Maconha pode ser usada para tratar overdose de drogas

É o que pretendem mostrar estudos clínicos inéditos financiados por indústria que produz derivados da Cannabis na Universidade British Columbia, no Canadá

Rosayne Macedo
Cannabis Cannabis sativa: planta que dá origem à maconha movimenta indústria e pesquisa científica (Foto: Flickr)

Nos primeiros nove meses de 2018, pelo menos 1.143 pessoas morreram de overdose de drogas derivadas do ópio, como a heroína, a morfina e a metadona, na região de British Columbia, no Canadá. Um interessante estudo realizado no país mostra que o uso da Cannabis sativa – planta da qual se obtém a maconha – pode ser eficiente para o tratamento de overdoses de opioides e outros transtornos por uso de substâncias como o crack.

As pesquisas passarão a ser intensificadas com a criação de uma disciplina exclusiva para tratar do problema na Universidade British Columbia, em Vancouver (Canadá), uma das mais respeitadas do mundo. Líder no campo da epidemiologia, MJ Milloy, primeiro professor para Ciências da Cannabis, destaca que os benefícios terapêuticos da droga estão “apenas começando a ser compreendidos”.

De acordo com nota oficial emitida pela  Canopy Growth – indústria que produz várias marcas de produtos derivados da Cannabis em formas de cápsulas secas, gelatinosa e óleos -, o professor conduzirá ensaios clínicos para explorar o papel que a cannabis pode desempenhar para ajudar pessoas com transtornos de uso de opioides a permanecerem em seu plano de tratamento.

Pesquisas anteriores mostraram que a Cannabis pode ter impacto estabilizador em pessoas com transtorno de uso de opioides, melhorando sua qualidade de vida e oferecendo um caminho para tratamentos de longo prazo. No meio de uma crise de overdose de opioide, temos como imperativo científico desenvolver cada vez mais pesquisas nesta área”, afirma MJ Milloy.

Pesquisas mostram que menos de um terço das pessoas que iniciam terapias com antagonistas de opioides (OAT), como metadona ou buprenorfina/naloxona, permanecem em tratamento após seis meses. “Abandonar o tratamento da dependência é um sério risco de morte por overdose. As descobertas desses ensaios clínicos podem ajudar a identificar maneiras de melhor apoiar as pessoas com estes transtornos, por meio de medicamentos à base de cannabis”, informa a nota.

A pesquisa do Dr. Milloy contribuirá para novas evidências, sugerindo que a Cannabis pode ter um impacto positivo no bem-estar das pessoas com transtorno de uso de opioides. Recentes pesquisas conduzidas pelo professor chegaram a três conclusões importantes:

  1. O consumo diário de Cannabis está associado a um menor risco de injetar drogas entre jovens carentes;
  2. O uso diário de Cannabis aumenta a probabilidade de pacientes permanecerem em tratamento OAT;
  3. Uso intencional de Cannabis diminui o uso de crack entre usuários que já utilizam esta droga.

Overdose de opioides tira em média quatro vidas por dia

“Precisamos de todo o apoio possível para salvar vidas e ajudar pessoas a encontrarem tratamento e recuperação”, disse Judy Darcy, Ministra de Saúde Mental e de Vícios do Canadá. “Nosso governo tem sido ousado e inovador ao fornecer opções de tratamento para pessoas que vivem com este tipo de dependência. Esta matéria inédita (na universidade) permitirá pesquisas e ensaios clínicos sobre como os produtos à base de Cannabis podem ser usados ​​para enfrentar a crise de overdose de opioides que mata, em média, quatro vidas por dia”.

Para Dermot Kelleher, reitor da Faculdade de Medicina e vice-presidente de Saúde da Universidade British Columbia, “a crise de overdose de opioides exige abordagens holísticas e científicas para o desenvolvimento de novos conhecimentos e estratégias em resposta a esta questão urgente de saúde que a nossa sociedade enfrenta”. Segundo ele, MJ Milloy promete gerar soluções baseadas em evidências que são necessárias para melhorar a saúde e o bem-estar da população.

Pesquisador do Centro de Uso de Substâncias da UBC (BCCSU), Dr. Milloy é autor de mais de 150 artigos científicos sobre o impacto de políticas públicas em pessoas dependentes de drogas. Como epidemiologista, suas pesquisas focam nas inter-relações entre drogas ilícitas e HIV. Também analisam o impacto da regulamentação da cannabis na saúde pública e a aplicação médica da cannabis e dos canabinoides, especialmente para pessoas vivendo com HIV ou transtornos por uso de substâncias.

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Pesquisas têm apoio da indústria e do governo canadenses

Para a criação da nova disciplina na Universidade foi necessário um investimento de 3 milhões de dólares, financiados pela Canopy Growth (US$ 2,5 milhões) e péla Província de British Columbia (US$ 500 mil). A indústria de especializada em produtos à base da Cannabis financia a contratação do professor para “criar um legado duradouro de pesquisa”, por meio de um fundo chamado Canopy Growth Cannabis Science Endowment.

De acordo com Mark Ware, diretor médico da Canopy Growth, há uma necessidade clara de recursos significativos e de liderança colaborativa da indústria, governo e academia para enfrentar a crise de overdose, que continua a ter um impacto devastador nas famílias e nas comunidades em todo o Canadá.

Hoje, reconhecemos a experiência vivida daqueles que foram afetados e vamos orgulhosamente apoiar este importante passo na construção de um legado de pesquisa médica de cannabis, com o objetivo de impactar positivamente a sociedade do mundo todo. Dr. Milloy é um cientista apaixonado e dedicado que se concentra em pesquisas de grande impacto. Ele está muito feliz pela UBC o ter selecionado como o professor de Ciência em Cannabis”, ressalta o principal patrocinador das pesquisas.

Heroína e opioides avançam na Europa e EUA

Nos EUA, consumo de heroína disparou em Nova York, especialmente no bairro do Bronx (Foto: Getty Images)

O uso de heroína e outros opióides se tornou um problema de saúde pública na Europa e nos Estados Unidos. Na Inglaterra, no país de Gales e na Escócia, o número de mortes por overdose de heroína dobrou nos últimos cinco anos – e é hoje o maior por ano desde que o governo começou a monitorar o problema, conforme divulgou a BBC Brasil.

Nos Estados Unidos, um levantamento do governo federal divulgado em setembro de 2017 apontou que o número de mortes causadas por fentanil, um anestésico e analgésico opioide de acesso restrito, aumentou 540% em três anos – foi de 3 mil, em 2014, para 20 mil, em 2017.

Já no Brasil o problema é outro: o crack e a cocaína. O último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas disponível, feito em 2012 pela Unifesp, apontava que 1,8 milhão de pessoas já haviam experimentado crack no país, enquanto a cocaína havia sido usada por 5,6 milhões. A Pesquisa Nacional sobre o Crack feita pela Fiocruz em 2013 revelou que havia cerca de 370 mil usuários regulares de crack nas capitais.

Nenhum dos levantamentos aponta presença relevante de heroína. O estudo feito pela Unifesp nem cita a droga. E só 0,84 dos usuários de crack já experimentaram heroína e outros opioides, de acordo com a pesquisa da Fiocruz.

Fonte: Canopy Growth e BBC Brasil, com Redação

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