Morte de professor em sala de aula abre debate sobre saúde mental nas escolas

Professor se enforcou dentro da sala de leitura. Colegas contam que ele sofria de depressão. Psicanalista fala da banalização da doença e critica medicalização

Rosayne Macedo
Gil era professor de Educação Física (Foto: Reprodução de internet)

‘Escola, espaço da troca, conhecimento, construção de laços afetivos, criações… Mas, neste dia 15, à tarde, recebemos a triste notícia da morte do professor Gilberto Gil, dentro da sua UE. Professor lutador, ótimo profissional da Educação, mas que infelizmente não exercerá mais o ofício do Magistério entre nós e nossos alunos, profissão que, com certeza, abraçou dignamente. A Regional VI do Sepe se solidariza, neste momento de muita dor, com a família e comunidade escolar da EM Maria Florinda Paiva da Cruz. Prof. Gil Presente! Agora e Sempre!’

Com esta mensagem pública, o Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro (Sepe-RJ) comunicou a morte do professor que era querido pelos colegas e pelos alunos da Escola Municipal Maria Florinda Paiva da Cruz, no bairro de Jacarepaguá. Gil, como era conhecido, se enforcou dentro da sala de leitura na última quinta-feira (15).

Gilberto Gil era professor de Matemática (Foto: Reprodução de internet)

Quando, mais um, professor morre, este leva consigo uma parte significativa de ensinamentos e novos aprendizados ficam suspensos na atmosfera da vida”, escreveu Ricardo Rigope no Facebook da escola, em homenagem a Gil. “Muito triste com a notícia professor era um excelente professor carinhoso e dedicado aos alunos foi professor da minha filha em 2017 esse vazio que o levou a isso que só DEUS pode preencher😪”, publicou Danielle Rodrigues, mãe de aluna.

Gil era professor de Matemática, mas estava afastado das atividades nas salas de aula por questões de saúde. Segundo informações compartilhadas por professores, além da depressão, enfrentava o tratamento de um aneurisma. Readaptado, atuava, ultimamente, na sala de leitura, onde tirou a própria vida.

O caso chocou toda a comunidade escolar e abriu um debate sobre a delicada questão da saúde mental dos professores e funcionários da rede pública de ensino – veja comentários abaixo. Afinal, estariam eles preparados para sofrer as pressões que a atividade exige, em um ambiente e condições de trabalho muitas vezes não apropriados ou mesmo hostis, e, ainda assim, oferecer o suporte necessário a jovens estudantes que cada vez mais se tornam também vítimas de transtornos emocionais?

No mês passado, um jovem estudante de 18 anos se jogou do sétimo andar do prédio onde morava, na Tijuca. O caso também deixou o colégio particular onde estudava em estado de choque. Estudantes e pais de alunos chegaram a elaborar um abaixo-assinado, exigindo mais psicólogos. Procurado pelo ViDA & Ação, o colégio não quis se manifestar a respeito das medidas tomadas após a mobilização.

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‘Depressão ainda é vista como preguiça ou desleixo’

Isolamento, ansiedade e desânimo crônico estão entre os sintomas comuns para quem convive com depressão, mas a reação à doença é algo bem particular e em muitas pessoas diagnóstico é difícil. Só no Brasil, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), já existem cerca de 12 milhões de pessoas com depressão, sendo esse o maior número da América Latina, ficando atrás somente dos Estados Unidos. Outro dado, segundo a organização, a depressão será a doença mais incapacitante do mundo até 2020.

Para Guilherme Fainberg, médico psicanalista, a depressão muitas vezes não é vista como doença, mas como preguiça, desleixo ou capricho. “A maneira pela qual é tomada a doença, lembra em muitos aspectos o ‘’passado’’, porque o juízo de valor emitido entra no mérito, na intenção e no caráter do individuo”, ressalta.

Segundo ele,  “há uma banalização da doença e um certo relativismo por uma concepção de tempo distinta. Não se tem o direito ao adoecimento, o excesso de rigor diante do ser fragilizado pela doença ou patologia faz com que este se sinta ainda pior e muitas vezes cometa o suicídio”.

Para o especialista, é necessário ampliar o conceito do auto-perdão. “Vivemos em uma época, aonde precisamos fazer o máximo possível, no menor tempo. Adoecemos assim, por expectativas irreais. Nossos corpos não suportam a falha e o tempo natural das coisas. Não nos perdoamos por errarmos, quando poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tao bons, como diria Sigmund Freud, médico neurologista criador da psicanálise. Quando tem-se que escolher uma coisa entre dez, muitos, celebram o infortúnio da certeza que perderam nove. Nos tornamos neuróticos pelo eterno descontentamento”, afirma.

Banalização da doença x excesso de medicação

O profissional também critica o excesso de medicalização da doença. Segundo ele, nas cidades grandes, capitais, regidas pela primazia da eficácia, qualquer mal como tristezas ou frustrações (que precisam ser vividas, ganham rótulo de depressão, há uma banalização da dor necessária e uma corrida para medicá-la. Nas cidades do interior, mais bucólicas, acontece o processo inverso. Há uma tolerância exagerada, inclusive em casos patológicos como depressão e psicose.

“Tristeza não é depressão. Necessitamos elaborar nossas perdas, nossos lutos, nossos infortúnios. Ultrapassá-los pensando repetindo e elaborando acerca dos fatos penosos que nos acometem. A ‘medicalização’ dos sentimentos é uma prática comum e equivocada seja com drogas ilícitas ( que porventura ocupam este papel) ou lícitas que não deveriam ser prescritas em dadas circunstâncias”, comenta.

“Sem dúvida alguma, doenças existem. Mais do que isso, assolam e devastam vidas. Não escolhem raça, credo ou cor , simplesmente acontecem e são silenciosas de início. Cada caso deve ser entendido em seu contexto,através de uma ótica singular, levando-se em consideração desde aspectos culturais, orgânicos, epigenéticos e genéticos. Que ao final  desta avaliação o médico suficientemente bom possa, com zelo e extremo bom senso, diferenciar aquilo que é normal do que é patológico em cada um”, finaliza o especialista.

Professores e jornalista criticam o ‘sistema’

Existe na educação escolar uma fragilização dos que a ministram. Um professor ou professora recebem diariamente forte desqualificação pessoal e profissional. O contexto atual corrobora para tal situação. A escola está defasada de valores. O professor devendo ser um mediador do conhecimento, acaba por cumprir funções para as quais não está capacitado. Refiro-me aos cuidados que deveriam advir da família, Estado, formação enfim. A Escola não dando conta de tais valores,faz o repasse de tais responsabilidades ao educador, gerando grande frustração por parte de todos os indivíduos que dela fazem parte. A insistente busca de se resolver problemas enfrentados dos quais não temos alcance vem causando o adoecimento da classe. Somos os que ainda acreditam que é possível fazer. Mas, antes, existe um processo de desmonte social. É preciso, acredito, repensar a sociedade e redefinir metas” (Elisabete Ribeiro de Meirelles, professora)

“Ontem um professor da rede municipal do Rio cometeu suicídio, dentro da escola. Pensei aqui em como a gente tem descuidado dos nossas colegas de profissão. Como a gente se enfia no nosso próprio mundo e não se envolve, de fato, com aqueles que passam grande parte do tempo ao nosso lado. Eu não sei o que vai ser desse país, mas esse sistema já nos massacra há muito tempo. Por isso, penso que precisamos sorrir e chorar mais com nossos colegas. Tomar pra gente o peso que o “paralisa”, ou “acelera”. Parar e ouvi-lo, não importa o que estejamos fazendo no momento. Não pretendo fazer um discurso moral, só não quero perder mais um professor. A gente faz muita falta, acredite! 😢 #ProfessorGilpresente””, escreveu uma professora em um grupo de whatsapp.

“Na minha trajetória já tive amigo professor que morreu de derrame, ataque cardíaco por falta de pagamento, assassinado por dever dinheiro a agiota, suicídio, câncer e assalto a mão armada, além de fãs amigas com violência doméstica. E em todas as vezes me vi em todas as situações… (…) O que leva um professor de Educação Física, um profissional, um educador, a cometer um ato extremo contra a própria vida DENTRO DA SALA DE AULA QUE ELE TRABALHAVA???”, questionou outra professora.

“O que leva um professor de Educação Física a se enforcar na sala de aula?”. (…) “Porque o SISTEMA está executando os nossos vizinhos.. A falta de comida no prato. A falta de dinheiro para comprar remédios. A grana que falta para a passagem de ônibus ou BRT. A falta de perspectiva para o futuro dos nossos filhos. A ‘arminha’ aparece como uma corda no pescoço. E porque o professor fez\ isso na sala de aula? Porque ele afrontou o sistema que o fez subir na cadeira. Fica em paz”, escreveu o jornalista Ricardo França, sensibilizado com o caso.

Quando a morte leva um professor (por Ricardo Rigope)

Quando um professor morre,
uma árvore-de-esperança
perde as folhas,
o solo-nutriente ao redor empobrece
e a paisagem fica triste, cinza e empoeirada.

Quando, mais um, professor morre,
este leva consigo
uma parte significativa de ensinamentos
e novos aprendizados ficam suspensos
na atmosfera da vida.

Quando a morte leva um professor,
ela insiste em plurificar
e pluralizar
a sua mensagem de esperança,
a sua mensagem para um amanhã digno,
onde olhares de crianças ascendem o que há.

Em cada retina infantl,
o professor não morre.
Ele renasce com luzes esclarecedoras
e poéticas.

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