Dráuzio Varela: ‘Discussão das vacinas é de gente ignorante’

Em conversa com especialista da Fiocruz, médico defende o SUS, rebate movimento antivacina e esclarece dúvidas sobre vacina da gripe, que prossegue até dia 15

Rosayne Macedo
AO VIVO | Não subestime a gripe

Hoje, Dr. Drauzio recebe a Dra. Marilda Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratório e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) para conversar sobre gripe e seus impactos na saúde respiratória. Tem dúvidas sobre o assunto? Mande sua pergunta com a hashtag #RespondeDrauzio.Esse evento é produzido pela Uzumaki Comunicação, em parceria com o Viva Saúde, programa de relacionamento da Drogaria São Paulo e Drogarias Pacheco.

Publicado por Portal Drauzio Varella em Quinta-feira, 24 de maio de 2018

A campanha de vacinação contra a gripe foi prorrogada até o dia 15 de junho, em todo o país, na tentativa de combater um vírus que insiste em ganhar força: o movimento antivacina. Em talk show recentemente sobre gripe no Rio, Dráuzio Varella, um dos mais conhecidos e respeitados médicos do país, criticou: “Essa discussão das vacinas de modo geral é de gente absolutamente ignorante”, destacou.

Em bate papo com a virologista Marilda Marcondes Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratório e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), do qual ViDA & Ação participou, Dráuzio ainda saiu em defesa do Sistema Único de Saúde para criticar este retrocesso no enfrentamento de várias doenças também no Brasil.

O SUS é a  Geni do Chico Buarque. Todo mundo xinga o SUS. A imagem do SUS é de pronto socorro lotado de gente, maca no corredor, pessoas querendo ser atendidas e não podem. Mas o SUS tem outro lado. Temos o maior programa de vacinações gratuitas do mundo. Não há nenhum país no mundo que vacine gratuitamente tanta gente como aqui no Brasil. Por isso a gente fica triste de ver uma campanha como esta, da gripe, para vacinar grupos específicos que precisam tomar a vacina. É gratuita! Em outros países é pago! E as pessoas não vão se vacinar”.

Ele ainda reforçou, provocando a plateia: “Quantos aqui com menos de 50 anos tiveram paralisa infantil (poliomielite)? Não tiveram porque todos foram vacinados, Quando eu era garoto era normal em todas as salas de aula ter um menino que usava um aparelho, umas próteses de ferro, fazendo aquele barulho enorme. A criança tinha uma febre, a mãe ficava desesperada, com medo da poliomielite que deixava lesões osteomusculares para o resto da vida.  Nós acabamos com a poliomielite, não existe mais um caso no Brasil. Quando fiz residência médica no Hospital das Clínicas de São Paulo, o Instituto Emílio Ribas, para doenças infecciosas, tinha uma enfermaria de varíola. Morria gente de variola na década de 60. Desapareceu do Brasil e da face da Terra”.

Os resultados das campanhas de vacinação atuais têm sido um pouco desalentadores, lembrou Dráuzio. Até o dia 7 de junho, 75,8% do público-alvo se vacinaram em todo o país, mas 13,1 milhões de pessoas que fazem parte do público-alvo ainda eram esperadas nos postos de vacinação do país para receber a imunização. A expectativa do Ministério da Saúde é que 54,4 milhões de pessoas sejam vacinadas.
Mas quais são os mitos em torno das vacinas em que as pessoas acabam acreditando? No encontro realizado no teatro da Livraria Cultura do Cine Vitória, no Centro, em ação patrocinada pelas Drogarias Pacheco, Marilda Siqueira e Dráuzio Varella tiraram dúvidas da plateia, em bate papo transmitido ao vivo pelo Facebook. Confira os principais pontos deste bate-papo, acompanhado presencialmente por ViDA & Ação.

Médico dizia que vacina tríplice viral causava autismo

Para Marilda, as doenças infecciosas em todo o mundo sofreram diminuição acelerada das mortes por conta de três fatores básicos: investimentos em saneamento (água tratada e sistema de esgoto), vacinas e antibióticos, o que contribuiu para duplicar a expectativa de vida em um século.
Por mais que tenha chá de alho e curandeiro, é isso que impactou. Fico triste de ver tantas pessoas fazem essa questão antivacina, é uma desinformação”, ressaltou. Marilda ainda lembrou o caso do sarampo, que até a década de 80, quase anos 90, matava 2,5 milhões de crianças por ano no mundo todo. Em 2015, morreram 104 mil crianças no mundo por causa das campanhas de vacinação. Como pode dizer que não funciona, que faz mal?”, disse.
A especialista lembrou que a série de questionamentos contra as vacinas surgiu depois que um médico inglês disse, anos atrás, que a vacina tríplice viral causava autismo. A declaração foi tema da primeira página dos grandes jornais do mundo. Para investigar a questão, foram criados dois grupos de pesquisa, pesquisadores da Inglaterra e de outras partes do mundo, depois de três anos, concluíram que não causava autismo.
“O estudo foi publicado no New England Journal Medicine e apenas como notinha no rodapé da página 10 dos grandes jornais”, lembra. No estudo, o médico concluía que era apenas a vacina monovalente – só para sarampo, não para rubéola e caxumba (que é a tríplice) – era segura. Depois, ele abriu uma fábrica para fazer esta vacina. “Como a Inglaterra é um país sério, cassaram o diploma médico dele. E agora ele está vivendo com um pessoal que é contra a vacina no interior dos Estados Unidos”.

Os mitos em torno da gripe: o que é real e o que é verdade

Marilda esclareceu que a gripe é uma palavra francesa que é sinônimo de influenza na França.

Aqui virou sinônimo de qualquer infecção respiratória aguda, um resfriado ou infecção mais grave. Nesta época do ano, em países de clima temperado e frio, tem outros vírus que também circulam e também podem confundir. A transmissibilidade de uma pessoa. Suposições científicas mostram que se mantêm no ar por mais tempo quando temos umidade relativa do ar menor”, disse.

Drázio lembrou que a gripe é cheia de mitos. “Peguei um vento frio e fiquei gripado, saí à noite no sereno, abri a geladeira e peguei um vento frio”, exemplificou. E logo rebateu: “Quem nasce no Canadá ou Noruerga passaria o ano inteiro gripado porque faz frio maldito nesses lugares”. Segundo ele, não é possível ficar gripado sem contato com alguém. Se não tem vírus, não tem como ficar gripado”, diz Dráuzio.

Crítica às pessoas que espirram e tossem em locais públicos

Segundo Dráuzio Varella, a gripe é causada por um vírus, que tem características muito especiais. “Ele tem estratégia de sobrevivência maravilhosa para se disseminar de uma pessoa para outra. Entra e infecta mucosas do nariz, da boca, dos olhos, faz o nariz escorrer, a pessoa espirrar e tossir. Nas gotículas da tosse, ele vai junto”, conta.
Dráuzio ainda crititcou as pessoas que não tomam cuidados na hora de tossir ou espirrar. “Gente que tosse para fora, no outro. Essa gente mal educada, que espirra a até dois ou três metros de distância. “Com a angulação, o espirro pode chegar a a sete ou oito metros de distância”.
Segundo ele, o vírus não mata como regra, “o que é uma estratégia interessante senão não teria mais quem atingir”. Porém, acaba causando problemas em pessoas com imunidade debilitada, crianças, idosos e outras pessoas que sofrem com doenças como diabetes e Aids.
No inverno, as pessoas ficam mais confinadas, mais dentro de casa, abrem menos as janelas, o que é um erro, tem que deixar ventilar. Tudo isso favorece a transmissão do vírus. com ar condicionado, trabalham o ano inteiro”, ressalta.

Duração do quadro pode se arrastar por falta de cuidados

Um quadro de gripe varia de pessoa para pessoa, mas é normalmente de quatro a sete dias, que é o período de transmissibilidade do vírus e é o tempo para se restabelecer. Tem pessoas imunocomprometidas, crianças e idosos, que podem se complicar mais. “A mucose da faringe é toda siliada, e com a gripe, em dois ou três dias, está carequinha”,
Segundo ela, o tempo de permanência da gripe depende do estado e do cuidado de cada pessoa. “Se não se hidratam, não param, não descansam, o quadro pode se arrastar por semanas. O vírus tem capacidade de se reprropduzir e se manter na natureza muito grande. Pode se instalar no pulmão, gerando quadros mais graves”, explica Marilda.
Sobre a importância de se cuidar e tomar a vacina, ela diz que o objetivo principal é evitar complicações, para não hospitalizar. “Hoje em dia, a gente não morrer  de gripe já é um ganho”, ressalta.
Marilda ainda explicou por que a  vacina de um ano não serve para o outro e por que a pessoa toma vacina e ainda pode ficar gripada. “Nesta época, o vírus já está circulando. O período de incubação do vírus é de dois a três dias. Não dá tempo para produzir anticorpos e se defender”, alerta.
Ela disse ainda que existe uma gama enorme de outros vírus circulando nesta época, e podem se confundir. É o caso do vírus sessencial respiratório, comum em casos de bronquiolote. “Crianças até um ano de idade têm, numa média global, de oito a dez quadros de infecção respiratória por ano. Só o rinovírus tem 110 genotipos diferentes”, diz, para tentar explicar o tamanho do desafio.

Da gripe espanhola à H1N1 em 2018

Dráuzio lembrou da gripe espanhola, o H1N1, em 1918. “Morreu tanta gente  de gripe que os corpos ficavam nas calçadas e passavam carroças recolhendo”. O vírus surgiu nos Estados Unidos e na 1ª Guerra Mundial, antes da descoberta da penicilina, a Espanha não estava na guerra.
Em 2018 não se sabia nem que existia vírus. Era chamado de agente filtrável. O vírus influenza foi descrito em 1933. Em 1918 a população não tinha imunidade para se proteger”, explicou Marilda.
Ela conta que houve pandemias de gripe asiática H2n2 em 1957,  de H3N2 em 1968 e de H1N1 em 1977,  porém, com características diferentes. Em 2009 houve nova pandemia de H1N1 com característica do genoma do vírus diferente do que circulava desde 1977. “Além de não ser muito agressivo, já tínhamos antivirais e tínhamos também uma vacina pronta, em abril de 2009, com antibióticos”, ressalta.
Mas, afinal, pode aparecer novamente um vírus com essa agressividade e provocar uma alta mortalidade? Marilda diz que sim: “A questão não é se vai ter, mas de quando vai ter uma pandemia. Vai ter, mas não se sabe quando”. Segundo ela, “mesmo com um sistema de saúde pública com todos os defeitos, ainda consegue dar resposta. Temos um cenário muito mais otimista para enfrentar uma pandemia do que em 1918”.

Aviões trazem maior parte dos vírus

Marilda explicou que o hospedeiro principal dos vírus Influenza são as aves migratórias que chegam no inverno do Hemisfério Norte. Através das fezes,  os vírus são eliminados. “Aves são os principais carreadores desses vírus. Hoje não precisa de aves porque temos os aviões, que transportam milhões de pessoas diariamente carregando as doenças para todos os continentes”, destaca.
Outros animais – morcegos, focas e até baleias – também são hospedeiros., mas o porco é o mais perigoso dentre eles. “O porco é um reservatório, mas tem células com receptores que aceitam tanto o vírus humano, quando o da ave, podendo, dentro do porco, fazer uma recombinação e sair outro subtipo. Por isso a importância de perguntar para o Ministério da Agricultura: vocês estão fazendo o monitoramento,  principalmente num país que tem tantas granjas de suínos e aves, porque podem existir essas recombinações”.
Ela lembra que novas recombinações de vírus ocorreram na Ásia. E cita o exemplo da China, onde mercados populares concentram porcos e aves, restos de comidas e aves migratórias que param para comer. “É um cenário ideal para acontecer um novo subtipo de vírus Influenza”.
A gripe também pode ser passada pelo contato direto com aves ou suínos, mas são casos raríssimos. Marilda comentou sobre o vírus H7N9, que está circulando na Ásia, através do contato por aves para o homem. “Felizmente, quando sai de uma espécie e vai para outra, o vírus precisa de um tempo de adaptação. Por isso, por enquanto, este vírus ainda não está sendo transmitido”, ressaltou.
Mas por que existe gripe o ano inteiro? “Depende do local, nos países do hemisfério norte, é uma doença do final de outono, pico em janeiro. No Brasil, é outono, fazendo pico no inverno, em julho. Na região norte, em áreas tropicais, a sazonalidade não está definida, faz pico nas estações chuvosas de janeiro e fevereiro. Mas existe o vírus circulando em menor intensidade o ano todo. Por isso, a composição da vacina muda anualmente”, esclareceu.
“O vírus é muito mutante, pode mudar ano a ano. É diferente de outros que são estáveis e não mudam de genoma. A vacina antigripe não e o sonho de consumo, é a disponível, é uma imunidade baixa, em torno de seis a 10 meses, não fica protegido por muito tempo.

Tratamentos miraculosos para a gripe

Algodão com álcool no pescoço, chás caseiros, canja de galinha,  vitamina C. Será que isso resolve? “Quem prepara em casa um bom suco de laranja não precisa chegar na farmácia e comprar uma caixa de vitamina C. Tem gente que responde bem. Pode tomar o chá, não tem problema, está se hidratando, se alimentando bem, isso que importa. Mas o tratamento para gripe é se hidratar. E procurar um médico se achar que está com dificuldade respiratória. Não se automedique, não vá na conversa de ter que tomar vitamina”, ressalta.
No entanto, existem vários medicamentos antivirais, produzidos com os vírus Influenza, como o Tamiflu (zeotamivir), que está disponível na rede pública e na rede privada, para pacientes com comorbidade e quadros clínicos em que o médico pode recomendar.
“Existem vários estudos e tem alguns contra e outros a favor. Eu sou a favor, fazer saúde pública é dar ao paciente aquilo que daria para o filho da gente. Se meu filho estivesse internado, eu daria. Há várias evidências de que funciona bem, para diminuição da gravidade, muito mais que a duração de seis horas a menos no quadro gripal que alguns estudos indicam. Deve ser tomado nas primeiras 48 horas do início dos sintomas, podendo ir a até 96 horas, e se este é um quadro grave”, ressalta.
Gripes mal curadas podem causar bronquites e sinusites? Estas são complicações da gripe, criou campo fértil para estas complicações. No caso do lúpus, é preciso ouvir o médico. O uso de antitérmico é recomendado quando tem febre alta, mas aconselha-se a não tomar Aspirina. Idosos também podem tomar vacina da pneumonia e da gripe juntas

Sintomas da gripe

A característica principal do vírus influenza é a a febre alta, acompanhado de tosse seca ou dor de garganta, e sintomas como mialga, prostração. Aqui no Rio já teve circulação de dengue junto com influenza. A dor no corpo é tão forte, cansaço, mal estar, é muito característico. O resfriado comum dá coriza, febre não tão alta ou nem tem e o mal estar não é tão generalizado.
No Brasil, como não temos inverno tão rigoroso, temos o hábito de sair e trabalhar, mesmo estando gripado. O que é um erro. O corpo pede repouso, necessita de período de recuperação, ficar em casa, se hidratando, com alimentação mais regular. Esse período de descanso paara o corpo é importante para ter recuperação mais rápida.

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