Um livro para mulheres que vivem a violência velada do dia a dia

Em ‘Há muitas formas de se fazer macarrão e outras brutalidades’, professora revela violência psicológica vivida silenciosamente por 20 anos

Autora de livros infantis, Georgina Martins rompeu o silêncio após a morte do marido e escreveu obra sobre violência psicológica vivida por 20 anos (Foto: Divulgação)

Professora de Literatura e escritora, a carioca Georgina Martins sofreu com a violência psicológica no ambiente doméstico ao mesmo tempo em que criava três filhos e cuidava de sua carreira. Após a morte do marido, com quem viveu por mais de 20 anos em meio a inúmeras oscilações de humor que contaminavam toda a família e até seu trabalho, ela decidiu abrir os bastidores de sua vida conjugal no livro “Há muitas formas de se fazer macarrão e outras brutalidades”.

A obra foi lançada nesta semana em que se lembra o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres (25/11) – criado em 2008 pela Organização das Nações Unidas (ONU) – e a campanha pelos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra Mulheres e Meninas, que está completando 30 anos.

O corajoso relato de Georgina traz à luz um debate sobre um tipo de violência velada que muitas mulheres vivem no dia a dia e que ainda é pouco compreendida por muitas pessoas: a violência psicológica, um dos cinco tipos de crimes descritos na Lei Maria da Penha – os outros são violência física, moral, sexual e patrimonial.

“Escrever esse livro foi uma forma que encontrei de tentar entender que durante quase vinte anos vivi uma relação doente, abusiva. Uma relação pautada por muito amor e muito ódio. A violência que vivi nesse período não era física, mas psíquica; nesse sentido uma violência invisível, que não deixa marcas aparentes, mas que mina nossas forças e nos impede de sair da relação””, afirma a autora à seção  ‘Ler Faz Bem’, do Portal ViDA & Ação.

‘Ele se portava como um filho rebelde, um narcisista’

Georgina conta que sempre foi atraída por homens inteligentes, falantes, bem humorados, elegantes. “Tudo que meu marido era quando nos conhecemos e começamos a namorar. Ocorre que com a convivência, ele se mostrou uma pessoa com graves problemas de adaptação à vida doméstica, se portando muito mais como um filho rebelde, um narcisista”, relembra.

Aos poucos, diz a professora, as manias do marido foram aparecendo e invadindo o cotidiano da família e transformando a vida de todos que viviam sob o mesmo teto. “Eu que nunca gostei de mau humor, convivi por 20 anos com um homem, cujo temperamento era extremamente difícil”, diz ela.

E prossegue seu relato – que pode ser representar a dor silenciosa de muitas mulheres nos lares brasileiros. “Ele foi se tornando um tirano comigo e com os filhos. Tudo isso está no livro, que só consegui escrever depois que ele morreu, mas até hoje sonho com ele vivo e eu tendo que esconder o livro”, conta a autora.

Para ela, “a literatura restaura nossa psiquê e pode nos ajudar a curar a dor”. E foi por esse motivo que ela resolveu escrever esse livro. “Eu quis escrever essa história para poder alcançar outras mulheres, que também vivem a violência psicológica velada em suas relações como eu vivi”, destaca Georgina.

Sofrimento contaminava a família e até o trabalho

A inquietante obra narrada em primeira pessoa fala diretamente à experiência de tantas mulheres que sofrem não com a violência física, mas a nefasta violência psicológica e sutil que se interpõe no cotidiano do casal e vai enraizando até que sua toxicidade contamine a todos, inclusive os próprios filhos. 

Além do sofrimento silencioso, Georgina enfrentou dificuldades no local de trabalho para lidar com a situação doméstica. “Na época, não tínhamos essa abertura nas empresas, mas hoje, muitas delas já abrem espaços para o diálogo, que podem contribuir para a guinada na vida emocional e impactar positivamente a profissional”, comenta.

Para a autora, as empresas deveriam propiciar ambientes de diálogo, com apoio de psicólogos, para que as mulheres pudessem expressar seu conteúdo emocional, já que ele impacta diretamente no desempenho profissional.

Sobre a autora

Georgina Marins é doutora em Literatura brasileira e especialista em Teoria e Crítica da literatura infantil e Juvenil (Foto: Divulgação)

 

Doutora em Literatura brasileira e especialista em Teoria e Crítica da literatura infantil e Juvenil, Georgina Martins também é autora de O Menino que brincava de ser, Minha família é colorida, Uma maré de desejos, Em busca do mar, entre outros títulos. A escritora também é colunista da Revista Ciência Hoje.

Serviço:

Livro: “Há muitas formas de se fazer macarrão e outras brutalidades”

Autora: Georgina Martins – Instagram @martins_georgina

Editora: Patuá

Onde comprar: veja aqui

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