Vacinação contra meningite cai na pandemia e liga alerta para a doença

Neste 24 de abril, Dia Mundial de Combate à Meningite, reunimos informações importantes de alguns especialistas no tema. Confira

Vacina contra a meningite: pesquisa aponta que metade dos pais não levaram seus filhos para vacinar durante a pandemia (Foto: Divulgação)

O receio de contrair Covid-19 e as restrições para prevenir a doença estão entre os motivos que levaram cerca de metade dos pais entrevistados por uma pesquisa da farmacêutica GSK a não vacinarem seus filhos contra a meningite desde o início da pandemia. Apesar de 94% dos responsáveis considerarem que a vacina contra meningite é importante, 50% adiaram ou suspenderam a vacinação durante a pandemia de Covid-19.

Ao listar as razões para não ir ao posto de saúde, 72% dos brasileiros apontaram as medidas de isolamento social e confinamento, 4% mencionaram o medo de contrair a Covid-19, e 19% disseram ter suspendido ou adiado a vacinação porque eles mesmos ou algum membro da família positivou para o coronavírus.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que 1,2 milhões de casos e 135 mil mortes por meningite ocorram no mundo a cada ano. No Brasil, as três principais causas: a Neisseria meningitidis, o Streptococcus pneumoniae e o Haemophilus influenzae são responsáveis pela doença, com cerca de 2 casos a cada 100 mil habitantes, tendo uma alta letalidade (podendo chegar a quase 50%).

A doença é considerada endêmica no país, ou seja, pode ter casos durante todo o ano, ocasionalmente tendo surtos ou epidemias. As meningites bacterianas são mais comuns no outono-inverno (final de março a início de setembro) e as virais na primavera-verão (final de setembro até o início de março).

No Brasil, a meningite bacteriana mais frequente é a meningocócica, com um índice de mortalidade de cerca de 20% a 30%. Dos sobreviventes, de 10% a 20% ficam com algum tipo de sequela, tais como amputação de membros, perda auditiva ou comprometimentos neurológicos.

A queda dos índices de vacinação contra meningite meningocócica é preocupante. Segundo o DataSUS, em 2012, a cobertura vacinal contra a meningite tipo C atingiu a meta de 100% e, em 2015, chegou a 98,19%. Em 2020, porém, este índice caiu para 78,19%, apresentando uma redução alarmante, visto que essa lacuna abre portas para a ocorrência de mais casos e, até mesmo, possíveis surtos.

Luiz Alberto Verri, neurologista do Vera Cruz Hospital (Foto: Divulgação)

Embora extremamente perigosa, a meningite meningocócica é imunoprevenível, ou seja, pode ser evitada por meio da vacinação. “É espantoso, porém, que mesmo havendo vacina disponível, muitos pais não estejam vacinando seus filhos, deixando-os desprotegidos contra os riscos da doença”, afirma Luis Alberto Verri, pediatra do Vera Cruz Hospital e especialista em vacinas.

Vacinas disponíveis também para jovens e adultos

Existem, atualmente, três vacinas disponíveis contra a meningite meningocócica. Na rede pública, há a imunização contra a meningite causada pelo meningococo tipo C e contra os tipos A, C, W e Y. Na rede privada, além destas, há também a vacina contra o meningococo B, justamente o tipo de maior ocorrência entre menores de cinco anos, sendo responsável por 60% dos casos.

Um ponto que vale ser destacado é que a vacinação contra meningite meningocócica não se restringe a crianças, sendo indicada também para adolescentes e adultos jovens, pois estes grupos podem ser portadores assintomáticos da bactéria e, sem saber, podem transmiti-la. O Programa Nacional de Imunização já fez, aliás, a inclusão da faixa etária entre 11 e 12 anos para a vacinação contra a meningite causada pelos meningococos tipos A, C, W e Y”, afirma o médico.

Para o médico, o Dia Mundial de Combate à Meningite, todos nós temos um importante papel na conscientização das pessoas sobre as formas de prevenção contra esta tão temida doença. “Sabe-se que, com a pandemia, muitos pais e responsáveis têm protelado a imunização dos filhos. Ocorre que, ao não observar a atualização da carteira de vacinas, ao não completar os esquemas vacinais e ao não aplicar as doses de reforço recomendadas, os indivíduos ficam mais expostos”, explica.

Com a volta às aulas, em maior ou menor grau, crianças e adolescentes voltam a interagir uns com os outros, e o risco de transmissão de meningite, assim como de outras infecções, aumenta. “E, no contexto pandêmico, com a atual sobrecarga hospitalar, temos que agir com ainda mais consciência: é por meio da vacinação que podemos evitar doenças que possam levar à hospitalização. Vacinas salvam vidas”, ressalta.

Doença pode atingir qualquer faixa etária

José Guilherme Schwam Júnior, neurologista da Clínica Montpellier (Foto: Divulgação)

O neurologista José Guilherme Schwam Júnior, que atende na Clínica Montpellier, no centro médico do Órion Complex, em Goiânia, ressalta que todos precisam se atentar à doença e alerta para o ato de vacinar. “A vacinação deve ser estimulada e, especificamente na meningite, diminui as chances de casos graves. A meningite pode ocorrer em qualquer faixa etária, mas crianças menores de um ano e idosos são mais suscetíveis a quadros mais graves, por terem uma resposta imunológica mais deficiente”, afirma.

As meningites bacterianas, em geral, são as com maior potencial de gravidade e com os sintomas mais proeminentes, além de uma mortalidade maior”, destaca o especialista, que lista os sintomas. “Febre, dores de cabeça intensas, vômitos, alteração da consciência, confusão mental, raciocínio lento. Algumas vezes o doente pode tornar-se agitado ou muito sonolento e, se não tratada precocemente, pode evoluir para coma e morte”, explica.

O neurologista José Guilherme Schwam Júnior afirma que a doença tem cura, mas um diagnóstico precoce é fundamental para o sucesso do tratamento, que é realizado com o auxílio de um médico infectologista. “A meningite bacteriana é tratada com antibióticos, a viral, em alguns casos, com agentes antivirais, no caso dos fungos, com medicações antifúngicas, por exemplo. Então, é preciso ter o diagnóstico precoce para saber qual o agente causador específico, para que o pronto tratamento ideal seja iniciado”, salienta ele.

Quando a doença é descoberta tardiamente, o doente pode ter sequelas graves, além de ter o risco de perder a vida. “Se não diagnosticada no início, a meningite tem uma grande chance de levar o paciente a óbito. E, se tratada tardiamente, pode gerar consequências drásticas como perda da visão, surdez, sequelas motoras (por exemplo, ficar com um lado do corpo paralisado, semelhante ao que ocorre com o AVC). Em alguns casos mais graves, pode ainda evoluir para o coma permanente ou para o óbito. Por isso, a vacina é fundamental para diminuir os casos graves”, destaca José Guilherme.

Saiba mais sobre a meningite

A meningite é a inflamação das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal (as meninges), podendo ter origem infecciosa e assim, ser causada por vírus, bactérias, fungos, parasitas. A depender do agente etiológico, pode ter rápida evolução, especialmente entre crianças e adolescentes, mesmo quando diagnosticada corretamente. Apresenta uma taxa de mortalidade de 5% a 10%, entre o tempo de 24 a 48 horas após os primeiros sintomas. Sem tratamento, esse cenário sobe para 50%.

A doença pode ser causada por bactérias, vírus, fungos e parasitas. A meningite é uma inflamação das meninges, que são as membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal. Dentre os tipos de meningite, aquelas oriundas da infecção por bactérias são as mais encontradas na prática médica.

A meningite meningocócica é uma doença grave que gera um processo inflamatório das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal, podendo levar a quadros que requerem hospitalização, deixar sequelas e, inclusive, causar a morte, mesmo com tratamento médico iniciado. A transmissão da meningite ocorre através do contato direto com gotículas respiratórias, ou seja, tosses, espirros, beijos e, eventualmente, o compartilhamento de objetos como copos e talheres contaminados.

Diagnóstico sem erros: dicas para confirmar a suspeita de meningite

Nesse cenário alarmante, no caso da meningite, por exemplo, é muito fácil o erro de diagnóstico, pois profissional da saúde não considerar este diagnóstico, uma vez que não há tempo para erros, e em menos de dois dias a doença leva ao óbito. Ana Elisa Almeida, infectologista e professora do Jaleko, separou algumas dicas que podem contribuir para a suspeita diagnóstica de Meningite.

Ana Elisa Almeida, infectologista e professora do Jaleko (Foto: Divulgação)

Febre e outros sinais sugestivos de meningite devem ser investigados com muita atenção. Pois, apesar de em alguns casos, como na grande maioria das meningites virais, o paciente apresentar uma evolução benigna, é importante essa identificação clínica, inclusive, para fins epidemiológicos e controle de casos”, afirma a especialista.

Ela destaca diferenças entre sintomas da gripe e da meningite:

– O vírus da gripe ataca as vias respiratórias, causando cansaço, coriza e dores no corpo.

– Já na meningite, além dos sintomas de gripe, ocorrem sintomas mais amplos como dores de cabeça e vômitos intensos.

– Um sinal que pode ocorrer na meningite e já está muito bem consolidado no conhecimento popular é a rigidez de nuca. Porém, importante frisar que é possível ter meningite sem rigidez de nuca, além da rigidez de nuca estar presente em outras situações clínicas que não a meningite.

– Sintomas neurológicos como surdez, perda de consciência e paralisia podem ocorrer em meningites mais graves.

As dicas principais para os futuros estudantes são avaliarem o paciente com calma, atentando para recursos fundamentais como a anamnese e o exame físico e realizarem exames importantes como o líquor, se houver indicação clínica. Além disso, reforçar entre pacientes medidas preventivas, que são também imprescindíveis no manejo clínico, como a vacinação e quimioprofilaxia (quando indicados).

O Jaleko, plataforma de ensino para alunos de Medicina, disponibiliza conteúdos sobre a doença, preparando os estudantes para incluir meningite nas suas suspeitas diagnósticas e manejá-la corretamente, quando necessário, minimizando as imperícias. O objetivo é orientar os estudantes de Medicina e até mesmo os possíveis pacientes desta doença em constante alerta.

Sobre a pesquisa da GSK – Os dados foram coletados em oito países (Reino Unido, Itália, França, Alemanha, Argentina, Brasil e Austrália, com pais de crianças de até 4 anos e nos Estados Unidos, de 11 a 18) e divulgados em março pela farmacêutica, que fornece a vacina meningocócica C para o Programa Nacional de Imunizações e as vacinas meningocócica C, B e ACWY para a rede privada no Brasil.

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