Sexo forte, que nada! Eles também são vítimas de violência

Psicóloga explica que, assim como as mulheres, homens sofrem com relacionamentos abusivos, muitas vezes por parceiras que não aceitam o fim do romance. Neste caso, o silêncio e a vergonha também imperam

Rosayne Macedo
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Sexo forte, que nada! Em tempos de testosterona pura na política nacional, trazemos neste Dia Internacional do Homem (19 de novembro) dados que indicam que eles também são vulneráveis. E não é só em relação à saúde – afinal, eles morrem sete anos mais cedo que as mulheres, muitas vezes porque não se cuidam. Assim como as mulheres, os homens estão sujeitos a sofrer com um ‘relacionamento abusivo’.

Este termo usado muitas vezes para disfarçar palavras mais duras como agressão física e violência doméstica  passou a ficar cada vez mais em evidência com as estatísticas crescentes de violência contra a mulher num país dominado pela cultura machista e misógina, que leva a vergonhosos números de feminicídio  uma pauta social é de extrema relevância para sensibilizar a sociedade e buscar punição para os agressores.

Tema ainda pouco debatido,  a violência física e psicológica sofrida por homens dificilmente toma o mesmo contorno dos casos em que mulheres são vítimas. Um destes fatores é o machismo, o mesmo que vitimiza tantas mulheres, mas em um efeito reverso – como vergonha de denunciar sua companheira, chantagens emocionais e, caso envolva filhos ou bens materiais.

Todo ser humano está propenso a sofrer relacionamentos abusivos, em sua maioria mulheres e crianças” explica a psicóloga Miriam Farias, especialista em hipnose clínica.

Ciúme e desconfiança por trás de agressões

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Nem sempre as agressões são físicas: podem ser verbais, psicólogas e até difamação (Foto: Reprodução de internet)

Nem sempre as agressoras usam da força física, que seria desproporcional. Além de bofetadas, arranhões e uso de arma branca, como facas e objetos domésticos, muitas lançam mão de calúnia, difamação e até fofoca familiar para destruir o companheiro, geralmente motivadas por ciúmes e desconfianças.

Assim como eles, muitas mulheres também não aceitam o final de um relacionamento, e passam perseguir e “infernizar” a vida do ex- companheiro. Inventam falsa gravidez para tentar “manter o relacionamento”.  Se for um casal que tiver filhos dificulta visitas e, podem até mesmo criar uma imagem negativa do ex-companheiro para as crianças – a chamada “alienação parental”. Outras mulheres ameaçam entrar na justiça, como punição, para conseguir bens materiais, com a famosa frase “Vou tirar tudo que você tem”.

De acordo com a psicóloga, a cultura popular brasileira banalizou os casos de agressões com os homens, inclusive, tornando crimes meras brincadeiras, como ameaças das esposas de envenenar a comida, jogar óleo ou água quente enquanto o companheiro estiver dormindo e até mesmo “cortar o pênis” caso, o “cara” “faça algo errado”.

É inadmissível qualquer tipo de tortura (física ou psicológica), independentemente do gênero”, reitera Miriam Farias.

63% já sofreram ‘violência afetiva’

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Há casos de mulheres que usam até utensílios domésticos para agredir companheiros (Foto: (Reprodução de internet)

Diante da ausência de dados oficiais no Brasil sobre a violência conjugal contra os homens, realizou-se um questionário no Google Forms, disponibilizado em redes sociais (páginas e grupos do Facebook), para o público masculino responder.

Participaram da enquete online 833 homens, entre os dias 14 e 24 de abril de 2018. O resultado foi  publicado pela Revista Eletrônica Âmbito Jurídico. Veja alguns resultados:

Já sofreu algum tipo de violência nas relações intimas de afeto? 63,6% sim (521 pessoas); 15,6% talvez (128 pessoas) e 20,8% não (170 pessoas)

Justifica tudo o que faz, e quando se  esquece ou não tem tempo, ocorrem brigas? (ou já passou por isso em algum relacionamento?) 78,6% sim (629) e 23,3% não (190)

Não pode estar com amigos ou sua família porque ela tem ciúmes? (ou já passou por isso em algum relacionamento?) 63% sim (516) e 37% não (303)

A mesma mulher praticou mais de uma dessas condutas e em momentos diversos? 81,4% sim (667) e 18,6% não (152)

Pode relatar o que sentiu após a violência sofrida, praticada ou retribuída? Só no espaço aberto do questionário foram 464 relatos, além de outros em redes sociais.

Por meio do questionário verificou-se que os próprios homens não sabem identificar a violência afetiva – na primeira pergunta 63,6% (521) disseram que sofreram violência afetiva. Ao final do questionário, o número elevou-se para 75,3% (615). Um grande percentual naturaliza como comportamento feminino a invasão de privacidade, perseguição, posse, tapas, ser atingido por objetos e destituído de contato com a própria família, amigos e lazer individual.

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Lei Maria da Penha para proteger os homens

O American Journal of Preventive Medicine, coordenado pelo médico americano Robert J. Reid, ouviu mais de 400 homens aleatoriamente, por telefone, em 2017. De acordo com o levantamento, 5% deles afirmaram ter sido vítimas da violência doméstica no último ano; 10% nos últimos cinco anos e 29% em algum momento da vida.

Diferentemente do Brasil, talvez até por uma questão cultural imposta por nossa sociedade machista, alguns países levam a sério o atendimento aos homens vítimas de relacionamentos abusivos, como Estados Unidos, Canadá e Reino Unido. As ONGs internacionais Men’s Advice Line e ManKind Initiative também prestam auxílio. Em Portugal, 10% das denúncias na rede de apoio à vítima são de homens.

No Brasil, a Lei Maria da Penha já foi aplicada para proteger homens de suas cônjuges: a Justiça julgou essa importância, em casos extremos.

 

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