Veganismo: muito além de uma ‘dieta’, um estilo de vida

Estimativas apontam que 7 milhões de brasileiros são veganos, abolindo todo o tipo de produto de origem animal. Mercado de cosméticos veganos também cresce

Redação
Foto: Marco Verch, Creative Commons 2.0
Em apenas seis anos, o número de pessoas que se declararam vegetarianas quase dobrou no Brasil. De acordo com a pesquisa do Ibope Inteligência, realizada em abril de 2018, 14% dos brasileiros se declaram vegetarianos, o que representa cerca de 30 milhões de pessoas. Esse percentual sobe dois pontos nas regiões metropolitanas de Curitiba, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.
Especialistas estimam que, em uma projeção conservadora, haja cerca de 7 milhões de veganos no Brasil. O veganismo é um estilo de vida que exclui da rotina qualquer tipo de consumo de produtos que sejam de origem animal.  No dia 1º de novembro, comemora-se internacionalmente o veganismo, filosofia de vida que prega o respeito a todos os animais. Para isso, os veganos evitam produtos de origem animal a todo custo, seja na alimentação, no vestuário, nos medicamentos, nos produtos de limpeza, entre outras áreas.

A opção por um estilo de vida vegano pode ser vista como uma adoção de filosofia de vida, pois pretende minimizar os impactos ambientais, preservar os animais e ter um estilo de vida mais saudável”, explica a coordenadora do curso de Nutrição do Centro Universitário Internacional Uninter, Thaís Mezzomo.

Ela esclarece que o veganismo é diferente do vegetarianismo, pois os vegetarianos não consomem carne na dieta, seja ela vermelha, branca ou de peixe, mas podem consumir produtos de origem animal, como ovos, leite, iogurte, manteiga, mel, entre outros. Diferentemente dos veganos, que não incluem produtos de qualquer origem animal nas refeições.

“Os veganos apresentam menores índices de sobrepeso e obesidade, melhor controle da pressão arterial, melhor controle glicêmico e menores taxas de doenças crônicas não transmissíveis, tais como infarto agudo do miocárdio”, diz.

As fontes de proteínas na alimentação são as leguminosas (feijão, lentilha e grão-de-bico, por exemplo) e as oleaginosas (castanhas, nozes, amendoim). O único nutriente ausente desta dieta é a vitamina B12, pois só pode ser encontrada em produtos de origem animal. Para obtê-la, os veganos podem fazer suplementação e consumir produtos enriquecidos com ela, como leites vegetais.

Para aqueles que desejam tornar-se veganos, a professora recomenda acompanhamento nutricional. “Uma pessoa com hábitos alimentares ruins que decide tornar-se vegana sem uma reeducação alimentar pode ter cansaço, sonolência, queda de cabelo, dores musculares e enfraquecimento das unhas. Em casos mais graves, deficiências de proteínas e micronutrientes. Todos, veganos ou não, devem estar atentos à ingestão dos nutrientes necessários para um bom funcionamento do organismo”, explica.

Segunda sem Carne comemora recorde

O Programa Segunda Sem Carne (SSC), implantado no Brasil pela Sociedade Vegetariana Brasileira, comemora o recorde de 327 milhões de refeições vegetais servidas no Brasil, na última década. Apenas no primeiro semestre de 2019, mais de 40 milhões de pratos a base de vegetais foram servidos em território brasileiro. A iniciativa ajuda a promover uma alimentação balanceada na vida da população, contribuindo também com a redução de doenças provocadas pelo consumo de produtos de origem animal.

A Segunda Sem Carne surgiu em 2003, nos Estados Unidos, e hoje já está presente em mais de 40 países. No entanto, é no Brasil que ela tem gerado mais impacto. A campanha brasileira é considerada a maior do mundo e contempla mais de 100 municípios, com o apoio de instituições públicas e grandes empresas, beneficiando mais de três milhões de pessoas em todo o Brasil.

“A gente nem se dá conta. Mas, sim, a SSC está mudando a realidade do consumo de carne e derivados no país. Já perdemos as contas de quantas pessoas se tornaram vegetarianas dando seu primeiro passo nessa caminhada às segundas. Queremos contar com você, nos próximos 10 anos, para que possamos fazer com que mais pessoas a descubram novos sabores, mobilizando autoridades públicas como prefeituras a apresentarem essa alimentação rica aos cidadãos”, convida Mônica Buava, gerente de campanhas da SVB.

Elaborar políticas públicas que promovam a alimentação saudável da população pode ajudar a reduzir o número de doenças. Um estudo recente patrocinado pela Sainsburys, uma das maiores redes de supermercados do Reino Unido, mostrou que dietas não saudáveis são responsáveis por 11 milhões de mortes consideradas preveníveis no mundo, por ano. Para termos uma ideia, o número é maior do que as mortes causadas pelo fumo¹.

Além de favorecer a saúde, o SSC também reduz o impacto ambiental no planeta. De acordo com dados da SVB, apenas um dia sem consumir produtos de origem animal pode economizar 3,4 mil litros de água usados no cultivo de grãos e nos abatedouros, sete quilos de soja para ração, 24 metros quadrados de área plantada a evita que 14 quilos de gases tóxicos sejam lançados na atmosfera.

“A Segunda Sem Carne no Brasil é uma inspiração. É impressionante o número de refeições servidas para as crianças. Espero que esse trabalho perdure por muitos anos”, celebra Tobias Leenaert, ativista belga e autor do livro “Como Criar um Mundo Vegano“.

PARCERIAS DE SUCESSO

Os grandes resultados do programa foram possíveis graças a parcerias importantes com instituições públicas formadas pela rede de restaurantes populares Bom Prato, além das secretarias de ensino estaduais e municipais de São Paulo. Nas escolas municipais de São Paulo, a introdução do cardápio vegetariano se iniciou gradualmente em 2011, passando por criteriosos testes de aceitação dos alunos. Já na rede estadual de ensino de São Paulo, a mudança virou realidade em 2017, alcançando a marca de 100 municípios participantes em agosto do mesmo ano.

Já no setor privado, a novidade foi a adesão da empresa de cosméticos Natura. A iniciativa, anunciada em novembro (relembre aqui), foi a primeira do País em empresas de grande porte e deverá beneficiar mais de 4,5 mil colaboradores que atuam nas unidades de São Paulo e do Pará. Com a participação no projeto, a Natura ajudará a preservar anualmente cerca de 500 hectares de vegetação (o equivalente a dois Parques Ibirapuera, em São Paulo) e a economizar cinco milhões de litros de água (40 mil banhos, de 15 minutos).

A iniciativa também deverá evitar o consumo de 1,5 milhão de quilos de soja, para produção de ração animal, e reduzir a emissão de gases do efeito estufa em 1,5 milhão de quilos — o mesmo que retirar de circulação 330 mil carros ao longo de um ano. “Entendemos que todos precisamos fazer a nossa parte, dia a dia, para gerar impacto positivo a partir de escolhas mais conscientes”, analisa o diretor de Remuneração e Benefícios da Natura, Marcos Milazzo.

Cosméticos do bem

Cresce no mundo todo o mercado de “cosméticos do bem”, com destaque para os veganos, sustentáveis, naturais e orgânicos, que devem atingir US$ 25,11 bilhões até 2025, de acordo com relatório da Grand View Research. Mais especificamente sobre o movimento vegan, ou vegano, que vem ganhando cada vez mais espaço na sociedade brasileira, ele se caracteriza pelo modo de vida que procura excluir todas as formas de exploração e crueldade com animais para alimentação, vestuário ou qualquer outro propósito, como os cosméticos.

Embora ainda não haja dados precisos sobre o número de veganos no Brasil, algumas marcas começam a renovar seu arsenal de produtos, com a finalidade de torna-los 100% veganos. Esse é o caso da Pharmapele, rede de farmácias de manipulação, com 31 anos de experiência em medicamentos personalizados e cosméticos de tratamento.

veganismo movimenta um mercado que cresce 40% ao ano no Brasil, e os cosméticos veganos brasileiros ganharam bastante visibilidade nesse contexto. Segundo a farmacêutica Luisa Saldanha, CEO da Pharmapele, a preocupação da marca vai além do crescimento de mercado e tem relação com a filosofia da empresa. “Hoje 90% dos nossos produtos são veganos. A ideia da Pharmapele é atingir a totalidade e se consolidar como uma empresa referência em produtos que não utiliza matérias-primas de origem animal”, afirma Luisa.

Porém, para que não haja confusão em frente às prateleiras, é necessário entender a diferença entre os produtos veganos, orgânicos, naturais e cruelty free, como explica Luisa Saldanha:

Cosméticos orgânicos: “Também conhecido como sustentável, o cosmético orgânico é aquele que tem um baixo impacto ambiental, e, para ser considerado orgânico, o cosmético deve ser certificado por órgãos específicos. Para isso, o cosmético precisa que 95% do total das matérias primas presentes no produto sejam orgânicas e os outros 5% devem ser matérias primas permitidas em cosméticos orgânicos.”

Cosméticos veganos“Cosméticos veganos são aqueles que não possuem nenhum ingrediente de origem animal e também não são testados em animais. Os cosméticos veganos não precisam nem conter ingredientes orgânicos ou vegetais, podem até mesmo ter em sua formulação componentes sintéticos, desde que nada em sua composição seja derivado de animais.”

Cosmético Cruelty-Free: Cosmético Cruelty-Free quer dizer cosmético livre de crueldade, ou seja, é aquele produto que não é testado em animais.

Segundo a farmacêutica, diferente do que muitas pessoas pensam, a eficácia dos cosméticos veganos e orgânicos é a mesma de produtos convencionais. O que realmente muda é o preço, principalmente em produtos orgânicos, já que as matérias primas orgânicas certificadas tendem a ser mais caras, o que acaba impactando no preço do produto final.

“O custo de produção de um produto vegano pode ser até dez vezes superior ao custo de produção de um convencional, já que existe menos oferta de matéria-prima vegana no mercado que proporcione os mesmos resultados dos convencionais. Assim, muitas vezes é necessário fazer associações de ingredientes para alcançar o resultado desejado. Além disso, o processo de certificação é um trabalho longo e demanda um investimento alto”, explica a farmacêutica. “Mas só o fato de banir ingredientes de origem animal já é um avanço muito grande”, finaliza a farmacêutica.

O ano dos veganos nas  redes sociais

Segundo a The Economist, o ano de 2019 é considerado o “ano dos veganos”.  Nas redes sociais, o mês de outubro contou com mais de 250 mil posts sobre o tema. As atrizes Erika Januza e Gi Lancellotti e as influenciadoras Gabriela Pugliesi e Niina Secrets foram as celebridades que mais geraram engajamento em posts sobre veganismo no Instagram durante o mês de outubro.

Segundo dados do Buzzmonitor Trends, ferramenta de busca histórica de termos em redes sociais do Buzzmonitor, as publicações das famosas somam 5 dos 12 posts sobre o tema com mais engajamento no Instagram entre os dias 1 e 31 de outubro.

Já no Facebook, a busca pelos termos “vegano” e “vegana” teve nos Top Posts apenas conteúdos publicitários. Os termos “veganismo“, “vegano” ou “vegana” foram mencionados 251.841 vezes no mês de Outubro, segundo dados do Buzzmonitor Trends. O termo mais mencionado dentre os três foi “vegano“, com 111.947 menções, seguido por “vegana” e “veganismo” com 94.570 e 45.315 menções, respectivamente. Com a celebração do Dia Mundial do Veganismo no dia 1º de novembro, o tema poderá atingir novos picos de menções.

Menções ao termo “vegano” entre 30 de setembro e 30 de outubro: Em relação à distribuição de menções por rede social, o Twitter foi a rede com mais dados disponíveis sobre o tema. Enquanto “vegano” e “vegana” tiveram valores próximos (69,97% e 71,70%, respectivamente), “veganismo” teve 90,29% de suas menções nessa rede social:

Compartilhamento por rede – “veganismo” – Dentre os 12 Top Posts com maior engajamento no Facebook, apenas 1 falou sobre alimentação. Todos os outros mostraram produtos de beleza. As marcas responsáveis pelos posts mais engajados no mês de outubro foram O Boticário, Salon Line, Todecacho, Sal de Flor e Embelleze, somando mais de 412 mil interações. 

Com Assessorias