Os soluços de Bolsonaro: suspeita de estresse, refluxo ou câncer?

Bolsonaro vinha se queixando de soluços há quase 2 semanas, passou mal e foi internado com dores abdominais. Entenda as possíveis causas

Após duas semanas queixando-se de soluços, presidente Jair Bolsonaro passou mal e foi ao hospital fazer exames (Foto: Edilson Dantas (25/6/21)

O presidente Jair Bolsonaro, de 66 anos, passou mal nesta quarta-feira (14/7) e foi internado de emergência no Hospital das Forças Armadas, em Brasília, para fazer exames. Ele reclamava de soluços frequentes há pelo menos duas semanas e durante a madrugada sentiu fortes dores abdominais. Muitas especulações começam a surgir já que soluços que persistem por mais de 48 horas não são comuns e podem ser indicativos desde um simples estresse, uma crise de refluxo mais severa ou mesmo um câncer de esôfago.

Inicialmente, foi divulgado que Bolsonaro deveria ficar internado entre 24 e 48 horas para que os médicos chegassem a um diagnóstico conclusivo sobre o novo mal estar. No entanto, o cirurgião gástrico Antônio Macedo – o mesmo que realizou os procedimentos cirúrgicos em Bolsonaro após a facada – foi chamado às pressas a Brasília e, após avaliar o presidente, disse que ele sofre de uma nova obstrução intestinal. Macedo recomendou que o paciente seja transferido para São Paulo, onde, após novos exames complementares, poderá passar ainda nesta quarta por uma nova cirurgia de emergência, no Hospital Albert Einstein, um dos mais caros do país.

Em meio à forte pressão das ruas, do STF e do Senado Federal e ao avanço da CPI da Covid, que agora investiga um suposto esquema de corrupção no Ministério da Saúde na compra da vacina Covaxin para Covid-19, Bolsonaro tem demonstrado muito nervosismo nas últimas semanas. Ele passou a se queixar dos soluços no último dia 8, relatando na ocasião já sentir o incômodo uma semana antes. Causado por contrações involuntárias do diafragma que dificultam a fala, o soluço de Bolsonaro poderia ter relação com medicamentos que precisou tomar por causa de uma cirurgia para implante dentário, de acordo com o próprio presidente.

Segundo especialistas, as crises de soluço também poderiam estar relacionadas a uma obstrução intestinal que Bolsonaro sofre supostamente como consequência das lesões no abdômen decorrentes da facada que recebeu em setembro de 2018, durante a campanha eleitoral. Por conta disso, ele passou por quatro cirurgias por conta de hérnias intestinais. Bolsonaro também já passou por outras duas cirurgias nos últimos três anos – uma vasectomia e a retirada de um cálculo na bexiga – e ainda deveria passar por mais uma cirurgia de hérnia intestinal, também supostamente associada à facada.

O soluço é um reflexo e ocorre por causa da contratura involuntária ou espasmo do diafragma, músculo que separa o pulmão do abdômen. Sempre que o estomago se distende muito, este sintoma pode aparecer. Os bebês são os mais atingidos. Em geral, o soluço é transitório, benigno e autolimitado, ou seja, desaparece do mesmo jeito que aparece, espontaneamente. Otorrinolaringologistas apontam algumas dicas simples para conter as crises de soluço, como respirar com um saco na boca e nariz ou parar de respirar por alguns instantes. Mas caso o soluço persista por mais de 48 horas, o ideal é procurar um médico para investigar se existe alguma doença de fundo mais grave.

Soluços crônicos e prolongados podem indicar doenças graves

Refluxo causa eructação e dor torácica

Além dos soluços, o presidente tem refluxo gastroesofágico, que consiste no retorno involuntário e repetitivo do ácido do estômago para o esôfago, causando uma sensação de queimação no peito. É por isso que o refluxo ácido é comumente chamado de azia. A maioria das pessoas apresenta refluxo ácido apenas ocasionalmente. No entanto, algumas pessoas têm refluxo ácido mais de duas vezes por semana. Esta forma crônica de refluxo ácido é chamada de doença do refluxo gastroesofágico (DRGE).

“Essa doença é séria e pode levar a problemas graves de saúde se não for tratada. Os principais sintomas incluem: sensação de queimação no peito; regurgitação (semelhantes à gorfada dos bebês); eructação (arrotos); dificuldades de deglutição (para engolir alimentos ou mesmo líquidos); dores abdominais; é comum os pacientes sofrerem com náuseas, vômitos, indigestão e flatulência”, afirma a médica nutróloga Marcella Garcez, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).

A especialista explica que o refluxo ocorre quando o músculo no final do esôfago (o esfíncter esofágico inferior) não fecha com força suficiente. “Esse músculo deve abrir por um período muito curto de tempo quando você engole. Se não fechar corretamente ou relaxar com muita frequência, o suco gástrico e o conteúdo do estômago podem voltar para o esôfago”, afirma a Dra. Marcella. A causa específica da doença ainda não é totalmente conhecida, mas sabe-se que a DRGE sofre influência genética e piora em situações estressantes e por hábitos alimentares.

Comer grandes volumes em uma refeição ou muito rápido, além da ingestão de bebidas gaseificadas, refrigerantes, café, álcool e bebidas alcóolicas e ainda o consumo de certos alimentos, agravam o problema. A lista de alimentos que merecem cuidado é grande e inclui: alho, cebolas, comidas fritas, alimentos ricos em gordura, laticínios, alimentos picantes, tomates, chocolates e depende de fatores individuais”, diz a médica.

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Um perigo silencioso: câncer de esôfago

Uma suspeita – que não pode ser descartada também no caso de Bolsonaro – é a possibilidade de um diagnóstico de câncer de esôfago – soluços persistentes são um dos sintomas dessa doença que afeta mais os homens entre 50 e 70 anos. “O sintoma mais mais comum dessa lesão maligna é o problema da deglutição, da sensação de que a comida está presa na garganta, denominada disfagia. Associado a isso, o paciente geralmente perde muito peso em um intervalo curto de tempo. Outros sintomas incluem dor no tórax, azia e sensação de má digestão, rouquidão, tosse persistente, vômitos e soluços”, avalia o oncologista Adolfo Scherr, do Grupo SOnHe – Sasse Oncologia e Hematologia, de Campinas, interior de São Paulo, nesta matéria ao ViDA & Ação em 2018.

Altamente letal, câncer de esôfago atinge mais os homens

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), este é o sexto tipo de câncer mais frequente entre os homens e 13º entre as mulheres (excluindo o câncer de pele não melanoma). Apesar de menor incidência, o câncer de esôfago tem uma alta letalidade e acomete mais homens entre 50 e 70 anos de idade. O tabagismo e o álcool são os principais fatores de riscos para a doença. Ao todo, 3,94 pessoas acabam morrendo da doença para cada grupo de 100 mil habitantes.

Segundo ele, o tipo de tumor mais frequente no esôfago é o carcinoma epidermoide escamoso, responsável por aproximadamente 96% dos casos. “Infelizmente, a maioria dos cânceres que acometem esse órgão não causam sintomas até que tenham atingido um estágio avançado, quando eles são mais difíceis de serem tratados”, ressalta o especialista. O exame mais importante para diagnóstico dos tumores de esôfago é a endoscopia digestiva alta, que permite enxergar o órgão por dentro e retirar amostras de tecido para uma biópsia. No entanto, não há nenhuma recomendação formal de realização de exames na população geral para rastreamento da doença.

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Os sintomas e a agenda do presidente

Em sua live semanal de quinta-feira (8/7), o presidente falou pela primeira vez do sintoma. Ele pediu desculpas pelos soluços e terminou sua fala antes que o habitual, após apresentar dificuldades para falar e cansaço. “Estou há uma semana com soluço, talvez não consiga me expressar bem nessa live”.

A apoiadores, na área externa do Palácio da Alvorada, o chefe do Executivo voltou a se queixar dos soluços na última sexta-feira (9/7). Bolsonaro disse que iria poupar a voz em função do problema. “Estou há sete dias soluçando e tenho dois discursos hoje e um amanhã, portanto, não vou falar muito. Estou poupando aqui para falar”, disse.

Mesmo assim, no fim de semana, Bolsonaro manteve seu tradicional passeio de moto, acompanhado de centenas de motociclistas, todos sem máscara. Na segunda-feira (12), quando teve entre os compromissos um encontro com o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, que o “enquadrou” por excessos nos ataques à democracia – ele chegou a ameaçar as eleições de 2022 caso não seja aprovado o voto impresso, como ele deseja -, Bolsonaro também sofria com soluços.

Na noite desta terça (13), em conversa com apoiadores, ele voltou a falar do assunto: “Pessoal, eu estou sem voz, pessoal. Se eu começar a falar muito, volta a crise de soluço. Já voltou o soluço”. Conforme acordado no encontro com Fux, o chefe do Executivo deveria se encontrar nesta quarta com chefes dos outros dois poderes – Judiciário (STF) e Legislativo (Câmara e Senado) – para discutir um alinhamento, em torno do respeito à Constituição Federal e a garantia da governabilidade e do Estado Democrático de Direito.

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Com Agências

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