Caso Michelly: Rio inicia luta por visibilidade trans na mídia

Roda de conversa no Sindicato dos Jornalistas se desdobra em movimento para levar mais esclarecimento à imprensa e à sociedade sobre questões envolvendo travestis e pessoas trans

Redação

Jornalistas, ativistas do movimento LGTI e de direitos humanos e autoridades públicas se reuniram na noite de terça-feira (24), na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, para discutir não só o tratamento preconceituoso dado por segmentos da imprensa no caso da morte de Michelly Silveira, travesti de 16 anos assassinada em Itaperuna, mas como as vítimas e seus familiares são tratados pela sociedade em geral, incluindo agentes públicos de segurança.

Um desafio, segundo Andrea Brazil, presidente da Associação de Travestis e Pessoas Transexuais do Estado (Astra RJ), é romper com o estigma da marginalidade, que cerca essas pessoas. “Sempre aparece na mídia notícias de travesti que rouba, que é marginal. Seres humanos roubam porque são seres humanos. Muitas irmãs são relegadas, poucas têm o prazer de ser acolhidas por suas famílias e a ruas aliciam para a prostituição. Antes de julgar, a midia poderia ajudar a atingir pessoas que precisam de esclarecimento sobre quem somos”.

Outra luta é contra a patologização, para vencer o estigma de que a identidade sexual é uma doença. O respeito ao nome social também é importante. “A imprensa nos mata duas vezes”, afirmou, ressaltando ainda que a expectativa de vida de uma travesti ou pessoa trans é de 35 anos. “O jornalista tem que pedir ajuda para uma pessoa trans quando for escrever sobre o assunto, para respeitar a identidade de gênero. É preciso construir textos com quem entende a dor e a delícia de ser trans”, ensinou Andrea Brazil, ao criticar o tom agressivo e sensacionalista dado principalmente nas emissoras de rádio quando noticiam casos de polícia envolvendo essa população.

Kátia Soares, coordenadora do Centro de Cidadania LGBT Capital, ligada ao Rio Sem Homofobia, ofereceu todo o apoio à família de Michelly e sugeriu um amplo trabalho de educação para a sociedade e a mídia, com apoio do programa estadual. Lívia Casseres, defensora pública do Núcleo de Defesa da Diversidade (Nudiversis), também informou que o órgão vai acompanhar as investigações do caso, realizadas na 143ª DP (Itaperuna). Segundo ela, dentre todas as violência praticadas contra esses públicos, a mais grave é a violência contra trans e travestis, que são muito mais estigmatizadas e sofrem ainda mais com direitos humanos violados, inclusive os mais básicos, como acesso a educação ou mesmo a frequentar um banheiro público.

A jornalista Débora Diniz, assessora de Comunicação da Defensoria Pública, disse que muitos erros são naturalizados pelo próprio desconhecimento.  “É preciso inserir pessoas trans no convívio social”, destacou. Por isso é preciso desenvolver politicas afirmativas, para evitar estereotipos. Ela questionou ainda sobre como as faculdades de jornalismo tratam a questão da diversidade, incluindo outros públicos como mulheres, adolescentes e negros. E sugeriu à direção do SJPMRJ e às entidades presentes entregarem pessoalmente uma cartilha recém-lançada pelos movimentos aos repórteres e editores de veículos de comunicação.

Felipe Martins, redator da editoria LGBTI na revista Fórum, deu uma aula sobre as várias questões que envolvem as dificuldades. Nas redações há muito pouca diversidade, até mesmo territorial. Segundo ele, a maioria dos jornalistas é da Grande Tijuca ou da Zona Sul e desconhece a realidade em outros bairros, que dirá as questões de gênero. O desconhecimento é agravado pelo preconceito que começa nas chefias, a maioria delas ocupadas por homens. O machismo também prevalece, explicou.

A jornalista  Rosayne Macedo, editora do ViDA & Ação, que é prima de Michelly, agradeceu a todos pela mobilização. “A reunião foi um passo muito importante pra mudar essa realidade e evitar que outras Michellys sejam mortas dupla, tripla ou infinitas vezes pela sociedade, pela polícia, pela mídia. Dar visibilidade a casos como este e tratar as vítimas e familiares com dignidade e respeito é mais do que urgente!”, disse.

O presidente do Observatório da Saúde, Marcio Meirelles, ofereceu a entidade para ouvir e ajudar no que se fizer necessário. Organizada para ampliar o entendimento da imprensa sobre a maneira de tratar a identidade das pessoas transexuais, a roda de conversa contou ainda com a participação de Indianara Siqueira, presidente da Casa Nem; Bárbara Aires, ativista do movimento LGBTI; os médicos Sebastião Amoedo e Acyr Gonçalo, do Observatório da Saúde.

Os jornalistas Elza Calazans, do Observatório de Saúde; Marcio Anastácio, assessor do deputado Jean Willys, e Márcia Villela, da Target  Comunicação, também participaram da roda de conversa foi comandada pelas jornalistas Malu Fernandes e Carmen Pereira, diretoras do Sindicato, e Beth Costa, representante da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas).Ficou agendada a próxima reunião para o dia 7 de agosto, às 19h.

Sobre o crime

Ocorrido na noite de 7 de julho, num ponto de prostituição de travestis em Itaperuna, Noroeste Fluminense, crime tem claras conotações de transfobia: Michelly era o nome social adotado por Luís Miguel Macedo Rodrigues e foi assassinada com cinco tiros por dois homens que conseguiram escapar numa motocicleta. Na cidade, circulam informações de que o crime teria sido motivado por uma discussão, gravada em vídeo, em que a travesti cobra dívida de R$ 50 de um programa a um suposto cliente. A família temia pela segurança de Michelly e vinha lutando para tirá-la das ruas.

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