Por que seu filho deve conviver com crianças especiais na escola

Na contramão do isolamento pregado por ministro, psiquiatra defende convívio entre crianças especiais e ‘normais’ nas salas de aula

Recentemente, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, declarou que 12% das crianças e adolescentes com deficiência têm um grau de incapacitação que tornaria impossível a convivência, já que eles atrapalhariam o aprendizado dos demais. Contrários à tese equivocada de que esses alunos devem ser isolados em salas de aula separadas, especialistas em Saúde Mental destacam a importância da convivência não somente para os chamados ‘especiais’, mas também para estudantes ditos “normais”. Confira em mais um artigo da psiquiatra Danielle H. Admoni em nossa seção #PalavradeEspecialista.

 

Por Danielle H. Admoni*

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas tem algum tipo de deficiência no mundo e, uma em cada dez, é criança. No Brasil, 45,6 milhões de pessoas são portadoras de deficiência. Destas, 7,5% são crianças de até 14 anos de idade, segundo o último censo do IBGE, de 2010, ou seja, cerca de 3,5 milhões de crianças.

Em primeiro lugar, vamos entender quem são essas crianças com necessidades especiais. São aquelas que, por alguma diferença no seu desenvolvimento, requerem certas modificações ou adaptações no programa educacional, visando torná-las autônomas, capazes e mais independentes, para que possam atingir todo seu potencial. Podem elas ser de condições visuais, auditivas, intelectuais (mentais), físicas e ter duas ou mais destas deficiências, como visual e intelectual ao mesmo tempo.

O que pais e mães precisam saber

Entre 2014 a 2018, o número de matrículas de estudantes com necessidades especiais cresceu 33,2% em todo o país, segundo dados do Censo Escolar divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). No mesmo período, também aumentou de 87,1% para 92,1% o percentual daqueles que estão incluídos em classes comuns.

Em 2014, eram 886.815 os alunos com deficiência, altas habilidades e transtornos globais do desenvolvimento matriculados nas escolas brasileiras. Esse número tem aumentado ano a ano. Entre 2017 e 2018, houve aumento de aproximadamente 10,8% nas matrículas. Em 2018, chegou a cerca de 1,2 milhão.

Por lei, pelo Plano Nacional de Educação (PNE), o Brasil deve incluir todos os estudantes de 4 a 17 anos na escola. Os estudantes com necessidades especiais devem ser matriculados preferencialmente em classes comuns. Para isso, o Brasil deve garantir todo o sistema educacional inclusivo, salas de recursos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou conveniados.

O assunto, já abordado exaustivamente, diz respeito à inclusão social de crianças com deficiências físicas e intelectuais. A proposta educacional é oferecer educação de qualidade para todos, sem discriminação, incentivando os alunos especiais a frequentarem as mesmas escolas que as demais crianças. Trata-se de um movimento mundial, uma importante transformação, resultando na valorização da diversidade.

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Benefício da integração com crianças especiais

Naturalmente, como em toda mudança, partem dúvidas dos pais: será positiva a convivência do meu filho entre crianças com diferenças? É benéfico? Nas escolas que recebem crianças especiais, elas são estimuladas pelos outros alunos, alcançam progressos muito superiores aos que teriam em escolas especializadas, onde estariam “protegidas” deste contato e, portanto, segregadas.

Ao participarem das atividades regulares, as crianças deficientes desempenham maior quantidade de tarefas do que antes e aprendem mais com o amigo que tem uma habilidade maior. Em contrapartida, as crianças ditas “normais” fortalecem características que talvez não adotassem se não tivessem essa experiência. A convivência entre alunos com deficiência desenvolve significativamente a tolerância e a solidariedade, além de aumentar a qualidade nos relacionamentos e diminuir a tendência de comportamentos agressivos.

Crianças especiais na visão de pais e professores

Os educadores, diante de uma turma ainda mais heterogênea, aprendem a lidar com as diferenças dos alunos, enxergando cada um como um ser individual, com suas próprias particularidades e dificuldades. Consequentemente, a avaliação feita pelo professor se torna mais personalizada, humanizada.

Os pais também aprendem, pois se envolvem em uma realidade totalmente desconhecida até então, embora alguns ainda tenham receio de que um aluno com necessidades especiais possa gerar queda no rendimento de todo o grupo. Entretanto, o preparo da escola inclui lidar com o fato de que as crianças especiais possam não alcançar a mesma produção dos demais, o que não interfere no cronograma e tampouco prejudica o restante da classe.

A proposta da inclusão é que as crianças se beneficiem com este convívio. Afinal, todas têm algo a aprender e ensinar, independentemente do nível intelectual e social. Com esta experiência, as crianças ditas “normais” tendem a crescer sem preconceitos e com uma noção mais ampla sobre a realidade da vida. Dar às crianças essa oportunidade é oferecer ao mundo futuros cidadãos que saberão o real significado de respeito, empatia, responsabilidade e compreensão sobre ser diferente.

Danielle Herszenhorn Admoni

Danielle Admoni, psiquiatra, especializada em Infância e Adolescência (Foto: Divulgação)

Graduada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, com residência em Psiquiatria Geral e Psiquiatria da Infância e Adolescência pela Escola Paulista de Medicina da Unifesp e título de especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Atuou no CAPS Juventude e vários ambulatórios de Psiquiatria e Neurologia da Unifesp, sempre relacionados à infância e adolescência. É médica concursada desde 2004 na Unifesp, atualmente lotada no Ambulatório de Adolescentes e no Núcleo Trans Unifesp como preceptora de residência.

Danielle colabora para a seção ‘Palavra de Especialista’ uma vez por mês, sempre às quartas-feiras.

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