Borderline: a linha tênue entre a euforia e a depressão

Marcado por instabilidade emocional em questão de minutos ou segundos, transtorno exposto em reality show é confundido com Transtorno Bipolar

borderline

Por Andrea Ladislau*

O comportamento Borderline é um transtorno mental em que a pessoa apresenta mudanças repentinas – e frequentes – de humor e comportamento, alternando entre momentos de estabilidade e de descontrole.

O distúrbio ganhou os noticiários depois que uma participante de reality show foi diagnosticada com a doença em 2020. A exposição, marcada pelo sofrimento evidente, passou a ser questionada por quem acompanha a atração.

Mas você sabe o que é esse transtorno e quais as suas implicações? Muito se ouve falar sobre este tipo de neurose. Algumas pessoas até usam, muitas vezes, até sem saber exatamente do que se trata, o termo “Borderline” para classificar pessoas que possuem alterações de humor.

Mas seria isso mesmo? Vamos entender melhor que tipo de personalidade é essa e como lidar com pessoas afetadas por ela. Um misto de sentimentos pode motivar os comportamentos, como por exemplo: culpa, ansiedade, perda de interesse, falta de prazer pelas atividades que desenvolve, solidão e tristeza.

O paciente vê sua imagem distorcida e se alimenta de uma paranoia, associada ao narcisismo e a depressão. Neste sentido, como a instabilidade emocional é muito intensa, os Bordelines costumam ter problemas em seus relacionamentos pessoais, perdendo laços afetivos, familiares e de amizade.

Esses pacientes sofrem muito, pois estão no limiar entre a euforia e a depressão. A sensação interna é de que estão vivendo sempre na corda bamba das emoções e que, a qualquer momento, podem sair da linha. São acometidas por flutuações de humor intenso. Além disso, o estresse pode desencadear pensamentos paranoicos temporários ou sintomas dissociativos graves.

Primeiros sintomas na adolescência

Dentro do comportamento borderline podemos evidenciar: agressão, automutilação, comportamentos compulsivos, hostilidades, falta de moderação, comportamentos autodestrutivos e fobias severas.

Os primeiros sintomas costumam aparecer durante a adolescência, afetando principalmente mulheres jovens, embora os homens também possam desenvolvê-la. Adultos, a partir dos 40 anos, também possuem tendência a desenvolver o transtorno associado a outras neuroses.

Por não serem bem compreendidas, e pelo fato do transtorno provocar mudanças bruscas no comportamento – em muitos casos, provocando a agressividade e o desequilíbrio emocional -, essas pessoas costumam enfrentar períodos de solidão intensos.

Se isolam socialmente, o que pode acabar prejudicando até a vida profissional. Muitos, por se sentirem incompreendidos e julgados, adotam comportamentos de risco que podem levar até ao suicídio.

Diferenças para o Transtorno Bipolar

A personalidade Borderline corresponde a um transtorno mental que se manifesta, especialmente, através de demonstrações reais de instabilidade emocional muito acentuada. Muitos ainda confundem essas manifestações com o Transtorno Bipolar, mas sãos distúrbios com características distintas. Para evitar confundir, se faz necessário a análise de suas diferenças.

A instabilidade emocional, no caso dos pacientes que apresentam esse transtorno, pode gerar alterações de humor em questão de minutos ou segundos. Diferente do paciente bipolar que alterna estados de euforia com duração de até uma semana e depressão que pode durar dois a três meses. Fatores internos, como desequilíbrio dos neurotransmissores, são os responsáveis por essas alterações de uma pessoa portadora do Transtorno bipolar.

Já no caso do Bordeline, o que alimenta essas alterações são os fatores externos, como uma possível ideia de rejeição. Ou seja, ao se sentir rejeitado e abandonado, a agressividade e o desequilíbrio tomam conta da mente do paciente – e, assim, como ele não consegue ter o controle de suas reações, acaba por potencializar seu desconforto e generalizar atitudes extremistas.

Estudos e pesquisas apontam que é possível que a mesma pessoa possa apresentar os dois transtornos simultaneamente, o que torna o diagnóstico ainda mais difícil – podendo aumentar as chances de complicações, como as tentativas de suicídio. Além disso, pode apresentar outros transtornos associados, como por exemplo: ansiedade, depressão, dependência de substâncias
químicas e distúrbios alimentares.

Quais seriam as causas para este transtorno?

Na realidade, não existe uma causa específica para quem desenvolve o Transtorno Borderline, sendo as crises geralmente manifestadas após conflitos emocionais difíceis ao longo da vida, que podem ser experiências como de morte, separação, ou até mesmo abuso sexual – principalmente na infância e/ou na adolescência.

É muito importante que o diagnóstico do distúrbio seja fechado o quanto antes para que a condução do tratamento culmine em um resultado satisfatório e não permita a associação de outros transtornos ou queixas maiores.

O Borderline não pretende causar mal a ninguém e nem a si mesmo, no entanto, o seu desequilíbrio emocional abrupto cega suas ações e, inconscientemente, criam uma espécie de insanidade temporária.

Transtorno não tem cura, mas tem tratamento

Também chamado de Transtorno de Personalidade Limítrofe, o transtorno de Borderline não tem cura, mas pode ser controlada com um tratamento que associa psicoterapia, medicamentos e, raramente, internação em clínica psiquiátrica – salvo em casos mais severos.

Em situações normais, com acompanhamento psicoterápico com psicanalista ou psicólogo, bem como com orientação médica aliada a medicações específicas, consegue-se tratar o Borderline e fazer com que esse indivíduo tenha um maior suporte terapêutico no controle de seu transtorno.

Não podemos dizer o mesmo quando este indivíduo está dentro de um reality, onde as emoções ficam afloradas e o psicológico é colocado em teste a cada segundo. Além disso, a intensidade dos sentimentos e o nível dos desafios pessoais dentro de um confinamento exigem das pessoas um controle emocional muito maior.

Que fique claro, enfim, que a pessoa diagnosticada com o Transtorno de Borderline precisa estar em constante vigilância de um profissional de saúde mental, fazendo a administração correta da medicação proposta para que as crises sejam menos intensas e que ocorram em espaço maior de tempo, possibilitando qualidade de vida e equilíbrio psíquico.

Andrea Ladislau, doutora em Psicanálise Contemporânea (Foto: Pedro Costa)

 

Por Favor, Compartilhe!

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

In the news
Leia Mais