Uso excessivo de celular e computador pode causar miopia

Falta de atividade ao ar livre e excesso de açúcar também provocam dificuldade de enxergar à distância. Alta miopia (acima de 6 graus) já atinge 6 milhões de brasileiros

Esta semana fui surpreendida pela notícia de que uma amiguinha da minha filha, de 12 anos, terá que usar óculos constantemente porque o oftalmologista identificou uma miopia de grau 4. “Não sei como ela está enxergando na sala de aula”, disse o médico para a mãe. E foi categórico: o problema é causado por excesso do uso de celular e computador. Rebeca já escolheu o modelo que quer usar: serão de aro dourado com pedrinhas. O importante agora é tratar logo para evitar a progressão da miopia.

Um estudo com 360 crianças de 6 a 9 anos, conduzido pelo oftalmologista Leôncio Queiroz Neto do Instituto Penido Burnier em Campinas (SP),  mostra que a miopia em graus elevados (acima de 6) pode estar relacionada ao excesso de esforço visual para perto, geralmente imposto por horas em frente às telas eletrônicas. É a miopia acomodativa, uma dificuldade temporária de enxergar à distância que pode se tornar permanente se o hábito não for modificado.

Dados epidemiológicos do CBO (Conselho Brasileiro de Oftalmologia) mostram que nos últimos dez anos o número de crianças que precisa usar óculos de grau passou de 10%¨para 20%. De acordo com o oftalmologista, um mutirão realizado pelo hospital no ano passado mostra que a miopia, dificuldade de enxergar à distância é hoje o vício de refração mais frequente na infância. Só para ter ideia, dos 583 participantes que precisavam usar óculos, mais de 4 em cada 10, 44%, eram míopes.

“Há dez anos, a hipermetropia, dificuldade de enxergar próximo, era o problema de visão mais encontrado nas crianças”, observa. Para ele o que tem impulsionado o crescimento da miopia é o esforço para enxergar de perto imposto pelo uso precoce da tecnologia. “O olho da criança está em desenvolvimento até os 8 anos e os músculos ciliares que movimentam nosso cristalino para frente e para trás se acomodam”, explica.

O esforço visual prolongado para enxergar de perto  levou causou miopia em 21% das crianças contra a prevalência de 12% apontada pelo CBO (Conselho Brasileiro de Oftalmologia). O médico afirma que em crianças a visão está em desenvolvimento e a contração prolongada dos músculos ciliares para focar as telas eletrônicas inibe o relaxamento dessa musculatura e leva à miopia acomodativa.

É diferente da miopia patológica em que o eixo da visão cresce. “Por isso, pode ser revertida com descanso dos olhos, mas pode se torna um mal permanente se a criança permanecer diariamente por mais  duas horas olhando para as telas eletrônicas”, afirma.

Mais atividade ao ar livre e menos açúcar

É por isso, pondera, que diversos estudos internacionais incentivam as atividades ao ar livre para conter a miopia. Um estudo americano mostra que a falta de atividade ao ar livre pode causar miopia. Isso porque, explica, a maior iluminância dos ambientes externos faz a pupila contrair e ajuda aprofundar o foco. O excesso de açúcar na alimentação, observa o médico, eleva a produção de insulina e favorece o crescimento do eixo óptico que caracteriza a miopia.

Neste Abril Marrom, destinado à conscientização sobre doenças oculares que podem levar à cegueira, especialistas recomendam que crianças devem descansar os olhos após uma hora de uso do celular, tablet ou computador, olhando para um ponto distante por, no mínimo 30 minutos.

Além das atividades ao ar livre o oftalmologista destaca que as principais terapias para interromper a progressão da miopia são:  lentes especiais, colírio, lente ortoceratológica  e cuidado com a alimentação. Outra dica é controlar as guloseimas das crianças.

Problemas de visão são maior causa de baixo rendimento escolar

Queiroz Neto os problemas de visão são a maior causa de baixo rendimento escolar. Prova disso, é o resultado de uma pesquisa  realizada com 36 mil crianças que receberam consultas e óculos no hospital. Após um ano usando a correção visual 51% melhoraram  o rendimento escolar  e 57% o comportamento e a  concentração.

“Os óculos deveriam fazer parte do uniforme. Isso porque, a visão compromete o aprendizado e  57% das crianças com problemas visuais são desatentas e agitadas”, ressalta.

A última pesquisa sobre deficiência visual do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e  Estatística) mostra que no país até a idade de 14 anos 66,4 mil crianças são cegas e  297 mil têm grande dificuldade de enxergar.

Falta de óculos pode cegar

Queiroz Neto afirma que vício refrativo não é doença. Por isso a miopia, hipermetropia e astigmatismo não têm cura.  Ainda assim precisam ser corrigidos. A falta de lentes corretivas, salienta, pode levar ao estrabismo ou olho torto, devido ao excesso de esforço para enxergar. Até 8 anos também pode causar ambliopia ou olho preguiçoso, porque o cérebro faz a criança usar só o olho melhor, o  que leva à perda da visão no outro.

Como se não bastasse, relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) baseado no Global Vision Databases, banco de dados que analisou a saúde visual de 188 países, revela que a falta de óculos responde por 53% da deficiência visual no mundo contra 25% da catarata não operada, maior causa de cegueira evitável entre adultos. O relatório também mostra que os vícios de refração respondem por 63% dos problemas de visão em crianças.

Hoje, cerca de 6 milhões de brasileiros convivem com a alta miopia. Uma metanálise da OMS (Organização Mundial da Saúde) mostra que é a terceira causa de cegueira no mundo. O Brasil não fica atrás. A pesquisa da OMS revela que por aqui a prevalência da alta miopia sairá de 1,7% em 2000 para 7,1% em 2050. Um aumento de mais de quatro vezes, enquanto a miopia deve atingir um pouco mais da metade dos brasileiros, 50,7% em 2050 contra 14,7% em 2000.

Dor de cabeça leva crianças ao oftalmologista

A dor de cabeça é uma das principais causas das consultas oftalmológicas entre crianças. De acordo com o oftalmologista, quando um filho se queixa é a primeira especialidade consultada pelos pais. A boa notícia é que os problemas oftalmológicos só causam 1% da cefaléia na infância.

Ele diz que o problema geralmente resulta do stress ocular provocado pelo esforço visual no computador. Só para se ter uma ideia, o uso excessivo da tecnologia faz com que a incidência da dor de cabeça relacionada à visão salte de 1% para  30% na infância. É o que mostra um estudo feito pelo médico com 360 pacientes de 9 a 12 anos que chegavam a ficar 6 horas ininterruptas na frente do computador, videogame e outras tecnologias.

“É fácil identificar a cefaléia relacionada ao excesso de computador” afirma Queiroz Neto. Ele explica que geralmente surge depois de duas horas em frente a telinha. É caracterizada por uma dor tensional nas têmporas e pescoço. Cabe aos país, observa, orientar a criança para evitar as crises. Na maior parte dos casos a dor desaparece com descanso, olhando para o horizonte de 15 a 30 minutos  a cada hora na frente do monitor, e até fazendo uma caminhada pela casa. Se  não desaparecer, a recomendação é consultar um especialista

Hereditariedade também conta

O problema também pode ser causado pela hereditariedade quando um dos pais ou ambos são míopes. Queiroz neto ressalta que quando o assunto é miopia a hereditariedade determina, enquanto os fatores ambientais favorecem ou impedem o desenvolvimento. Embora a genética seja determinante, ressalta, não significa que necessariamente a miopia seja passada de pai para filho. Isso porque, explica, quando uma criança nasce, suas características físicas são determinadas em 50% pelos cromossomos da mãe e em 50% pelos cromossomos paternos.

Se apenas um dos pais é míope e o filho herda o gene dominante da miopia, tem 50% de chance de tornar-se míope.  No caso dos pais serem portadores do gene, mas não apresentarem a doença, a probabilidade de o filho ser míope cai para 25%. É isso que explica porque uma criança pode ter olhos normais mesmo que os pais tenham miopia”, conclui.

as na visão

As dicas do especialista para pais e professores de crianças com até 2 anos são observar se  tem falta de interesse pelo ambiente e pessoas, olhos vermelhos, secreção ou lacrimejamento constante, pupila muito grande, com reflexo, cor acinzentada ou opaca.

Nas crianças a partir de 3 anos os sinais de problemas na visão são:  tombamento da cabeça para um dos lados, dor frequente de cabeça ou no globo ocular , olhos desviados para o nariz ou para fora, esfregar os olhos após esforço visual e fechar um dos olhos em locais ensolarados.

Em crianças alfabetizadas os problemas visuais fazem com que  aproximem ou afastam muito o rosto da TV, livros ou caderno.

Uma primeira avaliação pode ser feita em casa através de um teste de visão autoexplicativo, disponível no site www.penidoburnier.com.br

Este teste não substitui a consulta médica. Por isso, se a criança tiver dificuldade antes da linha 8 da tabela a recomendação é consultar um oftalmologista.

Uso de lentes especiais reduz progressão em até 30%

Ensaios clínicos realizados na Ásia demostram que o uso de lentes com grau diferente na periferia e no centro reduz em até 30% a progressão da miopia. “Isso acontece porque este tipo de lente acompanha a curvatura da retina, enquanto as convencionais formam a imagem periférica atrás da retina. Resultado: Pioram a refração”, explica.

Crianças de 5 a 15 anos que apresentem aumento de 0,5 grau a cada seis meses também podem usar colírio de Atropina com concentração de 0,01%”, pontua. Ele diz que o colírio de Atropina encontrado nas farmácias têm concentração de 0,1%. “O uso do medicamento nesta concentração sem acompanhamento médico pode causar glaucoma”, adverte.

O uso de lente rígida ortoceratológica durante a noite, modelo que faz pressão na córnea e altera seu formato é outra alternativa para bloquear a progressão da miopia. Para o especialista a terapia esbarra na dificuldade de adaptação da criança. “Além disso, usar lente de contato durante a noite é perigoso. A menor produção de lágrima aumenta o risco contaminação da córnea”, salienta.

Implante de lente intraocular pode substituir óculos

Desde criança ele aprendeu a conviver com a miopia, dificuldade de enxergar à distância.  Chegou a usar óculos de 20 graus. “Não podia fazer tudo o que gosto e até trabalhar era difícil!”, afirma Carlos César da Silva, de 39 anos. Ele resolveu recorrer a uma cirurgia para implante de uma lente intraocular sem a retirada do cristalino, considerada única alternativa de correção cirúrgica para altos graus.

Acordar de manhã e não precisar dos óculos para sair da cama não tem preço”, afirma.

Foi o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto quem livrou Silva dos óculos com o implante de uma lente intraocular sem a retirada do cristalino. Ele explica que o risco de perda da visão decorrente da alta miopia está relacionada ao aumento do comprimento axial do olho.

“Esta alteração pode provocar o descolamento da retina, edema na mácula (porção central da retina), catarata e problemas de circulação que podem levar à degeneração da retina e ao glaucoma. Por isso, mesmo as pessoas que como Silva já corrigiram a alta miopia com implante de lente intraocular devem fazer exame oftalmológico anualmente”, ressalta.

Segundo o médico, o implante corrige a visão mas não altera o comprimento do olho. “Por isso, o risco de contrair estas doenças permanece”, salienta. A cirurgia é indicada para miopia entre 6 e 23 graus, mas não pode ser feito em gestantes, pessoas com glaucoma, doenças na retina ou estabilidade do grau menor que um ano.

Fonte: Instituto Penido Burnier, com Redação

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2 Comments
  1. Lúnia 3 anos ago
    Reply

    Muito interessante e esclarecedor seu texto! Eu tenho miopia desde a infância, cheguei a usar óculos nesse período, mas o grau que eu usava retraiu a um ponto no qual eu não precisava mais utilizar-los. Mas, com o uso excessivo de telefone celular e de computador, pude notar que minha acuidade visual ficou bastante prejudicada. Atualmente eu sou dependente dos óculos, pois tenho dores de cabeça, fotofobia e tontura ao forçar para enxergar de longe. O que eu aconselho às pessoas é retardar ao máximo o oferecimento de equipamentos eletrônicos para as crianças ou cobrarem que elas façam intervalos durante o uso. Adorei suas dicas.

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