Por que fazer terapia de grupo? Será que funciona mesmo?

Estreando no Palavra de Especialista, psiquiatra e psicanalista Luiz Alberto Py defende grupoterapia como padrão no atendimento psicoterapêutico

terapia-de-grupo Terapia de grupo é considerada um importante método de atendimento psicoterapêutico (Foto: Reprodução de internet)


Por Luiz Alberto Py*

A psicoterapia de grupo, também chamada de grupoterapia, surgiu na segunda metade do século passado. Trata-se se um método rápido, barato e eficaz de ajudar as pessoas a lidarem com suas dificuldades emocionais. O atendimento grupal significa multiplicar a possibilidade de interferir positivamente junto a um número muito maior de pessoas. Uma forma de democratizar o conhecimento psicanalítico antes restrito às poucas pessoas com acesso aos terapeutas.

Inicialmente se imaginava que a terapia grupal seria uma forma menor de terapia, sem a profundidade e sem o alcance da terapia individual, apenas com a vantagem de poder oferecer atendimento a um número muito maior de pessoas. Após alguns anos, os terapeutas precursores constataram que um grande número de seus clientes de grupo apresentava um resultado mais positivo em comparação com seus clientes de terapia individual.

Uma das explicações para este fenômeno inesperado foi a percepção da existência nos grupos de uma energia fraterna que se manifestava sob dois aspectos, um favorável e outro negativo: a solidariedade e a rivalidade. Na medida em que a solidariedade era utilizada em favor do trabalho terapêutico e se administrava a rivalidade de forma a evitar que ela atrapalhasse, havia, ao mesmo tempo, importantes evoluções na disposição de cada membro do grupo para explorar positivamente a fraternidade solidária – útil em muitas situações da vida – e na aptidão para lidar com situações de rivalidade, que costumam ser prejudiciais.

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Luiz Alberto Py, psiquiatra e psicanalista, escreve para a seção Palavra de Especialista toda segunda quarta-feira do mês (Foto Divulgação)

‘O terapeuta ensina, a cura vem do aprendizado’

Outro valioso elemento foi o entendimento de que a atividade psicoterápica pertence muito mais à área da educação do que ao campo da saúde, pois o terapeuta ensina e a cura vem do aprendizado. Uma vez percebido este dado, nada mais natural do que considerar que, da mesma forma que o aprendizado é prioritária e predominantemente exercido em grupo, nas salas escolares a terapia também deveria ser vivida de forma coletiva. Há séculos que já se estabeleceu a ideia de que as pessoas aprendem melhor quando em grupo.

Verificou-se ainda que a convivência no grupo facilitava a compreensão e superação dos problemas e dificuldades individuais. Os companheiros se ajudam com comentários e estímulos; ajudar é saudável e presenciar a terapia dos outros esclarecia dificuldades próprias. Muitas vezes os participantes de um grupo terapêutico comentam que entendem muito melhor o que o terapeuta diz para seu colega do que as observações do terapeuta diretamente dirigidas a eles. É compreensível, pois a tensão de estar falando de seus problemas dificulta o entendimento.

Uma questão também importante é a presença do outro no grupo. Em uma terapia individual, o outro é virtual, ele pode ser mencionado ou deixado de lado. No grupo o outro é inevitavelmente presente. As questões de relacionamento precisam ser enfrentadas – e resolvidas – na prática do convívio permanente, não há como nem por que fugir delas. Tanto a administração dos sentimentos positivos de amor e carinho, quanto o gerenciamento dos sentimentos negativos de raiva, ciúme, desprezo etc. são foco de atenção e se tornam elementos de evolução emocional.

Rompendo o silêncio

Finalmente, deve-se levar em conta o fato de que, em uma terapia individual, o trabalho de estimular o terapeuta e orientá-lo a perceber os elementos emocionais mais relevantes é responsabilidade de uma só pessoa, enquanto na terapia grupal, todos os membros do grupo fornecem estímulo para o terapeuta. O silêncio do cliente em uma terapia individual pode vir a ser uma dificuldade a mais, tal situação dificilmente ocorrerá em uma sessão de grupo. A vantagem que o cliente do grupo tem sobre o cliente individual reside no fato de que a tarefa de informar e ajudar o terapeuta está diluída por todas as pessoas que o compõem, enquanto na terapia individual o paciente sozinho deve se incumbir dela.

Estes elementos levam a considerar a terapia de grupo como uma forma preferencial de terapia. Portanto, em uma primeira entrevista cabe a pergunta: há algum impedimento para que esta pessoa faça parte de um grupo? Há algum empecilho que inviabilize colocá-lo em um grupo e que, portanto, o leve a um atendimento individual? Os impedimentos para a grupoterapia não decorrem necessariamente de problemas emocionais das pessoas, mas muitas vezes de circunstâncias desfavoráveis, como horários de trabalho irregulares ou situações que exijam especial cautela com o sigilo. Tal não ocorrendo convém priorizar a terapia grupal como forma padrão de atendimento psicoterapêutico.

*Luiz Alberto Py é psiquiatra e psicanalista. Atua como consultor de empresas e palestrante. Professor nas faculdades de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e da Uerj e em diversas sociedades de Psicanálise. É autor de 9 livros, foi consultor do programa Big Brother Brasil (TV Globo) e conselheiro do sistema penitenciário. Escreve para a seção ‘Palavra de Especialista’ toda segunda quarta-feira do mês. Para sugestões e informações, envie mensagem para palavradeespecialista@vidaeacao.com.br. Conheça nossos especialistas aqui.

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