Paquetá vacina 96% dos moradores contra a Covid: veja os próximos passos

70% da população da ilha de Paquetá participaram da pesquisa epidemiológica e mais de 96% já estão imunizados. Projeto aplica 1,6 mil doses

A escritora Conceição Campos foi a primeira vacinada em Paquetá (Foto: Beth Santos / Prefeitura do Rio)

Cerca de 1,6 mil moradores acima de 18 anos de Paquetá receberam a primeira dose da vacina da Astrazeneca/Oxford neste domingo (20), ponto alto da pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Prefeitura do Rio de Janeiro. Eles se somam a outros 1,8 mil que já haviam recebido a primeira ou as duas doses desse ou de outros imunizantes. Com isso, quase a totalidade (96,3%) da população da ilha já está imunizada ao menos com a primeira dose da vacina contra a Covid-19.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), apenas 128 moradores não foram alcançados pela pesquisa, mas uma busca ativa será realizada para localizar essas pessoas e oferecer o imunizante. Já os adolescentes de 12 a 17 anos que vivem na ilha serão vacinados no dia 18 de julho. A segunda etapa da vacinação para aqueles que foram imunizados no domingo será antecipada em um mês, estando prevista para agosto.

Evento-teste será voluntário e exclusivo para moradores

Com a cobertura vacinal total da população alvo, duas semanas depois a ilha estará pronta para sediar o primeiro evento-teste com público na cidade do Rio, em meados de setembro. O “carnaval fora de época” – como quer o prefeito Eduardo Paes – ainda é visto com desconfiança pelos moradores.

O evento-teste em Paquetá está sendo planejado e deverá ocorrer em meados de setembro, após todos os moradores adultos da ilha terem tomado a segunda dose da vacina e quando já não houver registro de casos da doença entre a população local.

Será em espaço controlado no Parque Darke de Mattos, fechado para um número restrito de participantes, obrigatoriamente todos eles vacinados e acompanhados pelas equipes de saúde e da pesquisa “PaqueTá Vacinada”. Todos eles estarão sendo monitorados, antes e depois do evento, conforme cronograma e metodologia do projeto.

Aprovado nos Comitês de Ética em Pesquisa do município e do Ministério da Saúde, o projeto “PaqueTá vacinada” pretende avaliar os efeitos da imunização em larga escala. Será analisada a segurança do imunizante e como a vacinação em massa atua na proteção também de pessoas que não foram vacinadas, como é o caso das crianças e adolescentes.

Durante a pesquisa, será possível observar ainda se a primeira dose da vacina será capaz de evitar a transmissão dos casos na região ou se isso só acontece efetivamente após a aplicação da segunda dose, o que ocorrerá em oito semanas.

Emoção e indignação entre os vacinados

Presente à vacinação, o ministro da Saúde Marcelo Queiroga disse que o estudo realizado na Ilha de Paquetá é uma oportunidade para verificar a efetividade da vacina da Fiocruz diante de novas variantes.

Nós já sabemos que essas vacinas aprovadas pela Anvisa são seguras, são eficazes. Mas precisamos compreender alguns outros aspectos em relação à efetividade dessas vacinas; precisamos analisar a efetividade dessas vacinas em relação a outras variantes. É esse compromisso com a ciência que nos dá fé e esperança na superação dessa dificuldade sanitária”, disse Queiroga.

A primeira a ser vacinada em Paquetá foi a escritora Conceição Campos, de 50 anos, diretora da Morena, a associação de moradores da ilha. Apesar de estar feliz em receber o imunizante e contribuir para a pesquisa da Fiocruz, ela se mostrou revoltada de receber a dose de Marcelo Queiroga.

A vacina é verdadeira, mas a mão que me aplicou não é. Essa sensação foi muito forte para mim. De estar recebendo uma vacina pela mão de um representante do governo que não fala bem da vacina, que não defende a máscara, que não defende o distanciamento social. Soa muito falso”, desabafou ela.

A escritora contou ao G1 que chegou a manifestar a Queiroga o mal-estar. “Depois de ser vacinada por ele e ouvi-lo, no discurso, dizendo algo como ‘Eu salvava vidas com cateter, agora salvo com vacinas’, eu levantei para ir embora. Ele se aproximou, tocando no meu ombro, e perguntou: ‘Você está feliz?’ Eu dei um passo para trás e respondi: ‘Estou feliz pela vacina, mas não queria ter sido vacinada por você. Preferia ter sido vacinada por ela’ — e apontei para a Dra. Margareth Dalcomo, que estava ali junto e vacinou a outra moradora. E fui embora”, narrou.

Seu marido, o músico e compositor Pedro Amorim, já havia tomado a primeira dose, mas fez questão de acompanhar a vacinação da mulher e dos vizinhos: “A gente fica muito orgulhoso por participar de um evento científico que vai trazer informações tão importantes não somente para a ilha, mas também para o Rio de Janeiro e, até, o mundo. A adesão dor moradores da ilha à testagem superou as expectativas”, disse ele.

Audenise Ana Ferreira vibra com a vacinação (Foto: Marcelo Piu / Prefeitura do Rio)

Segunda pessoa a ser vacinada, Audenise Ana Ferreira, também de 50 anos, ganha a vida transportando turistas em um dos muitos carrinhos elétricos que circulam pelas ruas de Paquetá. Finalmente, sentiu-se um pouco mais segura após receber sua dose. “Corri muito risco nesse tempo todo de pandemia porque trabalho com turismo. Sou só felicidade agora; nem consegui dormir de ontem pra hoje por causa da ansiedade”, afirmou ela, moradora de Paquetá há 33 anos.

Muitos moradores não esconderam a emoção e a esperança ao receber a primeira dose. “A sensação é de felicidade, de saber que a gente está vacinando todo mundo”, disse Jessica Barreto, após receber a aplicação da vacina pelas mãos do ministro. “Me sinto mais segura. É uma esperança de que os dias fiquem melhores. Não estamos isentos de pegar a doença, mas pelo menos ela vem mais branda e leve”, afirmou a moradora Cristiane Rizon.Isabel Cristina Vieira Gomes caracterizou o momento como uma vitória de todos: “É um alívio total. Estava esperando demais esse momento. Paquetá ser escolhida para esse estudo foi um presente”, falou.

Vacinação contra a Covid em Paquetá (Foto: Marina Pagno/MS)

Inquérito sorológico teve adesão de 70% dos moradores

Até a manhã de 17 de junho, foram aplicadas 3.078 doses da vacina contra a Covid-19 pelo calendário do município para os grupos prioritários, sendo 1.946 primeiras doses (D1) e 1.132 segundas doses (D2). Essa etapa de inquérito epidemiológico, realizada na Unidade Integrada de Saúde Manoel Arthur Villaboim e no Paquetá Iate Clube, foi importante para o estudo dos resultados e impactos da vacinação em massa.

Antes da vacinação em massa no domingo, quase 70% da população da ilha compareceram aos postos de testagem, tanto maiores quanto menores de idade, entre os dias 17 e 19. Eles passaram por exame de sangue sorológico ou teste rápido para análise comparativa de presença de anticorpos com os momentos antes e após a vacinação. Os moradores responderam também ao inquérito epidemiológico realizado pela SMS e Fiocruz.

O secretário Daniel Soranz agradeceu a adesão dos moradores da ilha ao projeto que envolveu, entre quinta-feira e sábado, a testagem de 2.759 moradores, incluindo 421 crianças, das quais 21% apresentaram exposição ao coronavírus. “A gente estava esperando que entre 20% e 30% das pessoas daqui aderissem à coleta de sangue, mas 70% aderiram à pesquisa. Meu agradecimento profundo a todos os que se voluntariaram”.

Crianças e adolescentes passaram por testes rápidos e os maiores de idade fizeram coleta de sangue para exame sorológico. As amostras de sangue foram levadas de helicóptero para a Fiocruz, onde serão analisadas em laboratório. Nos 12 meses subsequentes, continuará a ser feito o monitoramento dos moradores.

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Queiroga: até o fim do ano todos os brasileiros acima de 18 estarão vacinados

Apesar do ritmo lento da vacinação – pouco mais de 11% da população brasileira concluíram o esquema completo de duas doses -, o ministro da Saúde voltou a garantir que até o fim do ano o público-alvo acima de 18 anos estará totalmente imunizado no país. Segundo a pasta, até o momento, mais de 115 milhões de doses já foram entregues aos estados e ao Distrito Federal.

Até o final do ano, toda a população brasileira acima de 18 anos será imunizada contra a Covid-19, com as duas doses da vacina. O passaporte para a nossa liberdade. O passaporte para uma vida nova, para o povo de Paquetá, do Rio de Janeiro e do Brasil”, disse o ministro, que esteve na ilha para participar da vacinação neste domingo.

Queiroga ressaltou a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Programa Nacional de Imunizações (PNI) na campanha de vacinação contra a Covid-19. “Para enfrentar o vírus, a principal ferramenta é o SUS e a união, no princípio tripartite, da gestão do SUS. A sua eficiência é certeza de que nós haveremos de vencer nosso único inimigo, que é o vírus”, afirmou.

Presidente da Fiocruz destaca eficácia da Astrazeneca

Ainda segundo o ministro, a imunização em massa em Paquetá funciona como um teste de eficácia da vacina para novas variantes, entre outros aspectos. “Além da vacina da Fiocruz, temos outros agentes imunizantes aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Três deles com registro definitivo, e um outro com registro emergencial. Todos são importantes para nossa campanha de vacinação. Todos cumprem seu papel e são úteis para o enfrentamento da Covid-19”.

Presente no ato, a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade, considerou a imunização em Paquetá uma “pesquisa fundamental” para avaliar o impacto da vacina. “A Fiocruz se sente muito honrada por participar de uma iniciativa construída em conjunto com a Prefeitura do Rio de Janeiro, com a Secretaria Municipal de Saúde e o com o Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde.

Ela ainda ressaltou a eficácia da vacina da Astrazeneca/Oxford. “Já temos os dados de outros estudos, como os realizados no Reino Unido, em que se mostrou uma eficácia de mais de 90% da vacina Covid-19 produzida pela Fiocruz. Vacinar é sempre muita emoção, principalmente quando pensamos na importância de termos pesquisas que avaliem o impacto e a proteção que a vacina confere”, disse.

Secretário de Saúde lembra 500 mil mortes por Covid

Daniel Soranz, secretário de Saúde do Rio, lembrou as 500 mil mortes por Covid no país, registradas neste sábado (19). “É um momento muito triste; todos lamentamos muito por isso. É um momento de profunda tristeza, de luto, mas é também o momento de a gente ter esperança e tentar reconstruir um novo futuro. E aqui em Paquetá a gente espera que esse futuro chegue antes”.

Ainda segundo ele, a expectativa é que essa região seja um símbolo para todo o País e que mostre o efeito da vacina em massa na vida das pessoas. “A gente espera que a vacina continue salvando vidas, que seja a esperança para colocar não somente a Ilha de Paquetá, mas o Rio de Janeiro e todo o Brasil, em um futuro melhor”, disse Soranz.

Vacinação em Paquetá (Foto: Divulgação SMS)

Entenda o estudo em Paquetá

A vacinação em massa em Paquetá seguiu o modelo já realizado nas cidades paulistas de Serrana e Botucatu. A imunização aconteceu em quatro pontos da ilha, para facilitar o acesso dos moradores e evitar aglomerações: UIS Manoel Arthur Villaboim, Parque Darke de Mattos, Paquetá Iate Clube e Casa de Artes Paquetá.

Mais de 4,1 mil pessoas moram em Paquetá. Apenas a população que reside na localidade foi vacinada, conforme os cadastros existentes na Estratégia Saúde da Família e aqueles realizados durante a última semana. Foi vetada a participação de turistas que tenham ido passar o domingo na ilha.

Os trabalhos na ilha, durante a coleta e nos pontos de vacinação, foram realizados por cerca de 200 pessoas por dia, entre profissionais da Secretaria Municipal de Saúde e voluntários ligados à ONG Core (Esforço de Ajuda Organizado pela Comunidade, na sigla em inglês), uma iniciativa humanitária que atua em diferentes países e, na pandemia, tem ajudado na ampliação do acesso à vacinação.

Iniciado pela manhã, o evento reuniu também a pneumologista e pesquisadora Margareth Dalcolmo; o subprefeito das Ilhas, Rodrigo Toledo; o subsecretário estadual de Vigilância e Atenção Primária à Saúde, Mário Sérgio Ribeiro; e os secretários municipais de Meio Ambiente, Eduardo Cavaliere, e de Assistência Social, Laura Carneiro.

Conheça as próximas etapas do estudo

O estudo completo vai durar 12 meses. Neste período, os moradores serão monitorados e uma parte deverá ser chamada para repetir os exames para acompanhamento e verificação dos anticorpos adquiridos após a vacinação com a primeira e com a segunda doses.

Após a coleta de sangue e inquérito epidemiológico, com teste rápido IGM/IGG para todos os moradores e da vacinação ocorrida neste domingo para maiores de 18 anos, os próximos passos são:

– 8 semanas após a primeira dose será aplicada a segunda dose
– 14 dias após a segunda dose – prazo de proteção após a segunda
– Coleta de sangue
– Evento-teste

20/06/22 – Finalização do estudo e divulgação dos resultados

Com Agência Saúde, SMS-Rio e G1

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