Covid-19: Vivemos hoje uma quarta onda ou uma ‘onda silenciosa’?

Com recente alta de casos, devido a novas subvariantes da ômicron, especialistas recomendam volta do uso de máscara e reforço na vacinação

Dose de reforço das vacinas contra a Covid-19 são aplicadas em postos de saúde do Rio (Foto: Marcos de Pauta / Prefeitura do Rio)

Sobrevivemos a dois Carnavais praticamente sem grandes impactos nos indicadores epidemiológicos,  reforçando a importância da alta cobertura vacinal no Estado do Rio de Janeiro, e quando parecia que a pandemia tinha dado uma trégua, lá vem ela de novo, assustando todo mundo. Com a máscara deixada de lado, restrições suspensas em praticamente tudo que é canto e o retorno à ‘vida normal’, o país voltou a registrar uma nova escalada de casos positivos de Covid-19, mais internações e novas mortes. Mas afinal, estamos diante de uma quarta onda?

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, garante que não e chegou a chamar de ‘antiCristo’ médicos que vêm usando o termo para classificar a nova disparada de casos da doença. Como a cardiologista Ludhmila Hajjar, que foi cotada para ocupar o cargo antes de Queiroga, em março de 2021, em substituição ao General Eduardo Pazuello.  “Não sei se eles desejam continuar suas entrevistas inúteis na televisão ou se eles pensam isso mesmo que temos uma quarta onda enquanto a média de óbitos cai”, afirmou o ministro.

O alerta para a quarta onda, no entanto, veio do próprio governo. Fernando Spilki, virologista e coordenador da Rede Corona-Ômica do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), que monitora e sequencia o genoma do vírus circulante no país. “Estamos observando esse processo desde metade de abril, mas com um ritmo maior agora. É o início de uma quarta onda, mas felizmente ainda não se compara ao que o Brasil já passou”, disse ele à BBC Brasil no início de junho.

Na Fiocruz, principal instituição científica que produz estudos sobre a pandemia, evita-se falar numa quarta onda, mas alertas semanais do Boletim Infogripe já vinham apontando um avanço sistemático da doença em todo o país. O último deles, divulgado em 9 de junho, mostrou que 70% dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) eram causados pelo Sars-CoV-12. E pior: 92% dos óbitos por SRAG eram decorrentes de Covid-19, a maioria deles, entre adultos.

Margareth Dalcolmo, pneumologista da Fiocruz, uma das mais respeitadas e confiáveis fontes sobre o tema, é enfática: “Não importa se é quarta ou quinta onda. A transmissão das sub variantes da ômicron é muito superior às cepas anteriores”. Segundo ela, o nível de transmissibilidade chega a 10%, contra a média de 2% a 3% de outras variantes. “Isso significa que 100 pessoas transmitem para 1000. Até para aquelas que já estão vacinadas ou com a dose de reforço”, explica.

Onda silenciosa, diz Átila Iamarino

Para o biólogo e doutor em Microbiologia Átila Iamarino, uma das principais vozes sobre a pandemia no Brasil, o que vivemos é uma ‘onda silenciosa’, causada pelas novas sub variantes da ômicron (BA.4 e BA.5), detectadas na onda que começou na África do Sul. Em quatro semanas, a incidência dessas sub variantes em testes no Brasil subiu 10,4% a 44%, respectivamente, segundo dados do Instituto Todos pela Saúde (ITpS), a partir de 120 mil testes cedidos pelos laboratórios DB Molecular, Dasa e HLAGyn.

Um estudo recente mostrou que elas são capazes de escapar da imunidade da infecção adquirida pela infecção das sub variantes anteriores BA.1, e BA.2 da Omicron original, mais incidente no final de 2021 e começo de 2022. “E esse escape é maior entre não vacinados. Ou seja, quem teve ômicron pode ser infectado de novo pelas novas linhagens. A dica é simples: tome sua dose de reforço”, comentou o pesquisador em suas redes sociais.

O Brasil vacinou quase 80% de sua população, porém, mais da metade dos brasileiros ainda hesita em tomar as doses de reforço. Segundo Iamarino, todas as variantes que circulam agora são mais transmissíveis, conseguem infectar de novo quem já teve Covid e são sublinhagens da ômicron.

“A ômicron mudou a dinâmica evolutiva do vírus. A gente chegou numa linhagem que está adaptando a fuga e o escape da imunidade. A ômicron chega num momento em que mais da metade do mundo já se vacinou. A alfa, a beta, a gama, a delta não conseguem circular mais porque a nossa imunidade não permite mais. Mas a ômicron nada de braçada, num ambiente em que tem muita gente com resposta imune”, explica.

Após o apagão, mais subnotificações com autotestes

A nova onda silenciosa é um fenômeno global. A Organização Mundial de Saúde (OMS) informou que mais de 3 milhões de novos casos e mais de 8 700 mortes foram registrados na primeira semana de junho.  “Não podemos olhar para esses números sem nos preocupar. É inaceitável haver essa quantidade de mortes por Covid em um cenário com ferramentas de prevenção, detecção e tratamento da doença”, afirmou Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS.

A boa notícia – se é que podemos chamar assim – é que nesse novo cenário – a maior parte dos casos apresenta sintomas mais leves porque a imunidade da população está maior, por conta da proteção com as vacinas. “Esta é a nova gripe”’, diz um profissional de saúde num posto do Rio. Quem fica mais vulnerável, especialmente neste inverno, continua sendo os idosos, os imunossuprimidos e crianças  não vacinadas – especialmente aquelas na faixa de 0 a 4 anos, suscetíveis a outros vírus respiratórios, como o vírus sincicial, contra o qual não existe vacina.

O problema é que, como se confunde muito com a gripe, boa parte dos casos de ômicron não chega a ser diagnosticada e os pacientes, mesmo sintomáticos, continuam circulando e transmitindo o vírus. Outro motivo para as subnotificações é que agora os autotestes estão liberados e nem sempre os resultados positivos são comunicados às autoridades sanitárias ou unidades de saúde, como deveria. Mais um agravante é a insistência dos negacionistas que ainda se recusam a receber a vacina e circulam livre e impunemente entre os devidamente imunizados, em nome de uma suposta liberdade.

A volta das máscaras

O descarte antecipado do uso antecipado de máscaras no Brasil é apontado como um dos principais fatores para a volta do número de casos. Por isso, neste momento, é importante manter os sete dias de isolamento após o diagnóstico para não contaminar mais pessoas. “Usar máscaras é muito importante para evitar a transmissão de novas cepas”, defende Margareth Dalcolmo.

Novo estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, mostra que quem usou máscaras em ambientes fechados teve menos da metade das chances de testar positivo para o Sars-CoV-2.  “Isso com a máscara de pano. Com a N-95 diminui ainda mais o risco. A máscara reduz não só a chance de pegar a doença, como a quantidade de vírus no organismo. Ou seja, tem menos chances de pegar e se pegar, pode ser uma Covid mais leve graças à máscara”, explica Átila. Por isso, tem que continuar usando máscara onde tiver gente aglomerada, manter uso em transporte público, é tomar cuidado”, ressalta.

O Comitê Especial de Enfrentamento à Covid-19 do município do Rio também recomendou que, diante da sazonalidade das infecções respiratórias no inverno, “como é feito há décadas em outros países, pessoas com sintomas de síndrome gripal, independentemente da causa da infecção, adotem o uso provisório de máscaras faciais. Nessa situação as pessoas devem procurar as unidades de saúde para a realização de testes e orientação para cada caso”.

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Pandemia em números

 

  • O Brasil está em terceiro lugar no ranking mundial de casos de Covid-19, atrás de Estados Unidos e Índia.
  • São 31,6 milhões de casos e quase 670 mil mortos (dados de 15 de junho)
  • Em pouco mais de um mês, o país registrou uma alta de 78,3% nos registros de novos casos de Covid-19
  • Em 20 dias, o número de casos de Covid-19 pulou de 14.585 em 23 de maio para 43.131 em 13 de junho.
  • Até o dia 15 de junho, o Estado do Rio de Janeiro tinha 2.266.309 casos de Covid e 73.942 mortes. A incidência no RJ era de 13.126,7 a cada 100 mil habitantes.
  • A taxa de mortalidade (428,3) é a mais alta dentre os estados do Sudeste – no Brasil, a taxa de mortalidade é de 318,2/100mil hab
  • Somente este ano no Rio de Janeiro (até 17/6), foram confirmados 511.886 casos, contra 307.528 em todo o ano de 2021 e 221.478 em 2020.
  • A taxa de incidência é quase o dobro de 2021: 7.684,4 x 4.319,9 (em 2020 foi de 3.271,9).
  • Com 1787 óbitos até 17 de junho,  a taxa de mortalidade no município em 2022 caiu para 26,8 por 100 mil hab.
  • Em 2021, a taxa de mortalidade foi de 241,7 por 100 mil hab, com 16.228 mortes, e em 2020 de 284,7 por 100 mil hab, com 18.962.
  • A taxa de letalidade caiu para 0,3% este ano, contra 5,5% em 2021 e 8,7% em 2020.

Fontes: 

https://covid.saude.gov.br/

 https://coronavirus.rio/painel

https://painel.saude.rj.gov.br/monitoramento/covid19.html.

https://www.agenciaeinstein.com.br/

https://www.youtube.com/c/AtilaIamarino

https://agencia.fiocruz.br/

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