Entenda o câncer colorretal que matou o ator Chadwick Boseman

Protagonista de ‘Pantera Negra’ lutava há quatro anos contra o câncer colorretal. Falta de diagnóstico pode agravar doença entre mais jovens

O ator Chadwick Boseman, 42, protagonista do filme "Pantera Negra", morreu nesta sexta-feira (28/8/20), de câncer de cólon (Reprodução de internet)

O ator e diretor Chadwick Boseman, de 43 anos, perdeu a luta que travava há quatro anos para vencer o câncer de cólon, também conhecido como câncer de intestino ou colorretal. A morte do protagonista de Pantera Negra nos cinemas na noite da última sexta-feira (28), em Los Angeles (EUA), causou comoção no mundo inteiro e também espanto, já que ele não havia revelado a doença. Enquanto gravava séries e filmes, ele se submeteu a cirurgias e sessões de quimioterapia na tentativa de conter a doença.

O câncer de cólon representa os tumores que se iniciam na parte do intestino grosso chamado cólon e no reto (final do intestino e no começo do ânus) e ânus. Em raras ocasiões pode ser encontrado no intestino delgado. Na maioria dos casos, a doença acomete o intestino grosso (cólon) e reto. Em todo mundo, corresponde a 10% de todos os novos casos da doença. Como está relacionado com a alimentação, o país com o maior número de casos, é o que consome mais comida industrializada: os Estados Unidos. 

No Brasil, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer de cólon e reto é o terceiro mais frequente em homens e o segundo entre as mulheres brasileiras, excetuando o câncer de pele não melanoma. Em 2018, foram 36.360 novos casos, aumento de 6% em relação ao ano anterior, de acordo com o Inca. Foram 17.380 novos casos na população masculina e 18.980 na feminina.

Historicamente, o câncer colorretal é mais comum em pessoas acima de 50 anos. Atualmente, a cada dez pacientes diagnosticados com câncer colorretal, três têm menos de 55 anos. Por isso, o grupo de risco compreende pessoas com mais de 50 anos, portadores de obesidade, sedentários, tabagistas e com histórico familiar da doença.

Ao longo da última década, tanto sua incidência quanto mortalidade estão reduzindo. No entanto, com base nas tendências recentes, um estudo prevê um aumento em 2030 de até 90% da taxa de incidência desse tipo de câncer em pessoas entre 20 e 34 anos.

Falta de diagnóstico pode agravar doença entre mais jovens

Um estudo divulgado em 2019 pela Colorectal Cancer Alliance, organização norte americana de apoio a pacientes com câncer colorretal, indicou que casos avançados da doença em pessoas com menos de 50 anos foram, inicialmente, mal diagnosticados. A pesquisa mostrou ainda que 70% dos pacientes, precisou procurar mais de um médico para obter o diagnóstico da neoplasia.

Marcos Belotto, gastrocirurgião do Hospital Sírio Libanês, chama atenção para o aumento significativo da doença em pessoas mais jovens. “Estudos já mostram uma possível relação desse aumento com hábitos como obesidade, sedentarismo, e consumo de alimentos considerados inflamatórios, como excesso de carne vermelha e alguns alimentos processados”, alerta.

A pesquisa aponta também informações importantes a respeito dos principais fatores de risco do tumor de intestino. “Cerca de 30% dos entrevistados no estudo relataram um histórico familiar de neoplasia, e 8% tiveram diagnóstico de síndrome de Lynch. Essa é uma síndrome que aumenta os riscos de desenvolvimento de câncer em geral”, detalha Belotto.

Além de analisar a dificuldade de diagnóstico do câncer colorretal, o artigo mostrou que muitos dos entrevistados demoraram para procurar ajuda médica. “Uma das informações mais alarmantes do estudo é o fato de que 60% dos entrevistados demoraram em 3 e 12 meses para procurar auxílio médico, e isso porque, não reconheciam esses sintomas como um possível câncer, por isso é importante procurar ajuda assim que os sintomas começarem e ficar atento aos exames de prevenção”, frisa o especialista.

Maus hábitos de vida são fatores de risco

O oncologista Artur Ferreira, do Centro de Oncologia do Hospital 9 de Julho, explica que o estilo de vida é um dos principais desencadeadores desse cenário. “Obesidade, sedentarismo, dietas ricas em carnes vermelhas, gorduras e álcool são as principais causas para uma pessoa desenvolver o câncer colorretal”, explica.

Indivíduos com esse perfil têm que fazer acompanhamento periódico. “Por isso, é importante manter a avaliação médica regular e por meio de exames complementares, como a colonoscopia”, acrescenta Dr. Artur.

De acordo com o médico endoscopista Marcelo Averbach, da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed), a alta incidência está relacionada à dieta e aos hábitos da população. “Praticar atividades físicas regularmente, não fumar, não abusar de bebidas alcoólicas e evitar alimentos defumados, enlatados, embutidos e com muito corante e conservante reduzem as chances de desenvolvimento do câncer”, explica.

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Atenção aos pólipos: colonoscopia é uma forma de prevenção

Por ser um tipo de câncer com incidência alta, o tumor colorretal exige algumas medidas de prevenção importante, listadas pelo gastrocirurgião. “A conscientização é um fator importante para a redução das mortes provocadas pelo câncer de intestino”, conclui.

Outra importante forma de prevenção é a detecção de lesões pré-câncer, por meio do rastreamento em populações assintomáticas. “A detecção de pólipos permite o tratamento e a prevenção da formação de um tumor”, diz. O diagnóstico é feito por exame de colonoscopia. “Se o câncer já estiver instalado, o procedimento permite que essa detecção seja feita de forma precoce, com melhores resultados em termos de mortalidade”.

A colonoscopia é um exame extremamente importante para a prevenção e detecção precoce de câncer colorretal, pois faz a análise completa do órgão. É por meio dele, inclusive, que o médico remove pólipos, lesões que, se não tratadas, podem levar ao câncer. O procedimento também é utilizado para estancar pequenos sangramentos nas paredes do cólon.

O rastreamento de lesão suspeita ou pólipos (tumor benigno que pode se transformar em câncer em 5 a 7 anos) é fundamental. Lesões formadas pelo crescimento desigual dos tecidos na parede do órgão, podem estar presentes em até 40% das pessoas acima dos 50 anos. “Por isso, o acompanhamento de perto por um médico especialista é fundamental”, finaliza Dr. Artur Ferreira.

Tumores do aparelho digestivo ainda são desconhecidos

Apesar da alta prevalência no Brasil, os tumores do aparelho digestivo nem sempre são conhecidos pela população em geral. O câncer colorretal (intestino grosso e reto) e outros tumores que afetam órgãos do aparelho digestivo como estômago, esôfago, pâncreas e fígado são tema central do II Congresso Brasileiro do Câncer do Aparelho Digestivo (Oncogi) neste fim de semana (dias 28 e 29 de agosto).

Com programação 100% virtual, o evento reúne importantes expoentes da Oncologia para falar sobre a contribuição da medicina de precisão para o tratamento de pacientes com diagnóstico de câncer. O II Ongogi é promovido pelas Sociedades Brasileiras de Oncologia Clínica (SBOC) e de Cirurgia Oncológica (SBCO).  https://www.oncogi.com.br/inscricoes.

Entre os temas em destaque no evento estão as principais técnicas de cirurgia minimamente invasiva, sequenciamento genético de nova geração, tratamento neoadjuvante (antes da cirurgia), adjuvante (depois da cirurgia), abordagens em tumor borderline e localmente avançados, terapias-alvo e outras abordagens de oncologia de precisão, diagnóstico anatomopatológico, patologia molecular e radioterapia.

Com Assessorias