Vitiligo: como encarar o preconceito e os gargalos no acesso a tratamentos

Dermatologistas reforçam a importância de melhorar o acesso dos pacientes com vitiligo à assistência em saúde, incluindo a psicológica

A bela Luiza Brunet já revelou que usa maquiagem para disfarçar manchas do vitiligo (Reprodução de internet)

O que teriam em comum, além da beleza, a atriz Luiza Brunet, a blogueira Sophia Alckmin e a modelo Winnie Harlow? As três beldades sofrem de vitiligo, uma condição caracterizada pela perda de pigmentação da pele que afeta até 1% da população mundial, sendo mais de um milhão no Brasil. Um desafio para quem vive com a doença é enfrentar o preconceito. O vitiligo não é contagioso, mas causa sequelas emocionais em virtude da discriminação sofrida por pessoas portadoras.

Mesmo sendo uma doença benigna e não contagiosa, as lesões provocadas pelo vitiligo geram um impacto significante na qualidade de vida e na autoestima do paciente. Geralmente, há um impacto psicológico, profissional e social na vida do paciente”, afirma a dermatologista Paola Pomerantzeff, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

Neste mês em que se comemora o Dia Mundial do Vitiligo (25 de junho), a SBD alerta, entre outras coisas, para a importância do suporte psicológico. “Precisamos perceber o impacto negativo da mancha no paciente, os medos que existem, e estimular, se for o caso, a busca do suporte em psicoterapia. Isso pode ajudar a prevenir a diminuição da autoestima, o surgimento da insegurança, da depressão e da ansiedade”, ressalta a coordenadora do Departamento de Fotobiologia da SBD, Ivonise Follador.

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Para especialistas, o Dia Mundial do Vitiligo é uma data importante para conscientizar a população e minimizar o estigma em torno da doença. “Também ajuda os pacientes a verem que não estão sós, que existem perspectivas e que há casos de regressão importante das manchas. O mais importante acreditar e fazer um tratamento sério. Existem resultados muito positivos no tratamento. Não ter cura, não quer dizer não ter tratamento”, afirma Ivonise.

Sobre a forma de lidar com a doença, muitos famosos afirmaram cobrir as áreas afetadas com uso de maquiagem, e recentemente muitas campanhas reforçam a importância da autoestima e pregam a aceitação do corpo com vitiligo. Já com relação ao tratamento, a Dra. Paola explica que, apesar de o vitiligo não ter cura, existem opções terapêuticas capazes de controlar e melhorar a doença, visando evitar o aumento das lesões e repigmentar da pele.

Quanto à prevenção, não há maneiras conhecidas ou cientificadas comprovadas que ajudem a evitar o surgimento do vitiligo. Porém, pacientes que têm tendência ou já sofrem com a doença devem evitar fatores que possam acelerar o aparecimento de novas lesões ou acentuar as já existentes, como a exposição solar prolongada, ferimentos na pele e estresse.

Dificuldade de acesso às câmaras de fototerapia

Vitiligo pode ser tratado com radiação ultravioleta Foto: Divulgação)

A SBD se une ao movimento em pela conscientização sobre esse tema diversas vezes negligenciado pela população e aponta gargalos no campo da assistência que devem ser superados. Problemas no acesso a equipamentos que permitem tratamento e inexistência de medicamentos específicos para o controle da doença são realidades que afetam as pessoas que vivem com vitiligo. Uma das críticas com relação ao manejo dos pacientes reside na dificuldade de acesso desse grupo às câmaras de fototerapia espalhadas pelo País, fenômeno que ocorria mesmo antes da pandemia de Covid-19.

Temos essas câmaras em hospitais universitários e serviços particulares. A SBD tem ajudado, ao longo das gestões, os serviços credenciados a desenvolverem um serviço de fototerapia, mas há outras doenças que também necessitam desse tratamento, como psoríase, linfoma cutâneo, por exemplo”, declara Ivonise.

Segundo ela, muitas vezes, os hospitais conseguem colocar alguns pacientes de vitiligo na fototerapia, mas não dão vazão à demanda. “É uma luta para que nós aumentemos o acesso deles a um tratamento adequado do vitiligo, incluindo o tratamento fototerápico”, destaca.

Faltam medicamentos específicos

Além da pouca oferta de máquinas de fototerapia para a população, um outro problema afeta as pessoas com vitiligo no mundo inteiro: a falta de medicação específica para a doença. Apesar da inexistência de produtos específicos, é importante que os pacientes com vitiligo evitem cremes à base de hidroquinona, que podem piorar os sinais da doença.

Assessor do Departamento de Biologia Molecular Genética e Imunologia da SBD, Caio de Castro faz uma recomendação a quem vive com essa condição: se tem tendência a ter vitiligo em área de trauma, evite esportes de contato. A dica é principalmente para as crianças. “Se em áreas onde há trauma surge uma nova lesão, o paciente deve trocar, por exemplo, o jiu-jitsu pela natação”, finaliza.

Preocupada com o tema, em 2020, a SBD publicou o Manual Prático de Fototerapia. Com textos objetivos e didáticos, tem uso garantido em consultório, clínicas e hospitais que atendem pacientes em busca desse procedimento, inclusive pessoas com vitiligo. No mesmo ano, os Anais Brasileiros de Dermatologia (ABD) divulgaram o “Consenso sobre Tratamento do Vitiligo” . O trabalho constitui um guia para tratamento clínico e cirúrgico da doença.

Um quarto dos casos surge na infância

O vitiligo é caracterizado pela perda da coloração da pele em virtude da destruição dos melanócitos, células que formam a melanina. Um quarto 25%) dos casos aparecem antes dos 10 anos de idade, 50% até 20 anos, e de 70% a 80% antes dos 30 anos.

De acordo com a Dra Paola, o principal e único sintoma da doença apresentado pela grande maioria dos pacientes é o surgimento de manchas cutâneas acrômicas (sem pigmentaçào), ou seja, manchas brancas de tamanhos variados na pele que se formam devido à diminuição ou ausência de melanina, pigmento produzido pelos melanócitos, nos locais afetados.

As causas do vitiligo ainda são desconhecidas, mas já se sabe que fenômenos autoimunes e alterações emocionais, como estresse, são fatores que estão relacionados com a doença, podendo desencadeá-la ou agravá-la. Além disso, pessoas que possuem histórico de vitiligo na família têm mais chance de sofrer com a doença”, explica.

Segundo a SBD, essa condição pode se manifestar de seis formas: focal (manchas pequenas em uma área específica do corpo); mucosal (manchas somente nas mucosas, como lábios e região genital); segmentar (manchas distribuídas unilateralmente, apenas em uma parte do corpo); acrofacial (manchas nos dedos e em volta da boca, dos olhos, do ânus e genitais); comum (manchas no tórax, abdome, pernas, nádegas, braços, pescoço, axilas e demais áreas acrofaciais); e universal (manchas espalhadas por várias regiões do corpo).

Diagnóstico é feito por dermatologista

Diagnosticado clinicamente por um dermatologista, o vitiligo pode ser classificado em dois tipos: segmentar ou unilateral e não segmentar ou bilateral. O primeiro, que normalmente aparece quando o paciente ainda é jovem, manifesta-se apenas em uma parte do corpo, podendo afetar também a coloração dos pelos e cabelos.

Já o vitiligo não segmentar ou bilateral é o tipo mais comum da doença e manifesta-se de forma generalizada, geralmente surgindo primeiro nas extremidades do corpo, como mãos e pés. Desenvolve-se em ciclos de perda de cor e estagnação que duram a vida toda e tendem a se tornar maiores com o tempo”, completa a dermatologista.

Segundo ela, ao perceber os principais sinais do vitiligo, é imprescindível que a pessoa consulte um dermatologista. “Os resultados do tratamento podem variar entre cada caso e apenas um profissional qualificado poderá indicar a melhor opção de acordo com as características de cada paciente.”

Tratamento é feito com radiação ultravioleta

Atualmente, o tratamento do vitiligo é feito com fototerapia com radiação ultravioleta B banda estreita (UVB-nb), fototerapia com ultravioleta A (PUVA), laser, além de técnicas cirúrgicas de transplante de melanócitos.

A fototerapia com radiação UVB-nb é indicada para quase todas as formas de vitiligo, promovendo ótimos resultados. Além disso, podem ser utilizadas outras tecnologias como a fototerapia PUVA, lasers, técnicas cirúrgicas e de transplante de melanócitos. Na maioria dos casos, recomenda-se também acompanhamento psicológico”, destaca Paola.

“Estão sendo pesquisados ainda tratamentos tópicos, à base de inibidores de prostaglandinas e à base de inibidores de JAK, por exemplo. Mas, certamente, aparecerão outras medicações em médio prazo. O importante é que o paciente procure ajuda, tenha apoio médico e psicológico e não deixe que a doença o tire do seu propósito de vida”, explica Ivonise, lembrando ainda da relevância do papel do médico no seguimento dos casos.

Com Assessorias

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