Entenda a importância da terapia na prevenção do suicídio

Doutora em Psicanálise, Andrea Ladislau diz que a terapia pode acolher e fomentar a fala e a expressão de emoções e sentimentos

Por Andrea Ladislau*

Falar sobre saúde mental é importante o ano todo, mas ter uma data para tornar isso o foco da conscientização é, sim, essencial. O Setembro Amarelo vem para coroar a prevenção ao suicídio e colocar luz nas reflexões sobre a valorização da vida. Dentro dessa temática, conseguimos identificar diversos pontos que devem ser trabalhados para que a eficácia da prevenção atinja seus níveis desejados.

Um dos principais fatores de combate ao suicídio é a adoção de medidas terapêuticas desenvolvidas através de ferramentas adequadas e aplicadas por profissionais de saúde mental. O suicídio é uma solução definitiva para um problema temporário. Através da terapia se pode acolher e fomentar a fala e a expressão de emoções e sentimentos, tão fundamentais para enraizar o equilíbrio mental e a qualidade de vida necessária.

Tabu em torno do tema dificulta busca de apoio

Não devemos ter medo de falar sobre o suicídio. Algumas culturas e famílias tratam o suicídio como um tabu, evitando falar sobre o assunto. Existe um medo de que isso pode instigar pensamentos suicidas.

Isso geralmente pode levar uma pessoa a nunca falar abertamente sobre a questão. Mas na verdade, ocorre o oposto; falar abertamente sobre suicídio pode fazer um suicida em potencial repensar suas escolhas.

Acolha, demonstre apoio, tenha empatia e fique atento aos sinais que as pessoas podem nos emitir, demonstrando que algo está errado. O equilíbrio emocional é fundamental para afastar qualquer tipo de pensamento ruim. Mas sabemos que para atingir esse equilíbrio uma série de fatores estão envolvidos. Não deixe para o dia seguinte, se você pode acolher, ouvir e ajudar uma pessoa em sofrimento.

Muitas vezes, temos pessoas a nossa volta que estão sorrindo por fora, mas internamente, apresentam um psicológico abalado e fragilizado, e já não suportam mais a dor. Entendem que a melhor maneira de MATAR a dor é tirando sua vida. Uma solução definitiva para problemas temporários. Suicídio é coisa séria, não ignore os sinais. A melhor arma no combate a este mal é o apoio emocional.

90% dos casos poderiam ser evitados

Especialistas informam que em 90% dos casos de pessoas que põem fim a própria vida podem ser evitados. E o que mais chama a atenção é que, a grande maioria dos suicídios está ligado a algum transtorno mental que perceptível através de comentários, alterações de humor causadas pela depressão, transtorno bipolar ou estado de tristeza persistente e, em muitos casos, sem qualquer motivo aparente que justifique.

O suicídio supõe tirar voluntariamente a própria vida. Mas o que há por trás de um comportamento suicida? Como podemos identificar e prevenir uma ação como esta que dilacera a alma de parentes e amigos próximos das vítimas? Entre as condutas que podem ser um indicador de um suicídio iminente, destacam-se a vontade de morrer (com frases do tipo “a minha vida já não faz mais sentido” ou “não vejo qualquer motivo para viver”), a incapacidade de descarregar os receios e as angústias, o esgotamento resultante da pressão da vida social, o comportamento impulsivo e a introversão acentuada.

São sofrimentos e questões que podem afetar pessoas de qualquer nacionalidade, gênero, idade, classe social. E o que vemos é que não existe uma única razão para que alguém opte pela automorte. O suicídio é o resultado de uma rede de fatores biológicos, genéticos, psicológicos e socioculturais.

Principais fatores de risco

Trata-se de uma emergência médica, em que quase 100% das pessoas que tentaram ou se suicidaram têm um quadro psiquiátrico, associado a doenças mentais tratáveis. Entre os fatores de risco estão:

1 – os transtornos mentais: depressão, bipolaridade, esquizofrenia;

2 – situações como isolamento ou vulnerabilidade social, desemprego, migrantes;

3 – questões psicológicas, como perdas recentes, problemas na dinâmica familiar;

4 – condições clínicas incapacitantes, como lesões desfigurantes, dor crônica e câncer e

5 – uso de drogas, principalmente cocaína e álcool, que aumenta a impulsividade e, com isso, o risco de suicídio.

Olhar o suicida apenas como um doente não é a melhor opção, uma vez que analisando com calma o escopo de possibilidades, qualquer pessoa poderia se encaixar em uma destas situações na vida. Podemos até classificar este indivíduo como portador de uma angústia considerada por ele como intransponível, sem saída ou sem solução. Ele não possui o desejo de acabar com a vida, mas sim de fazer parar a dor considerada insuportável por ele. Por isso, conversar sobre os sentimentos é essencial.

Portanto, devemos estar atentos aos sinais. Não ignorar, conversar, aproximar-se e ouvir sem julgamentos, são atitudes fundamentais. Além de buscar ajuda especializada de um profissional de saúde mental, que saberá conduzir o processo para que o indivíduo não se entregue a um desfecho tão trágico. E, principalmente, o segredo é  não se isolar.

Andrea Ladislau, doutora em Psicanálise, explica os transtornos que cancelamento pode causar (Foto: Divulgação)

*Andrea Ladislau é graduada em Letras e Administração de Empresas, pós-graduada em Administração Hospitalar e Psicanálise e doutora em Psicanálise Contemporânea. Possui especialização em Psicopedagogia e Inclusão Digital. É palestrante, membro da Academia Fluminense de Letras e escreve para diversos veículos. Na pandemia, criou no Whatsapp o grupo Reflexões Positivas, para apoio emocional de pessoas do Brasil inteiro.

Contatos: Instagram: @dra.andrealadislau / Telefone: (21) 96804-9353 (Whatsapp)

Andrea Ladislau colabora para a seção Palavra de Especialista uma vez por mês. Dúvidas e sugestões para [email protected]

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