Glaucoma: a ameaça silenciosa que afeta os olhos e pode levar à cegueira

Silenciosa, doença é uma das principais causas de cegueira no mundo. Oftalmologista fala sobre sintomas, diagnóstico e tratamento do glaucoma

O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) divulgou na semana passada dados que revelam queda de 30% no número de exames para detecção precoce de glaucoma, segunda causa da cegueira irreversível, atrás da catarata. A diminuição da quantidade de pacientes que vão às unidades de saúde ocorreu em função do isolamento social imposto pela pandemia e por medo de contágio pela Covid-19.

Quase 1,6 milhão de exames com essa finalidade diagnóstica deixaram de ser feitos somente no Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com a entidade, pelo menos 6,7 mil procedimentos cirúrgicos que poderiam reverter e tratar a doença, também deixaram de ser feitos em 2020, como mostrou a Agência Brasil.

A pesquisa “Um olhar para o glaucoma no Brasil”, divulgada pelo Ibope Inteligência, mostra que quatro em cada dez brasileiros não sabem o que é glaucoma. Entre os jovens (18 a 24 anos), 53% desconhecem esse problema de visão, e o índice alcança 71% entre adultos com mais de 55 anos.

A falta de informação da população sobre o assunto é uma razão que favorece o diagnóstico tardio do glaucoma. Com o objetivo de conscientizar a população para esse sério problema de saúde ocular e estimular o diagnóstico precoce para evitar perda da visão, anualmente é realizada a campanha Maio Verde, marcando o Dia Nacional de Combate ao Glaucoma (26/5).

Aumento da pressão ocular

O glaucoma é uma neuropatia óptica que não tem cura, mas que pode ser controlada com tratamento adequado e contínuo. A doença é progressiva, assintomática até seus estágios avançados e, se não for tratada, provoca lesões irreversíveis. Quanto mais precoce for o diagnóstico, maiores serão as chances de conter o glaucoma.

Há fatores de risco que favorecem o aparecimento da doença, como aumento da pressão intraocular, idade avançada, hipertensão arterial, miopia elevada, raça negra, diabete e hereditariedade.

Imperceptível no início, essa grave doença dos olhos é resultante do aumento da pressão intraocular, que destrói aos poucos o nervo óptico, mas pode ser detectada e diagnosticada antes que aconteça a perda de visão em algum grau, e controlada com uso diário de colírios, laser ou cirurgia, se necessária. Quanto mais precoce o diagnóstico, mais eficaz é o seu tratamento. 

A elevação da pressão intraocular, de forma aguda ou crônica, danifica o nervo óptico, a estrutura no fundo do olho formada por fibras da retina (órgão que transforma o estímulo luminoso em nervoso para formar as imagens no cérebro).

Ela é regulada pelo balanço entre a produção e o escoamento do humor aquoso (fluido incolor que tem a função de nutrir a córnea e o cristalino) presente na câmara anterior do olho, entre a córnea (membrana fina e transparente que recobre o olho) e a íris (a área colorida). Quando há dificuldade no escoamento desse líquido pelo estreito canal, a pressão intraocular sobe.

Mesmo pessoas com pressão intraocular dentro do parâmetro considerado normal (até 20 mmHG) em uma primeira medição, devem fazer a consulta de rotina anual ao oftalmologista, inclusive em um cenário de pandemia da Covid-19. Idade acima de 40 anos, história familiar de glaucoma, um valor de pressão intraocular constantemente próximo ao limite, alta miopia e córnea fina, além de diabetes não tratada, uso crônico de medicamento corticoide, estresse crônico e estilo de vida inadequado (má alimentação e sedentarismo) são fatores de risco para o glaucoma.

“O glaucoma é controlado a partir do diagnóstico precoce”, diz a oftalmologista Mara Fontes, especialista em glaucoma da EyeCenter Oftalmologia (do Grupo Opty). Segundo a médica, “precisa haver perda entre 40 a 50% das células ganglionares da retina para haver alteração no campo visual. Por isso, é necessário que todos façam exames oftalmológicos periódicos de pressão intraocular, do nervo óptico, das células ganglionares e do campo visual para verificar a saúde ocular”, ressalta a médica.

A maioria dos casos poderia ter sido evitada com a prevenção no pré-natal, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado com oftalmologista.  “Atualmente, sair de casa, vale lembrar, é sempre um risco para o contágio pelo Sars-CoV-2. Porém, o perigo de ir ao consultório do oftalmologista é muito menor que, por exemplo, fazer compras em um supermercado”, compara a médica.

Tratamento no SUS

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece consultas, exames de diagnóstico, acompanhamento, tratamento oftalmológico e cirurgias para alguns casos. Alguns medicamentos estão no programa Farmácia Popular. Desde 2020, o SUS possui na lista de exames disponíveis a Tomografia de Coerência Óptica – uma tecnologia computadorizada de imagem que compara as medidas das fibras nervosas dos olhos com parâmetros de um olho saudável. O exame revela imagens de vários aspectos e várias camadas da retina e, a partir dessas imagens, é possível fazer o diagnóstico correto. 

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A convite da marca de óculos Zeiss, o oftalmologista Vital Paulino Costa, professor e chefe do setor de glaucoma da Unicamp e um dos mais renomados especialistas na área no Brasil, fala sobre a doença e explicar a importância do diagnóstico precoce do glaucoma.

O que é o glaucoma?
O Glaucoma é uma doença ocular causada principalmente pela elevação da pressão intraocular que provoca lesões no nervo ótico e gera comprometimento visual. Se não for tratado adequadamente, o glaucoma pode evoluir para perda total da visão (cegueira irreversível).

E quais o tipos de glaucoma?
Existem diversas formas de glaucoma, sendo que o mais comum é o ‘glaucoma de ângulo aberto’ (crônico), correspondente a aproximadamente 80% dos casos da doença. Ele é causado por uma alteração anatômica na região de drenagem do líquido interno do olho, o que aumenta a pressão ocular. Já o ‘glaucoma de ângulo fechado’ pode ocorrer de forma aguda, originando um aumento rápido, doloroso e grave na pressão intraocular.

O ‘glaucoma congênito’, como o nome já diz, é herdado geneticamente e pode se apresentar logo ao nascimento. Este tipo de glaucoma é raro e, se descoberto, deve ser tratado imediatamente. Geralmente aparece em crianças até 3-4 anos. Crianças com glaucoma congênito apresentam fotofobia, lacrimejamento e aumento do tamanho do globo ocular. Já o ‘glaucoma secundário’ é aquele que apresenta uma causa bem definida para o aumento da pressão intraocular, como trauma, inflamação, ou um tumor intraocular.

Quais os principais sintomas da doença?
O glaucoma é uma doença assintomática em grande parte dos casos. Por isso, o glaucoma só será percebido quando já em estágio avançado. Nos casos mais graves, os sintomas da doença podem incluir comprometimento da visão periférica, podendo gerar uma visão tubular e, subsequentemente, levar à cegueira. Para permitir a detecção precoce, é fundamental fazer o acompanhamento periódico junto ao oftalmologista.

Como é feito o diagnóstico?
Somente o oftalmologista pode realizar o diagnóstico correto, por meio de exames de fundo de olho e do nervo óptico, aferição da pressão intraocular e detecção de alterações no campo visual. Para um diagnóstico precoce, é importante realizar consultas regularmente com o oftalmologista. A partir dos 40 anos, os exames devem ser anuais, especialmente em pessoas que tem fatores de risco para glaucoma, como histórico familiar, apresentar alta miopia (maior que 6 graus) ou ser afrodescendente.

E qual tratamento para o glaucoma?
O tratamento indicado vai depender do tipo e de quão severo é o glaucoma. Por isso, diagnosticar a doença com precisão, bem como identificar rapidamente sua progressão é fundamental. Nos casos de glaucoma de ângulo aberto, o tratamento mais comumente indicado é baseado no uso de colírios que reduzem a pressão intraocular. Para o glaucoma de ângulo fechado, além do uso dos colírios, podem ser realizados procedimentos a laser e medicações por via oral ou endovenosa. Já nos casos de glaucomas congênito, bem como em casos mais graves, que não respondem ao tratamento medicamentoso, se faz necessária a intervenção cirúrgica.

E as pessoas devem procurar o oftalmologista mesmo durante a pandemia?
Com certeza! A saúde ocular não deve ser colocada em segundo plano, sobretudo em pacientes que já possuem diagnóstico de glaucoma ou outras doenças oculares. É fundamental manter a rotina de consultas ao oftalmologista, seguindo sempre as recomendações da OMS, como o uso de máscara e álcool gel. Nos consultórios, é importante verificar sempre se os equipamentos foram previamente higienizados, mas essa é também uma preocupação constante dos médicos, que adotam rigorosos protocolos de biossegurança para garantir o bem-estar de seus pacientes. Em caso de dúvida, basta pedir para que os equipamentos sejam higienizados no momento dos exames.

Cegueira em dados

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 64 milhões de pessoas em todo o mundo tenham algum tipo de deficiência visual devido ao glaucoma. Nesse grupo, 6,9 milhões de pessoas apresentam dificuldade de visão moderada, grave ou total, resultante das formas mais graves do glaucoma. A doença deve afetar 111,8 milhões de pessoas em 2040, segundo a OMS.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em dezembro de 2019, mostram há mais de 6,5 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência visual. Deste total, 600 mil pessoas são cegas e estima-se que 900 mil sofram de glaucoma.

De acordo o documento “As Condições da Saúde Ocular no Brasil”, publicado pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO, 2019), a prevalência da cegueira – de diferentes formas – na população brasileira, segundo o IBGE, é estimada em 1.577.016 (somando crianças, adolescentes e adultos), sendo 859.416 nas classes B e C, 543.600 na faixa mais pobre e o menor índice, 174.000, no grupo rico. 

Com Assessorias

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