 de janeiro e no dia seguinte as doses começam a ser distribuídas, proporcionalmente, a estados e municípios. Serão cerca de 1,25 milhão de doses, suficiente para atender apenas 6,25% da população infantil brasileira apta a receber o imunizante, estimada em 20 milhões de crianças entre 5 e 11 anos.

Na cidade do Rio de Janeiro, a imunização está prevista para começar no dia 17 de janeiro, uma segunda-feira. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, a expectativa é de que 560 mil crianças sejam vacinadas na capital. Até 9 de fevereiro serão vacinados na cidade, de forma escalonada, meninas e meninos de 11 a 5 anos. O calendário foi divulgado nesta quinta-feira (6):

Governo sabota esforço para ampliar a vacinação

Mesmo após a divulgação, o governo continua sabotando o esforço para ampliar a proteção da população contra a pandemia que já matou mais de 620 mil brasileiros e que segue envolvida em subnotificações.

Bolsonaro – que não se vacinou contra a Covid-19 e jamais visitou pacientes nos hospitais – ao contrário, debochou deles – voltou a minimizar os riscos da Covid-19 em crianças, insinuando que haveria interesses comerciais da Anvisa por trás da aprovação do imunizante para crianças. “Você vai vacinar seu filho? Qual interesse da Anvisa por trás disso?”, questionou Bolsonaro.

“Foram 2,5 mil óbitos por Covid-19 abaixo de 19 anos e 308 na faixa de 5 a 11 anos. Nenhuma doença imunoprevenível que está no calendário de vacinação matou tanto”, disse à Globonews a médica Carla Domingues, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunização (PNI).
O presidente da Associação Médica Brasileira, César Eduardo Fernandes, afirmou em entrevista à CNN, nesta terça-feira (4), que crianças que são imunizadas contra a Covid-19 têm menos chances de contrair a doença com gravidade, considerando dados dos Estados Unidos, país que já vacina o público de 5 a 11 anos contra a Covid-19.
“A imunidade conferida pela doença propriamente dita, é uma imunidade muito menor que a imunidade conferida pela vacina. Uma criança vacinada tem 6 vezes menos possibilidade de ter a doença grave e de vir a óbito que uma criança que teve a imunidade natural”, diz o médico.

Cronologia da polêmica vacinação entre crianças

No dia 16 de dezembro, a Anvisa aprovou a vacinação para crianças de 5 a 11 anos, com o imunizante da Pfizer, já adotado em mais de 40 país. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse que não havia urgência na vacinação porque o número de casos de vítimas de Covid-19 nessa faixa etária era irrisório. E determinou uma consulta pública inédita sobre o tema, que foi amplamente contestada. Especialistas e sociedades médicas apontaram que essa etapa era desnecessária e apenas atrasaria o processo.

No dia 24 de dezembro, autoridades de saúde divulgaram que não exigiriam a receituário médico para que a vacina fosse aplicada em vários estados e municípios. A Sociedade Brasileira de Pediatria e secretários de Educação também cobraram agilidade no início da vacinação, para garantir a imunização desse público antes do período escolar.

Bolsonaro fez ouvidos moucos. Em seu pronunciamento no fim do ano, voltou a criticar a vacinação infantil, alegando que obrigar pais a vacinarem os filhos feria a liberdade individual, garantida pela Constituição – mais uma vez, esquecendo-se do bem-estar da coletividade. Mas a consulta pública foi um tiro no pé do próprio governo: a maioria dos que opinaram foi favorável a não-exigência da receita.

Para muitos especialistas e sociedades médica, o governo fez o Brasil perder tempo precioso e estratégico, já que é no período que antecede a volta às aulas e todas as crianças já poderiam estar totalmente vacinadas.

Em nota emitida na segunda-feira (4) – veja abaixo na íntegra, a Associação Médica Brasileira (AMB) criticou a polemização em torno da vacinação infantil contra a Covid-19. “O Brasil perde tempo na luta contra a Covid (mais uma vez), expõe as futuras gerações a riscos evitáveis e gera insegurança entre os cidadãos, entre outros problemas. Isso em virtude de uma polêmica infundada, negacionista à Ciência e irresponsável socialmente”.

Nota CEM Covid_AMB sobre a “polemização” da vacina Covid em crianças de 5 a 11 anos

O Comitê Extraordinário de Monitoramento Covid_AMB, o CEM Covid da Associação Médica Brasileira, considera inaceitável e absolutamente inadequada a “polemização” incentivada por algumas pessoas sobre a vacina Covid em crianças de 5 a 11 anos.

Fartas evidências científicas comprovam a segurança e a eficácia da imunização nesse público específico. Imunização, aliás, já adotada com sucesso em diversos países do mundo.

É igualmente um desserviço do ponto de vista humano. O Brasil perde tempo na luta contra a Covid (mais uma vez), expõe as futuras gerações a riscos evitáveis e gera insegurança entre os cidadãos, entre outros problemas. Isso em virtude de uma polêmica infundada, negacionista à Ciência e irresponsável socialmente.

Faz cerca de um mês que se alonga um protelamento infrutífero, contraproducente e desnecessário, período durante o qual já poderíamos ter adiantado o processo vacinal das crianças, para um retorno mais tranquilo às atividades escolares inclusive.

É lamentável ver alguns agentes públicos alardeando que não vacinarão filhos seus, enquanto outros deixam de assumir suas responsabilidades por questões que, certamente, fogem do foco prioritário: o bem-estar e a saúde dos brasileiros.

São Paulo, 4 de janeiro de 2022

Atualizado em 6 de janeiro de 2022

 

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