Vida sem carro: por que abri mão do meu pretinho básico

Dia Mundial Sem Carro: por menos monóxido de carbono e uma vida mais livre

Rosayne Macedo
Minha vida sem carro: 11 razões para decidi não dirigir e vender o pretinho básico (Álbum de Família)
Meu pretinho básico: por que decidi não dirigir e vendi o carro (Álbum de Família)
Sem carro: 11 razões para decidir vender o meu pretinho básico (Álbum de Família)

Aqui em casa eu abri mão de carro faz pouco mais de um ano. Também pudera… Eu não dirijo! (risos) Mas foram muitos outros motivos que me levaram a desistir de ter um carro parado na garagem ou, ocasionalmente, nas ruas. São pelo menos 11 razões, especificamente. Sei que não sou exemplo e reconheço a dependência que muitos desenvolvem do carro próprio, até por limitações impostas pela distância do trabalho, conforto e segurança. Em homenagem ao Dia Mundial Sem Carrocompartilho aqui o post que explico por que adotar uma vida sem carro.

“Gente, esse é meu pretinho básico… Ou melhor, era… A partir de hoje ele não me pertence mais… Foram quatro anos convivendo com ele, que nasceu pra ser Livre, Leve e Solto, como já dizia sua certidão de nascimento (a placa LLS). Mas na grande maioria das vezes ali, abandonado na garagem, empoeiraaaado… Quietinho à espera de uma resolução que eu sempre adiava.

Mas quando pegava uma estrada… Nunca vi um 1.0 tão potente, veloz, silencioso… Deslizava lindamente pelas curvas das estradas que ele viu tão pouco… Apenas 7,5 mil km rodados, única dona, carro de garagem… Uma raridade! Ainda com cheirinho de novo por dentro… Macio, cheiroso, gostoso… Enfim, vontade mesmo de apertar ele!!! (sic) Som maravilhoso, ar tinindo, vidro elétrico, sensor de ré, insufilmado na medida… E ainda melhor: super-econômico.

Quem me conhece bem de perto sabe: dirigir era ao mesmo tempo um desafio, mas também um parto difícil e doloroso. Criei um bloqueio, eu sei, e postergava ao máximo. Não me dedicava aos treinos. Quase nunca pegava no volante, só com algum amigo/a do lado. Insegurança, medo, ansiedade, trauma… Sei lá o que…

Fora a máfia do Detran e das autoescolas que hj torna o ofício de “motorista” ainda mais difícil para os ansiosos, tensos, inseguros… A prova mais parece uma pegadinha pra testar os nervos de qualquer um. E eliminar pra que você pague novamente o Duda, as aulas extras, os simulados… Bastam quatro pontinhos pra isso. Nada mais que uma seta errada por puro descuido!

Para os exames que fiz aqui no Rio, tive que sair de madrugada pra ir pra Cidade das Crianças em Santa Cruz e noutra vez pra Sepetiba. Só isso já era estressante. Lá, vi várias pessoas chorando, reclamando, sentindo-se imprestáveis porque já haviam tentado três, quatro, cinco vezes e eram reprovados. Não por imperícia ou inabilidade, mas pela forte carga emocional que lhes era imposta naquele momento por fiscais que eram verdadeiros “carrascos”. Pesquisas mostram que mais de 60% rodam na prova prática… Eu aí nessa estatística.

Vergonha? Incompetência? Fracasso? Não…. No meu caso, depois de uma primeira tentativa muitos anos atrás, em Macaé, quando não tinha carro, perdi na baliza. Depois foram apenas outras duas tentativas já pelas novas exigências das leis de trânsito. Na segunda cheguei bem perto, mas não deu. E resolvi deixar pra lá. Adiava, não arranjava tempo, me auto-sabotava mesmo. E lá se vai uma grana preta pros cofres do governo.

Mas enfim, nada de reclamar nem culpar o Detran. O fato é que meu ex-pretinho básico agora é de uma nova dona. Vou sentir falta do bichinho, eu acho, mas era preciso desapegar. Ele ficava ali, à mercê do tempo, se desvalorizando a cada dia, querendo um dono pra chamar de seu. E eu me sentindo impotente e fracassada. Embora, racionalmente, eu sempre soubesse que carro não me fazia falta. Me viro bem com ônibus, metrô, táxi, carona dos amigos.. e agora meu transporte favorito: o Uber (ou 99).

O que me movia para deixar a comodidade de andar na carona dos amigos ou ter um motorista amigo/a ao lado era a possibilidade de ganhar mais independência. Talvez essa seja a única dependência de uma menina do interior que saiu de casa aos 17 anos pra estudar fora e nunca mais voltou. Aprendeu a enfrentar tantos monstros pelo caminho, muito mais perigosos e ferozes que uma simples prova de direção. Mas não deu, gente! Foi mal aí. Admito.

E sei que não sou a única – de cada 10 amigos, conto nos dedos hoje os que dirigem (ou que amam dirigir). Muitos venderam seus carros também para racionalizar os custos, ganhar mais qualidade de vida, tornarem-se mais sustentáveis e… menos dependentes dessa máquina que leva a gente daqui pra ali e até à padaria da esquina.

Meu lado razão falou mais alto, embora tivesse relutado durante longas semanas após receber a proposta de compra que eu nem procurava e o coração tivesse ficado partido quando entrei naquele cartório pra oficializar a venda. Agora sim, mais fortalecida e desapegada, posso listar as minhas 11 RAZÕES NÃO TER MAIS CARRO (e nem pretendo ter de novo).

1 – Não ter que perder tempo nem combustível procurando vaga no trânsito caótico do Rio pra estacionar (sempre odiei e nunca tive paciência pra esse negócio)
2 – Não ter que fazer ginástica pra encaixar o carro em vaga minúscula (coisa mais sofrida, gente! isso devia ser proibido)
3 – Não ter que pagar flanelinha pra cuidar do seu carro ou te convencer a parar num lugar errado e, no desespero, você aceita e quando você volta o sujeito não está mais lá, mas a multa sim (isso aconteceu comigo em Ipanema)
4 – Não passar pelo estresse que é ficar para, ponto morto, engata a primeira, engata a segunda, para, ponto morto, engata a primeira, engata a segunda…. nesse monte de sinal pela cidade.
5 – Não ter que pagar IPVA nem seguro, nem ter que fazer vistoria, levar pra manutenção, trocar óleo, água, calibrar pneus, fazer revisão… nem ser obrigada a fingir que entende de mecaniquês!
6 – Não ter que ouvir motorista mal educado gritar e xingar a última geração da mãe que você infelizmente nem tem mais. Nem esbarrar com pedestre e ciclista que não respeita as leis mínimas de convivência pelo caminho
7 – Sublimar a temida prova de direção do Detran. E dar uma banana pra aquele pessoal que quer te aterrorizar e fazer você se sentir a mitinga do cocô do cavalo do bandido…
8 – Não ter mais que sofrer bullying dos amigos ou conhecidos: “Ué, mas se não dirige, pra que carro? Pra ficar de enfeite? quáquáquá”
9 – Tomar uma atitude sustentável importante e nobre para o futuro do planeta: não ser responsável por mais emissões de monóxido de carbono e continuar, sempre que possível, fazendo a escolha sensata do transporte coletivo
10 – Não ter que viver sobressaltada com a possibilidade de um, dois um mais sujeitos te abordarem ao volante e lhe tomarem tudo, algumas vezes, até a vida…
11 – E agora, a melhor de todas na era Uber (ou qualquer que seja o aplicativo de táxi desejado): ter um motorista que me leva pra todo canto a um custo x benefício razoável com segurança e gentileza. E ainda com direito a água, balinha, jornal e até chocolate – a Clarinha simplesmente ama esses mimos!

A lista é gigantesca e infindável. E provavelmente vocês também vão incluir outras boas razões para me apoiar nessa decisão difícil, mas certeira. Mas vou parar por aqui. Enfim, decisão tomada, fantasma expurgado, totalmente trabalhada na TPV (terapia pré-venda do veículo) e após uma ampla “pesquisa de opinião” junto aos amigos.

Agradeço o apoio de quem me ajudou a abrir os olhos, agir com razão e superar a dor de perder pra sempre o meu pretinho básico. Porque, cá entre nós, confesso que a venda do Paliozinho branco em 2010 foi bem menos sofrida pra mim e mais pra Clarinha. Na época, ela chegou a hostilizar o pretinho zero km, por saudade do velhinho!

É certo que o veredicto final para minha nova vida sem carro foi da minha filha. Ela implorou que eu vendesse logo após ser comunicada sobre a triste tragédia com a mãe de uma amiguinha, assassinada brutalmente ao volante numa tentativa de assalto na Avenida Binário, no dia da abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Logo ela que tantas vezes me pediu que eu a levasse de carro ao colégio dela que fica a 5 minutos a pé de casa… Enfim, meu amor por ela, como sempre, falou mais alto!”

  • Post publicado originalmente no Facebook em 19 de agosto de 2016 (com redação). Envie sua história para a seção Eu Vivo pelo email blogvidaeacao@gmail.com
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